O misticismo em Torto Arado

Anna Boghiguian, Os comerciantes de sal, 2015

Por DANIEL BRAZIL*

Considerações sobre o romance de Itamar Vieira Junior

Este breve comentário sobre um dos mais bem-sucedidos romances brasileiros contemporâneos é mais uma especulação sobre alternativas ficcionais do que uma crítica ao minucioso trabalho do autor, Itamar Vieira Junior. Alguns leitores hão de achar que faço revelações sobre o final, o que não é exatamente verdade. Espero que meus devaneios sirvam para aguçar a curiosidade, jamais para desanimar a leitura. Assim como também anseio que todo o mistério e encanto da palavra revelação nunca possa ser substituída pelo vulgar e exótico spoiler.

As qualidades do belo romance Torto Arado já foram suficientemente enaltecidas nos meios literários. Premiado no Brasil e em Portugal, recoloca em discussão o Brasil rural, a população negra espoliada de seus direitos básicos, a exploração do trabalho no campo, a omissão da Justiça e a ausência de políticas públicas em meados do século XX. Sem colocar datas, o autor soube, de forma muito hábil, retratar uma situação que ainda perdura, garantindo sua atualidade. Geógrafo de profissão, e funcionário do Incra, conviveu por muitos anos com a questão agrária, e conhece de perto o mundo que retrata. Ou recria.

O ponto de partida é promissor. Duas irmãs, descendentes de escravos, nascidas na roça, passam por uma experiência (um acidente?), ainda meninas, que vai marcar suas vidas. Bibiana é a narradora da primeira parte, e desenha o cenário, coloca dados históricos e apresenta os principais personagens. O início é magnífico, como realização literária. Uma escrita plena de cores, sabores e sentidos, que evoca e revitaliza autores ligados ao regionalismo, como Graciliano e Rachel de Queiroz.

O livro é dividido em três partes. A narradora da segunda parte é a outra irmã, Belonísia, e aqui há uma dolorida ironia, uma vez que ela não tem voz fisiológica. Os contornos dos personagens ganham nitidez e também nuances. Ambas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um líder comunitário e espiritual que incorpora entidades nos jarês, rituais de origem africana com influências indígenas e espíritas.

Podemos dizer que com estes recursos o autor se afasta do realismo cru do regionalismo e se aproxima de autores como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, mestres baianos na mestiçagem entre gêneros. E também do chamado realismo mágico latino americano, que marcou de forma profunda a formação de muitos escritores contemporâneos.

Este forte confronto, nunca resolvido, entre o misticismo e a realidade, o subjetivo e o objetivo, a fé e a materialidade nas lutas sociais, é o grande nó da terceira parte. A voz narrativa é entregue a uma entidade, Santa Rita Pescadeira. E o momento culminante, em termos dramáticos, onde se misturam sentimentos de justiça e vingança, é determinado por um fator sobrenatural.

Há criação nisso tudo, há certa poesia. Fazendo uma analogia, um dos momentos mais memoráveis do romance Pastores da Noite, de Jorge Amado, se dá quando uma entidade do candomblé baixa num padre, dentro de uma igreja em Salvador. Alguns podem fazer leituras psicanalíticas destes momentos de transe, em que um personagem toma decisões cruciais inspirado, conscientemente ou não, por seus fantasmas, suas lembranças ou suas crenças. Para ficar no cânone ocidental, Shakespeare utilizou bem esse estratagema em Hamlet e em outras obras.

O problema que a terceira parte de Torto Arado nos coloca é até onde dependemos de soluções externas, místicas ou religiosas para resolvermos o problema material da questão agrária, da luta no campo, do reconhecimento de direitos do povo negro, dos indígenas, dos imigrantes. Um personagem bem terreno, Severo, surge desde o início. Ganha corpo na segunda parte, e torna-se fundamental no desenlace do enredo. Vai estudar na cidade, torna-se sindicalista, casa-se com Bibiana, e volta para a terra natal organizando os campesinos. Mas não será por suas mãos que a justiça será feita. Ele fará parte do que Frantz Fanon denominou de “condenados da terra”.

Está colocado aí um dos grandes dilemas do romance. Entre a fantasia e o enfrentamento da realidade, há uma larga correnteza de possibilidades artísticas. Se Itamar Vieira Junior mantivesse o desenlace dramático nos trilhos do realismo, receberia aplausos de alguns e críticas de outros. Os tradicionais defensores de classe, de gênero e de raça, torceriam o nariz.

E vice-versa. A opção por um final motivado pela força imemorial e inconsciente das tradições pode cativar alguns e atrair antipatias de outros. Num país dilacerado por um governo genocida, racista e destruidor do meio ambiente, é ingênuo crer que os deuses irão salvar os indígenas, os quilombolas, os desempregados, os sem teto e sem comida.  Ou mesmo que um deus semita tornado branco irá salvar a classe média, se ela continuar cordata e conivente.

Longa e próspera vida ao Torto Arado (nome extraído de um verso do arcadista Tomás Antonio Gonzaga, in Marília de Dirceu), por seus evidentes méritos estilísticos e sociológicos, apesar das ressalvas. Aguardemos com atenção as próximas obras do autor, que promete aprofundar e ampliar o tema. E que a epígrafe de Raduan Nassar citada no livro inspire a sua pena: “A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo”.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

 

Referência


Itamar Vieira Júnior. Torto arado. São Paulo, Todavia, 2019, 264 págs.