Palavras fortes

Ivor Abrahams, Díptico, 1981
image_pdf

Por PRISCILA FIGUEIREDO*

Quatro poemas

 

A bandeja de Sylvia Plath
Como explicar que a mulher
antes de enfiar a cabeça na barriga do forno
deixasse ao lado dos filhinhos que dormiam no quarto uma
bandeja com um pouco de pão e de leite?
Não chequei nos autos, mas imagino
que quando acordaram este
não estava mais tépido
enquanto o gás,
breve, não mais letal, invadia a casa inteira, agora aberta
pois alguém já destravara a porta da cozinha —
ainda assim chegando tarde para salvar Sylvia,
que não queria mais ser Lady Lázaro.

Pouco tempo depois, enquanto um adulto consolava as crianças, outro
devia despejar as xícaras na pia, dizer consigo “que mulher demente”,
as fatias de pão indo para o lixo.

É quase certo então que não comeram nada, pois quando
acordaram tudo já estava há muito tempo velho,
como os alimentos apenas exibidos, mas incomestíveis, das vitrines.
Não perderia, porém, o frescor a imagem do gesto materno, objeto
entalado para sempre entre o ninho e a câmara de morte,
a bandeja retórica de uma artista que sabia:
ser mãe era impossível, ser acolhido mais ainda —
não se esquecessem disso a filha e o filho.
Educação mais desencantada não deve ter havido.

 

Eis que A pedra era
muito dura, como sempre é
quando faz jus ao nome.
Era mais sólida que o meu,
que o seu caráter; mais
empedernida que as leis,
mais áspera que lixa, que o rico
costuma ser com o pobre.

Mas aí vieram eles, com aquela
conversinha de água mole,
o murmúrio infantil
de um rio ligeiro e brincalhão…

Foi tão aos pouquinhos que quase
esquecemos como era antes de tudo,
assim como quando foi que a pedra

deixou de ser pedra. Não há aniversário
se a percepção não acusa uma
ruptura estrondosa.

 

João sem braço
Bastou um olhar desfocado
em sua direção
e rápido, mas fora do tempo
sem mover nada
além da boca
soltou quando já o deixava
a frase de que eu
sem saber escapava:
“Ô tia, me dá um trocado?”.
Aproveitei meus passos
já à frente e ignorei
perfeito joão sem bolso
a interpelação ecoando
num ponto atrás do meu trajeto
onde estavam agora duas passantes

(sob forma quase universal
o pedido, ainda válido e audível,
pôde alcançar o coração
a que não se dirigia)

 

Três palavras fortes
A primeira é esquadrão:
onde quer que soe
traz consigo a morte.

Canela parda, cotovelo escuro
comburem dentro de camburão,
urna, penumbra — desta nação.

lixão ressuma
suco fétido, jumento moído, resto
de marmita de alumínio, feto
de mãe nenhuma.

 

*Priscila Figueiredo é professora de literatura brasileira na USP. Autora, entre outros livros, de Mateus (poemas) (Bem te vi).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
2
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
3
No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike
07 Jan 2026 Por IVANA BENTES: A imagem de Nicolás Maduro em Nike Tech Fleece simboliza o capitalismo mafioso, onde a pilhagem geopolítica se converte em mercadoria viral e a guerra vira entretenimento consumível
4
O ditador (preferido) da rede Globo
08 Jan 2026 Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL: Na TV, a palavra "ditador" é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas
5
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
6
O retorno do imperialismo nu e cru: o sequestro de Maduro e a Doutrina Donroe
04 Jan 2026 Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS: O avanço de uma estratégia transacional e coercitiva dos Estados Unidos sobre a América Latina marca o fim da retórica liberal e coloca em xeque a soberania nacional frente à disputa por recursos estratégicos
7
As bravatas de Donald Trump
08 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
8
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
9
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
10
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
11
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
12
O inferno de Borges
31 Dec 2025 Por LUCIANA MOLINA: Enquanto a biblioteca representa o paraíso para a literatura, a realidade das escolas públicas brasileiras revela um cenário de exclusão, onde instituições sem bibliotecários e livros lacrados aprofundam o abismo cultural
13
A colônia petrolífera de Donald Trump
10 Jan 2026 Por CLAUDIO KATZ: Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial
14
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
15
Afinidades seletivas
06 Jan 2026 Por RICARDO MUSSE: Considerações sobre o livro de Perry Anderson
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES