O passageiro do fim

Patrick Osinski, Blade Runner, 2024
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Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Chico Lopes

1.

O que leva um escritor a revisitar cenários, personagens e situações, ciclicamente, como quem busca desvendar um segredo, tornar-se um demiurgo ou encontrar uma revelação? Há vários casos notórios na literatura universal, de William Faulkner a Annie Ernaux, que a cada obra parecem perseguir, de maneira obstinada, um objeto nem sempre perceptível para seus leitores. No Brasil, Dalton Trevisan talvez seja o exemplo mais famoso de escritor obsessivo em sua temática.

O novo romance de Chico Lopes, o coloca nessa curiosa categoria. Novamente nos deparamos com uma trama passada numa cidade do interior, onde um personagem meio sombrio e macambúzio convive com seus fantasmas e lembranças, enquanto mal suporta os viventes reais à sua volta.

Severini já passou dos sessenta, está aposentado, e vagueia por bares, ruas e pontos de ônibus, deplorando as transformações que sua cidade sofre. Tem um vizinho violento e fascistoide, que bate na mulher regularmente, e que o detesta, o que é recíproco. A única irmã mora na cidade vizinha, mas o cunhado também não vai com a sua cara. Um jovem e vaidoso poeta, patrocinado por uma antiga amante sua, acaba se tornando a presença mais próxima, dividindo cervejas e conversas pelos botecos onde se encontram.

O contexto é o do passado recente, com referências ao bolsonarismo em vigor. Severini lamenta o mau gosto das novas construções, dos bares que surgem no lugar dos antigos, da crescente presença de igrejas pentecostais, da péssima música que é obrigado a ouvir em lugares públicos. O linchamento de um conhecido homossexual vai sacudir o bairro periférico onde mora e dar movimento ao enredo.

Chico Lopes é um autor prolífico, mas nunca prolixo. Além deste, que é seu quarto romance, publicou contos, poemas e ensaios sobre cinema e literatura. Em O passageiro do fim depura a atmosfera dos romances anteriores, tornando-a mais límpida. Dissipam-se os nevoeiros, os personagens são mais palpáveis. O desfecho dramático surpreende, e o epílogo aponta para uma saída presumivelmente autobiográfica.

2.

No prefácio, o escritor Ricardo Ramos Filho sugere uma aproximação com a autoficção. O personagem reflete a condição de um “idoso, branco, hétero”, vagando solitário sem saber o que fazer depois que para de trabalhar. De fato, há muito em comum entre Severini e Chico Lopes, mas não podemos nos enganar: o escritor cria um personagem parecido com si próprio para conduzir com mais naturalidade as reações, impressões e reflexões que o universo diegético lhe proporciona.

Aliás, não se trata de uma estratégia rara. Vários escritores e escritoras, de todas as idades, veteranos ou iniciantes, utilizam esse recurso, às vezes até de forma inconsciente. É uma adaptação da persona do teatro grego clássico, onde os atores utilizavam máscaras durante a encenação, encarnando arquétipos e verbalizando muitas vezes o pensamento do dramaturgo. Na psicologia junguiana, a persona simultaneamente disfarça e revela, servindo de mecanismo de interação social, mas ocultando a verdadeira natureza do indivíduo.

As citações cinematográficas, outra marca recorrente na obra do autor, pontuam as lembranças de Severini. Entram aí os arquétipos modernos, celebrizados na tela, ora como como exemplo comparativo, ora como comentário irônico. Não por acaso, o desfecho do romance é altamente imagético, assim como os principais momentos dramáticos do entrecho.

Os enredos de Chico Lopes raramente se resolvem com diálogos ou deduções, como num romance policial. São geralmente resolvidos com imagens marcantes, que representam o ápice da narrativa e buscam envolver o leitor sensorialmente.

Nem seria preciso dizer que o autor é cinéfilo, tendo publicado livros de resenhas e críticas cinematográficas, além de ter trabalhado como programador do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, onde vive com sua esposa. Este pequeno comentário biográfico, aparentemente extemporâneo, serve para pontuar algumas diferenças reais entre personagem e autor, embora certamente haja muitas afinidades ideológicas entre eles. Se Gustave Flaubert declarou, para espanto de seus críticos, que “Madame Bovary c’est moi”, é lícito pensar que Severini é também Chico Lopes.

Terá mesmo Gustave Flaubert vestido a máscara de Emma? Há dúvidas históricas sobre a veracidade da frase, que teria sido proferida durante o julgamento do romance por imoralidade, em 1857. Como não foi escrita, apenas pronunciada, segundo os relatos, ficamos com a História, que se não for verdade, está bem contada. E tornou-se tão emblemática que é citada até por escritoras feministas, nos séculos XX e XXI.

O que, aliás, nos remete a um romance anterior de Chico Lopes, Corpos furtivos, de 2015, onde existe uma protagonista. Também carente, inquieta e desajustada, como Severini. Só não é totalmente solitária porque vive com a irmã repressora. O escritor poderia muito bem retomar a frase flaubertiana e afirmar que “Eunice c’est moi”, se estivesse sendo julgado. E não é toda crítica literária uma espécie de julgamento?

É a irmã de Severini, que nesse novo romance é apenas uma coadjuvante, que vai propiciar o momento mais perturbador do enredo. Chico Lopes retoma mais um arquétipo da tragédia grega, mexendo com tabus e sublimação. A atração sexual entre irmãos, tema enfrentado por pouquíssimos escritores, e que no Brasil tem seu ápice na Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, é resumida aqui em menos de três páginas, com alta concentração de sentidos.

Culpa, medo, vergonha e perplexidade se mesclam de forma intensa, fazendo com que o leitor/leitora compartilhe com Leo Severini toda a confusão mental e moral que a situação propicia.

Estas rápidas elucubrações podem provocar algum ruído, mas não devem interferir na fruição da obra. O que importa em O passageiro do fim é o desenvolvimento seguro, a trama bem resolvida, o desenlace ardente. Um romance para se ler de uma só sentada, que alinhava problemas universais e muito, muito humanos, seja numa pequena cidade ou numa megalópole, em qualquer lugar do planeta.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Chico Lopes. O Passageiro do Fim. São Paulo, Lavra Editora, 2025, 167 págs. [https://shre.ink/AKZb]

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