As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

O discurso geopolítico

Imagem: Ricky Gálvez
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JOSÉ MACHADO MOITA NETO

A imprensa ocidental aprendeu a interpretar os desejos geopolíticos dominantes pela simples troca da palavra presidente por ditador

Ao conectar as práticas discursivas com as práticas sociais, Norman Fairclough não relembrou a pergunta mais filosófica ouvida pelas crianças antigamente: Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? O contexto de tal pergunta não era acadêmico, era o de apresentar um dilema para quem sabia que galinhas colocam ovo e que galinhas um dia nasceram de um ovo. Um deslocamento de contexto, seguido de mudança semântica para ampliar o sentido de ovo (qualquer ovo, inclusive de répteis), pode encontrar uma resposta na teoria da evolução. Um discurso tem um ciclo de vida com as etapas de produção, distribuição e de consumo. Em todas as etapas, há uma presença direta ou indireta de práticas sociais existentes ou requeridas. Um discurso combate ou reforça tais práticas sociais.

Quando a interdependência entre práticas discursivas e práticas sociais não é clara, podemos estar diante de dois fenômenos diferentes: (a) é uma experimentação de forçar a criação de uma prática social a partir de uma prática discursiva intensa. A estratégia de associar futebol ao consumo de bebidas é um exemplo de êxito de tal experimentação; (b) é um uso ideológico que perdeu o nexo na atualidade, mas que ainda pode ser reativado fazendo a devida mudança de contexto e a alteração semântica que for necessária. Por exemplo, o heroísmo de Leônidas, derrotado na batalha de Termópilas, lembra que o motivo de tal luta era conter o expansionismo persa. Contudo, não há o mesmo esmero em fabricar heróis em tantas outras lutas contra o expansionismo no mundo.

Transformações de derrotas em vitórias ou em heroísmos desmedidos têm anestesiado o público que assiste no cinema ou aprende na escola algumas narrativas verdadeiramente surreais, quando comparadas com as práticas sociais ou estratégias geopolíticas implementadas. Essas práticas discursivas são experimentos de deixar no passado aquilo que se observa no presente ou de trazer para o presente aquilo que não aconteceu no passado. Ambos os movimentos devem ser alvo de uma análise crítica do discurso visando trazer novas interpretações aos fatos pretéritos que podem determinar fatos atuais. Compreender os discursos assim arquitetados é empreender um observatório de ações futuras.

Em qualquer guerra, a primeira e a última batalha é sobre o imaginário coletivo das partes. O acompanhamento das práticas discursivas, na geopolítica, antecede as das ações táticas. A imprensa ocidental aprendeu a interpretar os desejos geopolíticos dominantes pela simples troca da palavra presidente por ditador ou através de matérias jornalísticas que mostram quanto tempo o governante está no poder. Tais notícias não são mentiras, são verdades selecionadas. São discursos que omitem tantos outros regimes totalitários com apoio americano e inglês, por exemplo.

A grande quantidade de crimes ambientais e a derrota na guerra do Vietnã pelos EUA foram amenizadas em diversas batalhas vitoriosas mostradas no cinema. O discurso sobre as armas de destruição em massa[i] e a demonização de Saddam Hussein como inimigo colocaram as bases para o apoio social da guerra no Iraque nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em ambos os casos, apenas uma parte da história, aquela mais conveniente em termos geopolíticos, foi divulgada ao público com intensidade. Os detalhes que equilibram as narrativas só podem ser acessados através da geopolítica crítica ou da antigeopolítica.

A geopolítica crítica ou antigeopolítica vão dizer que existem outras narrativas atuais para diversos conflitos existentes interna ou externamente e que influenciam o destino das nações. A geopolítica crítica concentra-se na prática discursiva hegemônica para mostrar omissões, enquanto que a antigeopolítica se concentra em apresentar uma prática discursiva não hegemônica, vozes que não conseguiram se impor no presente. Tanto a geopolítica crítica quanto a antigeopolítica, articulam novos discursos ou metadiscursos. Por estarmos no Brasil, conhecemos uma narrativa única e convergente de diversos meios de comunicação que favorecem a visão geopolítica hegemônica dos países da OTAN. Qualquer visão diferente, mesmo a de neutralidade, deve ser alimentada através de uma prática discursiva a ser construída.

*José Machado Moita Neto é professor aposentado da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e pesquisador da UFDPar.

Nota


[i] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5158j6902mo


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Boaventura de Sousa Santos Mário Maestri Priscila Figueiredo Tarso Genro Lorenzo Vitral Leonardo Avritzer Ricardo Fabbrini José Micaelson Lacerda Morais Rodrigo de Faria Marcus Ianoni José Costa Júnior Luiz Werneck Vianna Otaviano Helene Eduardo Borges Tadeu Valadares Ronald León Núñez Benicio Viero Schmidt Elias Jabbour Slavoj Žižek Marcelo Módolo Leonardo Boff Rafael R. Ioris Luis Felipe Miguel Antonino Infranca Paulo Nogueira Batista Jr Luiz Eduardo Soares Manchetômetro Flávio R. Kothe Gabriel Cohn Salem Nasser Andrew Korybko Vladimir Safatle Armando Boito Henry Burnett Vanderlei Tenório Jorge Branco Daniel Costa Airton Paschoa João Carlos Salles Mariarosaria Fabris Leda Maria Paulani Chico Alencar Bruno Fabricio Alcebino da Silva Antônio Sales Rios Neto Leonardo Sacramento Afrânio Catani Jorge Luiz Souto Maior Eleutério F. S. Prado Alexandre de Freitas Barbosa Sergio Amadeu da Silveira Celso Frederico Valerio Arcary Yuri Martins-Fontes Flávio Aguiar Plínio de Arruda Sampaio Jr. Gerson Almeida André Márcio Neves Soares Milton Pinheiro Marcos Silva Daniel Brazil Roberto Noritomi Manuel Domingos Neto Luiz Roberto Alves Anderson Alves Esteves André Singer Samuel Kilsztajn Paulo Fernandes Silveira Juarez Guimarães Antonio Martins Fábio Konder Comparato Dênis de Moraes Francisco Pereira de Farias Ronald Rocha Alexandre de Lima Castro Tranjan Luiz Renato Martins Ari Marcelo Solon Caio Bugiato Heraldo Campos Carla Teixeira Paulo Martins João Carlos Loebens Lucas Fiaschetti Estevez Bernardo Ricupero Alysson Leandro Mascaro Anselm Jappe Eugênio Trivinho Maria Rita Kehl Claudio Katz Gilberto Lopes Ricardo Abramovay Marcos Aurélio da Silva José Machado Moita Neto Bruno Machado Tales Ab'Sáber José Geraldo Couto Osvaldo Coggiola Luiz Marques Gilberto Maringoni Valério Arcary Roberto Bueno Thomas Piketty Jean Marc Von Der Weid Henri Acselrad Fernão Pessoa Ramos Renato Dagnino Carlos Tautz Annateresa Fabris José Dirceu Daniel Afonso da Silva João Adolfo Hansen Sandra Bitencourt Luís Fernando Vitagliano Rubens Pinto Lyra Eugênio Bucci Everaldo de Oliveira Andrade Ronaldo Tadeu de Souza Igor Felippe Santos Ricardo Musse Dennis Oliveira Vinício Carrilho Martinez Luciano Nascimento Francisco Fernandes Ladeira Eliziário Andrade Eleonora Albano Paulo Capel Narvai João Lanari Bo Marcelo Guimarães Lima Denilson Cordeiro Michael Roberts José Raimundo Trindade Fernando Nogueira da Costa João Sette Whitaker Ferreira Julian Rodrigues Bento Prado Jr. Alexandre Aragão de Albuquerque Marjorie C. Marona Walnice Nogueira Galvão Ricardo Antunes Remy José Fontana Marilia Pacheco Fiorillo Marilena Chauí Ladislau Dowbor Luiz Carlos Bresser-Pereira Luiz Costa Lima João Feres Júnior Kátia Gerab Baggio Luiz Bernardo Pericás João Paulo Ayub Fonseca Jean Pierre Chauvin Michael Löwy Liszt Vieira Chico Whitaker José Luís Fiori Érico Andrade Berenice Bento Atilio A. Boron Celso Favaretto Paulo Sérgio Pinheiro Francisco de Oliveira Barros Júnior Lincoln Secco

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada