O socialismo urge

Imagem_Elyeser Szturm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Marcos Aurélio da Silva*

Só uma sociedade organizada de modo socialista pode suportar uma situação como a que estamos a viver

Um estudo do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Harvard publicado na Science conclui que sem vacina contra a Covid-19 estratégias intermitentes de quarentena serão necessárias pelo menos até 2022. E talvez tenhamos novos surtos a cada ano, ou bianuais, conclui o mesmo estudo.

Nestas condições, economia e sociedade nenhuma podem sobreviver dominadas pela lógica capitalista das leis da oferta e da procura. Ou, com mais precisão, onde o Estado serve a sustentar este ideário, a toda prova misoneísta e conservador.

O ex-presidente Lula disse outro dia que o Estado precisa emitir dinheiro. Conclusão acertada, mas não se trata só disto. Trata-se do fato que só uma sociedade organizada de modo SOCIALISTA — ou por políticas progressivamente socializantes, capazes de organizarem em determinado momento uma nova síntese — pode suportar uma situação destas.

E não se trata de pensar que o vírus pôs a urgência do socialismo, como se um fenômeno externo, saído da natureza, fosse capaz disto. Contra o que dizem as teorias da conspiração, o vírus é obviamente um fenômeno biológico, ligado aos processos naturais e suas mutações.

Assim como não foi a peste bubônica que pôs fim ao feudalismo, mas antes as contradições históricas que já estavam se formando no interior da Idade Média, as mesmas que levaram à democratização da propriedade fundiária, embrião do Kulack inglês, também agora são as contradições do capitalismo que estão pondo em questão o próprio modo de produção.

Numa palavra, a sua forma atual de organização, financeirizada e especulativa, concentradora da propriedade e da renda, não é capaz de fornecer uma resposta a um constrangimento natural de grande dimensão. O capitalismo não é capaz de dominar a natureza nas exigências postas pelo presente, porque o capitalismo já não cria forças produtivas — técnicas, mas também sociais, como o distanciamento de uma visão empobrecida deste conceito exige ―; o capitalismo agora as destrói.

Em meados do século XIV, foram as regiões onde a servidão mais se aproximava da escravidão aquelas que mais sofreram com a peste, fazendo com que os senhores fossem forçados a abrandar as formas de exploração. Não sem lutas, como lembram as periódicas jacqueries ― as grandes revoltas camponesas, geralmente violentas, a queimar Igrejas, a promoverem uma deserção en masse dos produtores.

São as regiões que hoje lembram o nosso Equador, que com o garrote da dívida externa diante de si, é forçado a lançar os cadáveres da Covid-19 nas ruas. E o que dizer das favelas do Terceiro Mundo, quando o vírus ali começar a se espalhar, a cada biênio, impiedosamente? Será o tempo da novas jacqueries, exigindo novas relações sociais, com suas formas jurídicas correspondentes? A saber, as formas de um Estado que não seja o veículo de um ideário conservador e particularista — mas rigorosamente um Estado social.

Não faltarão resistências a esta passagem do “momento egoístico passional” ao “momento ético político”. Toda ordem liberal, seja aquela obscurantista como a mais “esclarecida”, se levantará contra ela, a falar da criação das condições para um “Estado de exceção”, de sociedades autoritárias e de totalitarismo.

A ver o recente artigo de Giorgio Agamben no italiano Il Manifesto (“Stato d’eccezione per un’emergenza immotivata”), típico da démarche pós-moderna que agora hegemoniza o mundo do dissenso, ao se permitir aceitar a confusão de que “toda coerção Estatal” — para lembrarmos uma passagem de Gramsci — é necessariamente “escravidão”, e não “autodisciplina”.

Uma nova escravidão é certamente o projeto da extrema direita que agora está em alta, de Viktor Orbán a Bolsonaro. Mas uma rigorosa dialética exige uma “negação determinada”, a negação de um “conteúdo determinado”, e não a liquidação tuot court do Estado.

Com efeito, o socialismo que urge requer também uma luta no terreno das ideologias.

*Marcos Aurélio da Silva é professor de geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • O agonizante fim do sionismodistante 22/05/2024 Por SAMUEL KILSZTAJN: O judaísmo não pode ser protegido por furiosos militares israelenses, pois tudo o que os militares fazem é semear tristeza e colher ódio
  • O bolsonarismo pode voltar ao poder?Valério Arcary 24/05/2024 Por VALERIO ARCARY: O lulismo, ou lealdade política à experiência dos governos liderados pelo PT, permitiu conquistar o apoio entre os muito pobres. Mas a esquerda, embora mantenha posições, perdeu a hegemonia sobre sua base social de massas original.
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • O legado de uma década perdidaRenato Janine Ribeiro 22/05/2024 Por RENATO JANINE RIBEIRO: A esquerda é inteiramente representativa do senso comum de nossa sociedade – tudo de bom que acontece, e tudo de ruim, é só do Presidente
  • Rio Grande do Sul – o desmantelamento do estadoAmélia Cohn 21/05/2024 Por AMÉLIA COHN: A catástrofe climática no Rio Grande do Sul não configura-se mais como uma tragédia repetida como farsa, pois não é a primeira enchente que devasta o estado e a capital gaúcha
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES