A nova economia do projetamento

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ELIAS JABBOUR*

As premissas do arcabouço intelectual necessário para compreender a formação econômico-social chinesa

Desde que abandonei teorias consolidadas, e datadas, do desenvolvimento econômico em prol do conceito de formação econômico-social passei a usufruir de liberdade indescritível. Teorias datadas engessam análise e só podem entregar o “particular no geral”. Os economistas hoje, como acreditam que as teorias já estão aí e que o importante é aplicá-las bem estão esbarrando nos limites de acreditarem que ao estudarem as relações entre Estado e mercado conseguem entregar algo capaz de entender processos complexos. Eis o limite da heterodoxia econômica e que a faz se aproximar, no método, da ortodoxia.

Explico. Neste tipo de análise a totalidade é amplamente deslocada com a quase negação da política e da história. Entre os marxistas acadêmicos não e percebe que mudanças institucionais não somente têm garantido o desatamento cíclico de pontos de estrangulamento na economia; mas também o surgimento de novas relações de produção via novos aportes sob forma de mais e melhor regulação do trabalho quanto aumentos salariais médios de 280% nos últimos dez anos.

Não impede a China de se tornar, ainda, uma sociedade menos desigual, mas demonstra que o Estado chinês tem respondido às demandas dos trabalhadores com assertividade. Caso fosse um país capitalista a China poderia elevar a competitividade de seus produtos criando um desemprego artificial de ao menos 10%…

Retornando. Como toda teoria este tipo de abordagem perde sentido quando surgem mudanças qualitativas, como ocorrem na China hoje. Daí a pobreza de reduzir as reformas pelas quais estão passando a economia chinesa como “onda regulatória”, “novas fronteiras de acumulação de capital”. Nada mais estático e microeconômico. Na verdade, o que existe é um movimento real gerando novos conceitos. E acredito que decifrar o conteúdo desses novos conceitos seja o maior desafio presente às ciências sociais, pois a China suscita uma engenharia social de patamar superior comprovada pela vitória inconteste contra a pandemia – expondo as mazelas do capitalismo ocidental.

A percepção de que a estava emergindo na China uma nova classe de formações sociais me livrou das camisas de força das teorias estruturalistas e de Estado desenvolvimentista / empreendedor de desenvolvimento. A universalidade do marxismo de Vladimir Lênin e Inácio Rangel aplicado a uma realidade particular nos abriu possibilidades ainda a serem amplamente exploradas. Não fomos pegos de surpresa com a atual onda de inovações institucionais.

Rapidamente percebemos a natureza qualitativa e diferente do que estava acorrendo. A contradição entre forças produtivas e relações de produção chegou a outro patamar. Luta de classes. Uma visão de “bloco de poder” deverá ser desafio diante do que significa a força de mais de 130 milhões de trabalhadores urbanos, ontem camponeses no processo de pressão sobre o Partido Comunista, garantindo a manutenção de uma estratégia socializante ao país.

A “Nova economia do projetamento” derivada da dinâmica do “desenvolvimento desequilibrado” mediado por ondas de inovações institucionais têm sido uma descoberta fascinante. A criação do computador quântico mais rápido do mundo é passo decisivo na construção da liberdade humana. Nova economia do projetamento é sinônimo de ampliação da capacidade de planificar, de elevar o domínio humano sobre a natureza e entregar ao ser humano a possibilidade de ser o senhor do seu destino.

Confesso que seria mais fácil e prestigioso me apreender a alguns conceitos abstratos e aprioristas como valor, dinheiro, fetiche, mercado e alienação e utilizá-los arbitrariamente. Isso é zona de conforto intelectual. Não combina comigo. Prefiro outro caminho, talvez herético. Observar uma totalidade entre formação econômico-social, modo de produção, o meta modo de produção (quem ler China: o socialismo do século XXI irá entender esse conceito) e a lei do valor como uma totalidade.

Observando em conjunto esta totalidade é algo que ao se movimentar vai rearranjando as lógicas de funcionamento da sociedade, gerando formação econômico-social a partir de novos modos de produção a partir de combinações entre diferentes formas/relações de produção e troca. Os resultados até aqui têm sido promissores. Muito ceticismo de nossos interlocutores, mas muita gente já utilizando do arcabouço intelectual por nós construído para construírem suas próprias hipóteses sobre a China. Estamos apenas no começo.

*Elias Jabbour é professor dos Programas de pós-graduação em Ciências Econômicas e em Relações Internacionais da UERJ. Autor, entre outros livros, de China hoje – Projeto nacional de desenvolvimento e socialismo de mercado (Anita Garibaldi).

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Anderson Alves Esteves Rodrigo de Faria Matheus Silveira de Souza Ricardo Abramovay Daniel Afonso da Silva Antônio Sales Rios Neto Lorenzo Vitral Antonino Infranca Tales Ab'Sáber Jean Pierre Chauvin Henri Acselrad João Carlos Loebens Vladimir Safatle Ari Marcelo Solon Chico Alencar Benicio Viero Schmidt Jorge Branco Andrés del Río Luiz Marques Sergio Amadeu da Silveira Fábio Konder Comparato Julian Rodrigues Armando Boito Valerio Arcary Luís Fernando Vitagliano Dênis de Moraes Boaventura de Sousa Santos Jorge Luiz Souto Maior Eleutério F. S. Prado Osvaldo Coggiola João Adolfo Hansen José Geraldo Couto Andrew Korybko Luiz Renato Martins Flávio Aguiar Fernando Nogueira da Costa Renato Dagnino Alysson Leandro Mascaro Michel Goulart da Silva Dennis Oliveira Leonardo Sacramento José Raimundo Trindade Plínio de Arruda Sampaio Jr. Paulo Nogueira Batista Jr Annateresa Fabris Francisco Pereira de Farias Bernardo Ricupero José Machado Moita Neto Ladislau Dowbor José Micaelson Lacerda Morais Kátia Gerab Baggio Walnice Nogueira Galvão Luiz Roberto Alves Daniel Brazil Luciano Nascimento Ronald Rocha Remy José Fontana Igor Felippe Santos Heraldo Campos Milton Pinheiro Alexandre Aragão de Albuquerque Mariarosaria Fabris Priscila Figueiredo Paulo Capel Narvai Chico Whitaker Eugênio Trivinho Afrânio Catani Eduardo Borges Anselm Jappe Thomas Piketty Bruno Fabricio Alcebino da Silva Denilson Cordeiro Otaviano Helene José Dirceu Everaldo de Oliveira Andrade Yuri Martins-Fontes João Paulo Ayub Fonseca Samuel Kilsztajn Maria Rita Kehl Vanderlei Tenório Berenice Bento Luiz Werneck Vianna Tarso Genro Gilberto Maringoni João Sette Whitaker Ferreira Manuel Domingos Neto Liszt Vieira Luiz Carlos Bresser-Pereira João Lanari Bo Lucas Fiaschetti Estevez Juarez Guimarães Paulo Martins Rubens Pinto Lyra Francisco de Oliveira Barros Júnior Bruno Machado André Márcio Neves Soares Marilena Chauí Eleonora Albano Valerio Arcary Caio Bugiato Luis Felipe Miguel Daniel Costa Slavoj Žižek Sandra Bitencourt Leonardo Boff Eliziário Andrade Marjorie C. Marona Vinício Carrilho Martinez Paulo Fernandes Silveira Michael Roberts Lincoln Secco Gabriel Cohn Marcos Silva Marilia Pacheco Fiorillo Leda Maria Paulani Alexandre de Lima Castro Tranjan João Feres Júnior Celso Favaretto Marcelo Módolo Carlos Tautz Marcelo Guimarães Lima Gerson Almeida Luiz Eduardo Soares Claudio Katz Gilberto Lopes Fernão Pessoa Ramos José Costa Júnior Flávio R. Kothe José Luís Fiori Atilio A. Boron Francisco Fernandes Ladeira Leonardo Avritzer Érico Andrade Marcos Aurélio da Silva Airton Paschoa André Singer Bento Prado Jr. Manchetômetro Eugênio Bucci Antonio Martins Alexandre de Freitas Barbosa Salem Nasser Celso Frederico Elias Jabbour Ronald León Núñez Henry Burnett João Carlos Salles Ricardo Antunes Ronaldo Tadeu de Souza Mário Maestri Marcus Ianoni Tadeu Valadares Luiz Bernardo Pericás Michael Löwy Rafael R. Ioris Ricardo Musse Carla Teixeira Jean Marc Von Der Weid Paulo Sérgio Pinheiro Ricardo Fabbrini

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada