O samba pede passagem

Berit Heggenhougen-Jensen, Mãe, 1982, 190 × 204,5 × 2,2

Por DANIEL COSTA*

Comentário sobre rodas de samba na cidade de São Paulo

Ao menos desde o golpe jurídico parlamentar que apeou do poder uma presidenta eleita de forma legítima o país começou a navegar em águas turvas; atravessando o desgoverno Temer até chegar ao neofascismo que nos governa, foram vários os ataques, concretos e simbólicos; situação agravada pela pandemia, momento em que onde todos nós já fragilizados, passamos a enfrentar também o isolamento social.

É nesse cenário onde a verdadeira arquitetura da destruição foi edificada com maestria que vimos a tentativa de aniquilamento da cultura, seja na supressão de verbas de patrocínio, tentativas de sabotagem de leis fundamentais como a Aldir Blanc e agora a Paulo Gustavo e até mesmo censura, na maioria dos casos velada, mas também explícitas. Porém aos poucos, passo a passo, a resistência e a esperança vem ressurgindo, mesmo que de forma simbólica.

Não é de hoje que o Brasil é conhecido por ser um país de grandes cantoras, quando nos restringimos ao samba podemos destacar desde Carmem Miranda e sua interpretação brejeira das criações de Assis Valente e Dorival Caymmi, até a seminal Clementina de Jesus, nossa rainha quelé, que através da sua voz fez o canto da África atravessar o oceano. Nessa lista não podemos deixar de destacar ainda grandes intérpretes como Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione (salve, a santíssima trindade!), além de compositoras como Dona Ivone Lara, que em meio a um universo predominantemente machista conseguiu impor-se, inclusive quando entra para a ala de compositores do seu Império Serrano, batalha enfrentada anos depois por Leci Brandão para adentrar as portas da ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira.

Parafraseando o mestre Paulinho da Viola, posso afirmar que se for para falar de mulheres no mundo do samba, hoje não vou terminar, assim citarei apenas algumas, pedindo desde já perdão aquelas que não foram nomeadas. Aparecida, Jovelina Pérola Negra, Francineth Germano, Geovana, Bernadete, Sabrina da Mocidade de Padre Miguel, Miriam Batucada, Roberta Oliveira, Fabiana Cozza, Adriana Moreira, Teresa Cristina, Raquel Tobias. É partindo dessas grandes mulheres que traço uma linha evolutiva para chegar à personagem central das próximas linhas.

Percorrendo as mais variadas rodas de samba (muitas vivas, algumas nem tanto) dessa Paulicéia desvairada, podemos nos deparar com os mais diversos tipos, desde o tradicional personagem que nem sabe por que está naquele lugar, passando também por aqueles que chegam apenas para tomar uns birinaites e logo tomam o rumo do próximo boteco; temos ainda os aficionados que cantam do primeiro ao último samba e ainda marcam na palma da mão, as vezes ritmado, ou não; até aquele que chega ao local através de uma espécie de chamado, algo que para muitos pode até soar incompreensível, ou pedante.

Porém, para quem sente esse sinal rompendo as frestas do banal; a batida do surdo, o bordão do violão sete cordas, o pandeiro, o cavaco e principalmente a voz tem um poder; poder de agregar, de encantar, de transformar. Foi exatamente a sensação que esse escriba sentiu em uma noite de sábado quando encerrava seu dia de peregrinação por algumas rodas da cidade.

Dentro do boteco o som potente da roda do Samba do Aguida tomava conta do ambiente, a cadência do samba em alguns momentos parecia fundir-se com a mais pura das curimbas, e nesse ritual onde o profano beirava o sagrado e o sagrado beirava o profano, uma voz ao centro regia a roda em uníssono, mostrando rara beleza e potência, trazendo à superfície o fundamento dos sambas que eram tocados na velha Festa da Penha, no terreiro da Tia Ciata, ou para os mais contemporâneos no quintal da Tia Doca.

Naquele momento o soar do atabaque parecia ser a senha para abrir o mágico portal fincado na encruzilhada da Alameda Eduardo Prado com Conselheiro Nébias, lugar onde todos comungavam do mesmo credo, o samba. Luiz Antonio Simas define as encruzilhadas como lugares de encantamento, lugares que espantam e seduzem, foi essa a sensação despertada naquela noite. A alegria, a ginga e o ritmo dominavam o espaço; assim, do jovem paulistano modernoso, passando por figurinhas carimbadas da boêmia, até a senhora que entre um petisco e outro não deixava de mandar seu laia laia se entregaram aquele ritual onde o samba era o objeto de devoção.

Cá entre nós, não é difícil contar quantas vezes chegamos a ficar irritados com conversas paralelas acontecendo a beira das rodas, transformando a música em algo secundário, em mero som ambiente. Porém aquela noite foi diferente, em meio as palmas, passos cruzados e um gole na cerveja gelada há quem diga que até mesmo um malandro usando terno de linho branco foi visto sambando na esquina da encruza iluminada pelo brilho da lua.

A responsável por tamanha comunhão entre a música e o público naquele momento, foi a cantora e multiartista Anaá, assim mesmo com o “a” dobrado, talvez uma escolha mesmo que inconsciente para fazer ecoar através dos ventos de Oyá a força que sua voz carrega; presenciar sua entrega na roda foi ver a conexão direta entre o orun (a ancestralidade) e o ayê (nosso mundo). Desfilando uma verdadeira seleção de clássicos das rodas de samba, percorrendo sucessos de Clara Nunes, passando pelos afros sambas de Baden e Vinícius, riscando o chão com o samba de roda baiano; do potente brado para Oxóssi (que naquele momento parece ter ouvido o chamado, vindo tomar a banda do coração de todos que ali estavam) onde para alguns presentes na roda sua flecha estilizada como a letra “L” parecia simbolizar a busca pela esperança, até a pioneira “Quem tem carinho me leva” imortalizada pela deusa negra do samba Giovana, Anná mostra ser daquele raro grupo de cantoras que ao interpretar uma canção se entrega por inteira, faz a música ecoar através da voz, do corpo, da dança, da alma, naquela noite sua performance parecia refletir a alegria e o poder de alguma cigana que fez morada naquela encruzilhada.

Tais características a colocam, em uma linhagem que poucas intérpretes podem ser acomodadas com propriedade, tomando como referência a cena paulista, Anná desponta como uma das principais discípulas da cantora Raquel Tobias, não é difícil fugir a associação entre as duas cantoras, o mesmo carisma, a mesma intensidade, a mesma força e o principal, a mesma verdade ao interpretar uma canção.

Lembro do nosso eterno griô Toinho Melodia, dizer certa vez antes de defender uma de suas criações em um festival, que o verdadeiro sambista não fica em cima do muro, que fazer samba é tomar partido, é se posicionar. E como uma verdadeira aluna, Anná assimilou com propriedades o ensinamento do “veinho”, produzindo um trabalho que apresenta lado, não foge a luta, abordando os mais diversos temas, literalmente deixando o recado em suas canções, sem perder a sensibilidade. Influenciada pelos mais variados ritmos, como pode ser visto em seu álbum Colar, até o single lançado em parceria com a pernambucana Flaira Ferro, onde as duas trazem uma reflexão sobre o “ano doido” (ou anos, caso o ouvinte prefira adotar uma perspectiva mais longa), a cantora demonstra como pode transitar com facilidade pelas mais variadas sonoridades, porém se pudesse defini-la através de um ritmo diria que o samba é aquele que corre em suas veias fazendo seu coração pulsar e servindo como motor para o diálogo com outros gêneros musicais e manifestações artísticas.

Para encerrar essa pequena crônica, resenha, crítica, ou qualquer outra classificação que o leitor queira dar, é necessário dizer que retornei para casa de alma leve após esse samba genuíno. Ao subir a Alameda Eduardo Prado ainda com o samba da magnífica Geovana na mente viro para trás e vejo ao longe na encruza que abriga aquele mágico boteco o velho malandro encostado no poste apreciando a dança das damas da noite enquanto a fumaça de seu cigarro subia ao infinito.

Trazendo para a roda o mestre Candeia no álbum Partido em cinco, voltei renovado após comungar de ”um samba que brota lá do fundo do coração”, graças principalmente a entrega e autenticidade da intérprete convidada para a roda daquela noite. Como bem sintetizou o grande Nelson Sargento, nosso samba, agoniza, mas não morre, pois alguém sempre o socorre antes do respiro derradeiro, assim faremos com o Brasil diante de tantos ataques e tantas tentativas de destruição.

*Daniel Costa é graduado em história pela UNIFESP, compositor, e integrante do Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo Diá Piratininga.