O mito é o mito é o mito

Imagem: Anselmo Pessoa

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

O mito suposto como resultado de marketing e propaganda em processo de personificação não pode ser exercido fora de profunda mediocridade

Um mito, quer personificado em pessoa mítica, quer constituído em forte mediador social, como ocorre com o capitão-presidente, não poderia dirigir uma República, pois o mito precisa se impor sobre as gentes mediante o que surrupia e esconde da sociedade; noutras palavras, ele não pode existir sem deformar o espaço que domina. O mito nunca tem qualquer coisa a ver com a coisa pública (a res publica) e pouco a pouco destrói a República, a par de causar enormes danos aos modos democráticos de construir a sociedade. Em posição contrária, quando há pessoas e instituições que dirigem ações republicanas terão de se revelar e se multiplicar, mostrar-se a favor de distintos diálogos, encarar com serenidade as diferenças e dar-lhes todo o valor devido, prestar contas de tudo o que envolveu a coisa pública (até com o sacrifício da família) e buscar alguns consensos no conjunto de projetos e ações, ainda que mínimos, mas indispensáveis.

No começo o mito rouba a fala da sociedade e a emite sozinho, como voz coletiva que garante fazer e acontecer para o bem das gentes. O mito, ou o mítico, está sempre certo, porque sua fala e seus discursos se repetem como verdade exclusiva, independente da condição ateia, agnóstica ou religiosa. Neste último caso, textos sagrados costumam ser invocados e repetidos até o momento em que não se leiam ou se citem outros textos. O discurso repetido do texto se torna proprietário da fala coletiva, mesmo que aqueles que o repetem não consigam explicar de onde veio, quais as suas significações e seus anteriores contextos históricos.  Nesse movimento totalitário, o exercício exclusivo da fala (surrupiada antes e já um pouco esquecida) começa por provocar certa perda de memória dos fenômenos que se costuma chamar de históricos, o que na prática leva também à morte da história dos agrupamentos humanos mitificados.

À página 73 do seu livro Tentativas de Mitologias, Sérgio Buarque de Holanda afirma que “(…) o mito é o meio mais fecundo de se submeterem as gentes a uma dieta rigorosa, que encaminha seus intentos e suas vontades a certos fins magníficos (…)¨. Mestre Holanda não se enganou com a expressão fins magníficos, pois a fala total, repetida, que não ouve nenhuma outra e se basta em si mesma (pois, sendo “verdade” é exclusiva) não propõe outra coisa que finalidade extraordinária, de fato grandiosa. O problema, no caso, é a dieta (o regime pelo qual o povo passa) no rumo da suposta grandiosidade, que também pode causar sofrimentos e doenças – pois pode demorar todo o tempo da vida!! – e levar a mortes enquanto se afirma a verdade e a vontade do mito. Bem, se isso acontecer, o mito terá de gritar: que fazer? Sempre morre gente, não é mesmo? O ser mítico não tem nenhuma responsabilidade pela doença ou pela morte. Tudo é natural.

O historiador não escreveu que os fins magníficos são alcançados. Há um montão de gente que morre pelo caminho, outros se desiludem e se desorientam pela vida afora, mas também há quem espere e espere no meio da dieta rigorosa. A dieta exigida pelo mito não tem prazo, nem tempo, embora as promessas sejam enunciadas repetidamente… Geralmente, os fins magníficos encurtam a vida.

Outro pensador, Roland Barthes, tanto em A atualidade do mito (1977) quanto em Mitologias (1980, 4 ed.) foi responsável por mostrar o que já se destacou no começo deste texto, o roubo da palavra pelo mito, sua exclusividade, sua constituição de verdade. Mas essa verdade não é mais a que esteve nos livros e nos discursos de pessoas. De tanto repeti-la e de tanto que ela foi aceita por bastante gente, virou algo sólido e rígido como uma pedra de milhões de anos: é um conjunto de falas e discursos com valor natural. Naturalmente as pessoas morrem pelos vírus ou bactérias; naturalmente os índios são iguais a nós e desejam garimpos e casinos;  naturalmente os pobres e miseráveis precisam ganhar uma graninha mensal; naturalmente filhos e amigos precisam ser privilegiados no governo; naturalmente os tribunais não podem perturbar o governante e seus ministros; naturalmente todo discurso de estrangeiro sobre a Amazônia é mentiroso, ardiloso, podre de inveja; naturalmente toda a natureza dos parques e reservas precisa se encher de turistas e render taxas, comércio, explorações diversas, naturalmente! É também mais que natural para o mito que a criançada de escola e seus professores esperem receber uma grana preta do Fundeb e, naturalmente, devemos repartir esse dinheiro para a refeição dos pobres, pelo menos até 2022. Por que não?

Tudo se naturaliza, não no sentido do fato em si, mas no discurso que institui a “verdade” do fato. Vejam-se outras situações: a completa ignorância dos ministros sobre desejos e necessidades da gente brasileira, a ausência  de crimes administrativos e éticos do presidente (mito) na boca de Rodrigo Maia (que prepara os palanques para 2022), os milhões de “famílias desajustadas” e o “homossexualismo” da meninada (que não conheceu uma mulher de fato, um homem de fato (??) na cabecinha do senhor Ribeiro, o (des)educador do MEC. Essas coisas são assim porque têm de ser e não há problema algum. Especialmente porque foi dito e feito neste governo mítico, seguro, garantido como a vida que brilha, arde e se submete, naturalmente, no Pantanal.

Naturalíssimo é saber que os únicos “tocadores” de fogo no Pantanal e na Amazônia são os pobres do mundo rural e das florestas. Natural porque é sempre assim mesmo, né?

