As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

O final e o depois

Imagem: Mike
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EUGÊNIO BUCCI*

O que está se passando no Brasil não é nada de corriqueiro. Há muito mais para entender

O noticiário só tem olhos e ouvidos para o futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva e seu vice, Geraldo Alckmin. Notícias sobre a já célebre PEC da Transição, para providenciar um puxadinho no teto de gastos, abarrotam espaços e horários jornalísticos. Arranjos e rearranjos para preencher cargos nos ministérios também desfilam com destaque, ao lado de relatos em torno da numerosa equipe de transição propriamente dita. Tivemos ainda a intensa e inevitável cobertura da solenidade da diplomação dos eleitos no Tribunal Superior Eleitoral, na segunda-feira.

Olhando para os jornais e para os telejornais, a gente até esquece que ainda existe um presidente da República ainda lá, um tal que não se chama Lula. O estranho é que o sujeito sumiu, deu um perdido. Talvez devesse responder por abandono de emprego. Para complicar o quadro, jamais declarou que admite o resultado eleitoral. Em vez disso, emite sinais de soslaio para insuflar o pessoal que bloqueia rodovias e se ajoelha na frente de quartéis rogando por um golpe militar. Pois esse mesmo cidadão ainda é o chefe de Estado e o chefe de governo deste país aqui. Trata-se de um fato chocante e inconcebível. A inoperância caótica do Poder Executivo em Brasília é a maior notícia da temporada. Que desmantelamento espantoso. Não obstante, quase não há reportagens a respeito.

É verdade que, às vezes, uma coisinha ou outra aparece. Por exemplo: os protestos que atearam fogo em automóveis nas ruas da capital federal na noite de segunda acabaram aflorando nas páginas dos diários e nos telejornais. Na terça-feira, anteontem, o jornal O Estado de S. Paulo trouxe no alto de sua primeira página, em bom tamanho, uma foto de Wilton Junior em que a carcaça de um ônibus arde em chamas. Cena de guerra, de atentado terrorista. Foi um dos poucos momentos em que um acontecimento relacionado ao atual governante mereceu cobertura da imprensa.

Sim, o atentado incendiário que explodiu nas avenidas brasilienses tem parte com o Palácio do Alvorada. O mandatário em questão não faz nada contra a violência política que se espalha. Age por omissão. É responsável porque se omite – no mínimo. A ele parece interessar somente o pânico e o desgoverno. Mas por que, exatamente? Com quem ele conversa? Que ordens distribui? Será que isso não merecia mais atenção do jornalismo?

A Justiça Eleitoral acertou ao antecipar em uma semana a diplomação de Lula e Alckmin. O ato oficial que deveria acontecer no dia 19 foi transferido para o dia 12. Com a alteração de agenda, o TSE surpreendeu os delinquentes, que ficaram sem tempo para articular mais ataques – que viriam, sem a menor dúvida. Basta olhar o que os baderneiros aprontaram no dia 12 para constatar que, se tivessem mais sete dias, teriam barbarizado ainda mais. Expelidos do submundo da política, eles transitam feito mortos-vivos, que nem zumbis, como viúvas da banda mais selvagem da ditadura militar. Até hoje idolatram torturadores. Súditos de uma “tchuchuca do centrão” que não dá as caras de peito aberto porque carece de coragem, assumem para si o papelão de arruaceiros de aluguel. Vão atacar de novo.

O mandato do que ainda está no cargo vai acabando, num final sem holofotes. A mentalidade autoritária e violenta vai escorrendo de volta para a mesma escuridão de onde um dia escapuliu. Mas essa energia maligna vai ficar por aí, ao menos por um tempo. Empoleirados nas boleias do crime, os súditos da fantasia tirânica ainda tentarão estrangular estradas, aterrorizar o país e desestabilizar o futuro governo. Ficarão de tocaia, esperando a oportunidade. Eles são a maior realização deixada pelo mandatário que se despede da cadeira. Por pouco, muito pouco, não conseguiram reeleger o pacto distópico que os alucina. Fracassaram agora, com o seu golpismo incompetente, mas voltarão.

Fiquemos de olho. Essas forças sombrias, que no futuro merecerão o desprezo da história, não devem sair do foco do jornalismo. Não é hora de esquecer, nem de virar a página. Em que consistiu esse regurgitar do arbítrio? Por que se entranhou tão fundo nas famílias, nas cidades, nas igrejas, em campos e construções do Brasil? Que nexo é este que amarra redes sociais, igrejas, casernas, fazendas, milícias e o janotismo delirante da Faria Lima? Quem os financia? Como? Quais as ligações internacionais que os sustentam? Por que sua propaganda se mostrou tão poderosa?

Não basta dizer que foi o dinheiro do Auxílio Brasil que catapultou os votos da reeleição, porque não foi só isso. As perguntas são muitas e seguem em busca de respostas. O que está se passando no Brasil não é nada de corriqueiro. Há muito mais para entender – e há muitos fatos mais a conhecer, daí a necessidade do jornalismo. O país pode ter memória curta, mas a imprensa não tem mais esse direito.

Na segunda-feira, na cerimônia de diplomação do presidente e do vice-presidente eleitos, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, foi direto: “Os que atacaram a democracia, garanto, serão integralmente responsabilizados”. E a imprensa, o que tem a garantir?

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Roberto Bueno Lincoln Secco Marcelo Guimarães Lima João Carlos Loebens Daniel Costa Alexandre de Freitas Barbosa Ronald Rocha Ricardo Abramovay Henry Burnett Valerio Arcary Francisco de Oliveira Barros Júnior Daniel Brazil Henri Acselrad Andrew Korybko Afrânio Catani Heraldo Campos Érico Andrade José Geraldo Couto Marcus Ianoni Eleonora Albano Igor Felippe Santos Francisco Fernandes Ladeira Vanderlei Tenório Ronaldo Tadeu de Souza Eliziário Andrade Annateresa Fabris Anselm Jappe Eugênio Bucci Jorge Luiz Souto Maior Osvaldo Coggiola Everaldo de Oliveira Andrade Julian Rodrigues Rafael R. Ioris Milton Pinheiro José Micaelson Lacerda Morais João Feres Júnior Marcos Aurélio da Silva José Dirceu Walnice Nogueira Galvão Fernando Nogueira da Costa Carlos Tautz Luiz Bernardo Pericás Ronald León Núñez Luiz Carlos Bresser-Pereira Tarso Genro Luiz Marques Vladimir Safatle Paulo Martins Renato Dagnino Bruno Fabricio Alcebino da Silva Daniel Afonso da Silva Mário Maestri Gilberto Lopes Fábio Konder Comparato Eduardo Borges João Lanari Bo Luiz Werneck Vianna Atilio A. Boron André Singer André Márcio Neves Soares João Sette Whitaker Ferreira Luciano Nascimento Marcelo Módolo Marjorie C. Marona Paulo Sérgio Pinheiro Marcos Silva Plínio de Arruda Sampaio Jr. Armando Boito Manchetômetro Tadeu Valadares Mariarosaria Fabris Eugênio Trivinho Yuri Martins-Fontes Bernardo Ricupero Jean Marc Von Der Weid Ari Marcelo Solon Leonardo Boff Alysson Leandro Mascaro Leda Maria Paulani Lorenzo Vitral Valério Arcary Thomas Piketty João Carlos Salles Liszt Vieira Paulo Fernandes Silveira Samuel Kilsztajn Priscila Figueiredo Alexandre Aragão de Albuquerque Francisco Pereira de Farias Remy José Fontana Rodrigo de Faria José Luís Fiori Gerson Almeida Claudio Katz Slavoj Žižek Carla Teixeira Paulo Nogueira Batista Jr Jorge Branco Juarez Guimarães Eleutério F. S. Prado Luiz Eduardo Soares Luiz Costa Lima Luís Fernando Vitagliano Bento Prado Jr. Maria Rita Kehl Sandra Bitencourt Bruno Machado Dênis de Moraes Boaventura de Sousa Santos Chico Whitaker Ladislau Dowbor Celso Frederico Airton Paschoa Ricardo Fabbrini José Costa Júnior Berenice Bento Michael Löwy Elias Jabbour Manuel Domingos Neto José Raimundo Trindade Paulo Capel Narvai João Paulo Ayub Fonseca Michael Roberts Antônio Sales Rios Neto Dennis Oliveira Roberto Noritomi Caio Bugiato Anderson Alves Esteves Ricardo Musse Benicio Viero Schmidt Marilena Chauí Flávio R. Kothe Gabriel Cohn Fernão Pessoa Ramos Ricardo Antunes Leonardo Sacramento Lucas Fiaschetti Estevez João Adolfo Hansen Denilson Cordeiro Gilberto Maringoni Leonardo Avritzer Chico Alencar Jean Pierre Chauvin Antonio Martins Luiz Renato Martins Marilia Pacheco Fiorillo Tales Ab'Sáber Antonino Infranca José Machado Moita Neto Rubens Pinto Lyra Luiz Roberto Alves Alexandre de Lima Castro Tranjan Salem Nasser Luis Felipe Miguel Celso Favaretto Otaviano Helene Sergio Amadeu da Silveira Kátia Gerab Baggio Vinício Carrilho Martinez Flávio Aguiar

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada