O retorno de José Dirceu

Imagem: Lula Marques/ Agência Brasil
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Por JULIAN RODRIGUES*

José Dirceu há de dar ainda muita dor de cabeça às elites

Como começar um artigo sobre José Dirceu? Pensei um tanto e decidi abrir declarando minha mais absoluta parcialidade. Sou mineiro de Uberaba e petista desde os 15 anos. Trabalhei no PT nacional com José Dirceu entre o final dos anos 1990 e início dos 2000.

Nunca militei no mesmo campo partidário que o mais ilustre dos passaquatrenses (impossível determinar com certeza, depois da malfadada reforma ortográfica, se tal topônimo leva ou não um hífen).

Minas Gerais é grande d´um tanto que minha terrinha – Uberaba, a capital do Zebu – dista quase 600 km da vibrante metrópole do sul mineiro, onde o pequeno José veio à lume no mais que longínquo mês de março de 1946! (perco o amigo, mas não a piada).

Não hei de entediar minhas minguadas leitoras e leitores descrevendo a conhecidíssima trajetória do líder estudantil, combatente clandestino e armado da ditadura militar, que junto com Lula, foi o principal dirigente do PT. Além de deputado estadual e federal.

Em 1994 José Dirceu foi nosso candidato a governador de  São Paulo. Não fez feio, pelo contrário. Terceiro colocado, amealhou cerca de 3 milhões de votos (15%) no ano em que Mário Covas, sufragado por 6,6 milhões ( 47%) elegeu-se governador. Inicia-se então o longo domínio tucano em São Paulo: 1995-2022.

Aliás, não dá para deixar de registrar o backlash: talvez até mesmo do dândi tucano João Dória os paulistas (nativos ou migrantes) teremos saudades. Tarcísio de Freitas opera em chave tenebrosa, tateia algo como um neomalufismo. A rigor, é bolsonarismo exacerbado: autoritarismo, mais neoliberalismo, militarismo e incentivo à violência policial. O governador ostenta suas inclinações fascistoides orgulhosamente.

A PM de São Paulo, que vinha nos últimos anos paulatinamente reduzindo sua letalidade, aumentou em cerca de 140% o número de execuções entre 2023 e 2024. Retrocesso brutal diretamente relacionado à necropolítica de Tarcísio de Freitas: “o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”…

Mas falemos do dirigente José Dirceu. Arquiteto da estratégia petista; líder do campo majoritário (e moderado); comandante do aggiornamento do PT (tão incensado quanto criticado). Foi o chefe da campanha de 2002 – a que nos deu acesso pela primeira vez ao governo federal.

Fulminantes ascensão e queda

O fato é que a história, a biografia, as inúmeras qualidades de José Dirceu levaram-no a ser a figura principal – depois de Lula, claro – do primeiro governo democrático-popular. E de lá ao inferno – em pouquíssimo tempo (janeiro de 2003-dezembro de 2005).

Erramos muito conjuntamente: o PT, a esquerda, Lula, mas claro, Zé Dirceu também (é a maldição do Tio Ben: maiores poderes…). Penso que ele nunca fugiu das suas responsabilidades sem cultivar autoflagelação. E se há algo que até os mais raivosos adversários reconhecem é a coerência, coragem, altivez do grande amigo da revolução cubana (fato que a direita sempre usa para detratá-lo).

Talvez a farsa do tal “mensalão” pudesse ter tido resultados diferentes. A maioria de nós subestimou as intenções da direita e a trama golpista que começou ali em 2005 e teve seu auge com a deposição de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Aliás, quem entre nós acreditava mesmo que eles chegariam ao ponto de encarcerar o maior líder popular do país?

Provavelmente José Dirceu, tanto quanto Lula e a maioria dos progressistas, subestimamos o andar de cima. O absoluto descompromisso da burguesia local – e do imperialismo – com as liberdades democráticas.

As derrotas dos últimos anos levaram a uma mudança parcial na tática do PT (mas não em sua estratégia). Gleisi Hoffmann, destemida e lúcida, opera um giro na condução do Partido: mais nitidez, assertividade. Um tensionamento programático à esquerda.

José Dirceu aparentemente também vem fazendo esse movimento, ainda que bem mediado. Ele, que foi até blogueiro, há seis anos publicou o primeiro volume do seu livro de memórias. Mas nos deve o segundo e terceiro ainda . Faz parte. Imagino como é difícil para alguém como ele parar para registrar e rever toda uma vida nada monótona ou trivial.

Além do mais, tenho cá com meus botões que José Dirceu há de dar ainda muita dor de cabeça às elites. Imagino que planeje, assim como Lula, ficar entre nós até os 120, no mínimo.

“Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”

Lembrei-me de Getúlio Vargas. O terceiro governo de Lula, com nuances e contradições, parece ter certa inspiração (e até similaridades, guardadas as imensas diferenças históricas) ao segundo período varguista, quando o povo sufragou maciçamente o gaúcho.

Impressionantemente, o Brasil tem problemas e desafios muito semelhantes aos das décadas de 1930 e 1950: baixa industrialização, latifúndio, excessivo peso do setor primário exportador, monopólio de uma mídia “udenista”, ou melhor, “lacerdista”, forças armadas títeres dos EUA e sempre de prontidão – salivando para dar um novo golpe; um cenário internacional ainda mais regressivo, pois não há contraponto ao domínio imperialista (antes havia a União Soviética).

Essa digressão provavelmente foi inspirada pelo personagem central desse artigo, um dirigente que se notabiliza por análises de fôlego, panorâmicas. Discordemos dele na tática, do programa, da consigna ou no que for, mas é sempre instigante ler ou ouvir o que Dirceu formula.

Para não ser acusado de publicar um panegírico, ou pior, um texto encomendado, vou mencionar outros aspectos da figura. José Dirceu é chato sim, talvez nem tanto quanto seus adversários dizem nem tão pouco quantos amigos propagam. Provavelmente essa ranhetice seja a contraface de sua obstinação por trabalho. José Dirceu conserva uma certa disciplina guerrilheira.

Vaidoso assumido, envelheceu bem – obviamente a beleza daquele cabeludo estudante da PUC-SP ficou para trás. Acredito, contudo, que as bases de suas convicções, a forma como pensa a vida e a luta para mudar o Brasil e não mudaram no essencial.

O lindo jovenzinho Zé não se envergonharia do idoso Dirceu. Afinal, “o homem velho é o rei dos animais”. Se assim o proclamou Gilberto Gil, quem somos nós pra desdizer?

Amigo Zé (se me permite a intimidade), te desejo uma campanha vermelha, mobilizadora, densa, alegre, bonita, politizada e vitoriosa! Inspiradora, sobretudo. Viva o PT! Viva o socialismo e viva José Dirceu deputado federal.

*Julian Rodrigues, jornalista e professor, é militante do movimento LGBTI, do movimento de Direitos Humanos e coordenador de formação política da Fundação Perseu Abramo.


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