Os dois últimos parágrafos não representam nenhuma brincadeira. O mito suposto como resultado de marketing e propaganda em processo de personificação não pode ser exercido fora de profunda mediocridade, baixo calão, mentira natural,bmistura necessária do sagrado e do profano. É quando já não se reconhece que os horrores podem não ser naturais. Mas esse horror, iniciado em janeiro de 2019, ainda com apoio de milhões de brasileiros, não existiria no vazio. Há um povo que dá suporte.

O mito exige que se realize um acordo simbólico, isto é, um acordo forte que junte os comprometidos com os projetos de poder para inovar, reformar, modernizar, modificar o Brasil, bastando para isso que sempre fique igual quanto ao mando e ao poder e sobrem recursos para assistencialismo. Entenda-se aí momentos democratizantes breves.  Nesse sentido, pode-se mudar tudo, bastando que profundamente nada se mude. Daí se entende a retórica do Guedes e do Bolsonaro: vender, reformar, alienar, oferecer, mas de fato nada mudar quanto ao principal, isto é, ter à disposição o exército de pobres e necessitados, flexibilizados pelos regimes de trabalho ou sem trabalho algum. Quando necessário, criam-se canais de acesso a algum recurso, que depois volta ao caixa dos governos e das corporações de lucros, sem poupança. Do mesmo modo, cabe historicamente alardear que educação é prioridade, enquanto se joga 5 milhões de adolescentes empobrecidos, sem eira nem beira, na mira dos pistoleiros, militares ou não.

Há, pois, grandes consequências. Esses predicados naturais, naturalizados, não admitem república ou democracia, res publica ou governança de gente distinta e diversa, exceto se forem naturalmente enfraquecidas, fragmentadas e, por que não, terem a mesma essência do idioleto (a fala enrijecida e empoderada) mítico, ou seja, surrupiarem informação, diminuírem as representações dos movimentos sociais, afastarem toda a oposição, encontrarem salvacionistas, submeterem partidos e representantes, naturalmente, à ordem unida e a soldo.

Sob o mito não há mais que falar em autonomia, autodeterminação, divisão de poderes. Nem representação indireta do povo. E se a educação, a cultura, a saúde, o trabalho, as representações diretas, o ambiente ecológico e os direitos dos sujeitos-criança, sujeitos-jovens, sujeitos-adultos, em qualquer circunstância, perderem ainda mais referências (além do muito que já perdeu) e deslizar para a naturalização, todo o discurso político ou jurídico poderá se tornar futilidade. Não há tribunal que reverta uma situação nessa profundidade. Já se disse que a mediocridade é indispensável para a mitificação. Pois bem, a “verdade mítica” se manifesta integralmente em expressões linguísticas como: e daí? Que é que eu posso fazer? Não vejo problema algum! Vou dar o cartão vermelho! O fogo era uma pedra quente. Na minha família não há corrupção, eu encho a sua cara de porrada e centenas de outras. Tais enunciações respondem a um enunciado precedente em que não havia dúvida, tudo estava certo, tudo era verdade, naturalmente. Ali se fez a anti-criatividade, o anti-empreendimento, pois a toalha já foi entregue e não há mais lutadores. O único empreendimento que restou foi o resultante do adestramento e do treinamento, atos notórios denão criatividade. Daí as expressões fáceis, toscas, rudes, que se imiscuem na consciência individual cotidiana incapaz de ver coisas novas sob o sol. Já não dá mais, pois, como sugeriu Barthes, qualquer mudança nesse amassamento de consciência, exceto por profunda ruptura com essa mesma linguagem instituidora da condição mítica. Começa-se, pois, com a rebeldia contra o léxico fácil e asqueroso. No movimento posterior, mobilizam-se vontades, ainda que enfraquecidas por meio do alerta sobre a realidade do mito. A denúncia dos nossos indígenas no parlamento da Noruega é dado de mobilização anti-mítica. Há mais valores saltando em algumas redes sociais. Pode nascer daí o que propôs Agnes Heller, uma consciência genérica, que incorpora de modo solidário e generoso os outros e as outras num início de diálogo. Aí há chance de libertação e caminhada para a autonomia individual e coletiva.

Ainda falta demonstrar que as personificações míticas podem trazer azar, mau agouro e desgraças de distintas ordens, até porque a naturalização pode encontrar graus variáveis de mitificação. Na fala do espírito crítico, o mal deita e rola na história e na geografia dos infelizes mitificados. Com certeza, na chegada dos horrores alguém poderá levantar uma questão, ainda que ingênua. A resposta será simples e fácil:  E daí? Tem de acontecer! Mas as gentes podem estar em estágios distintos do grupo de poder e, como famílias e comunidades, sofrem muito com os males. As relações internacionais também podem sugerir algumas referências ao enfrentamento do discurso naturalizador, portanto mítico, como ocorre agora com a quase completa desqualificação do Brasil no mundo. Enfim, o enfrentamento do mito e do mítico exige aprendizado, aquele modo de se educar mutuamente numa espécie de congregação dos e das ainda não amassados e amassadas pela verdade mítica, que é de fato o roubo da verdade, visto que essa sempre admite a diversidade, os argumentos, os diálogos, as considerações sobre a diferença.

Quem não admitir ser amassado pelo mítico, tem uma missão muito especial, ou seja, batalhar urgentemente por um país arejado, leve, livre, aberto e espaçoso. O que está posto, por obra do mito e do mítico é certamente o contrário. Carece de botar fé em que nossa gente terá olhos de ver.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.