O teatro do fascismo

Imagem: Landiva Weber
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Por LUIZ MARQUES*

Ao traidor de plantão não importa o prejuízo causado às empresas e aos empregos. A trama não mira apenas a libertação do covarde golpista, taoquei, mas frear uma erosão político-econômica unipolar.

A grande transformação: As origens políticas e econômicas de nossa época é um livro publicado em 1944 nos Estados Unidos e, no ano seguinte, na Inglaterra nos estertores da Segunda Guerra. Na obra, o filósofo e historiador Karl Polanyi (1886 Áustria – 1964 Canadá) dedica algumas páginas ao fascismo. A semelhança com o que assistimos não é coincidência. Auxilia na compreensão do modus operandi da extrema direita, no tempo e no espaço. Revelar seus estratagemas, artimanhas e contradições revigora a batalha pela democracia.

O capítulo “A história na engrenagem da mudança social” traz um apanhado do assunto. “A solução fascista para o impasse do capitalismo liberal pode ser descrita como uma reforma da economia de mercado, feita à custa da extirpação de todas as instituições democráticas, tanto no domínio político quanto industrial”. O objetivo é sempre revitalizar o sistema econômico, em risco de se esfacelar.

“As pessoas seriam submetidas a uma reeducação destinada a desnaturalizar o indivíduo e a torná-lo incapaz de funcionar como a unidade responsável do corpo político”. O movimento propunha uma lavagem cerebral incutindo-lhe “os dogmas de uma religião política que nega a ideia de fraternidade entre os homens em todas as suas formas”. Pressupõe um ato de conversão em massa, imposto aos recalcitrantes pela coerção social e a violência. Trata-se da projeção distópica de um novo homem.

Autoajuda neoliberal

A desconstrução da individualidade como pilar do corpo político significa um rompimento com os valores da democracia, a qual se baseia no conceito de indivíduos informados e capazes de juízos autônomos frente a realidade. Coisa que o oligopólio da mídia impede ao pasteurizar as mentes e implodir o fundamento ético da sociedade humanista. Sem a consciência, pessoas são manietadas feito gado. Os meios de comunicação só tendem a aceitar o regime constitucional na propaganda.

Em concordância com o liberalismo econômico (“liberismo”), os fasci na Itália dos anos vinte e os nazistas na Alemanha dos trinta acionam a despersonalização com a imersão dos indivíduos no coletivo uniformizado por trajes, gestos, palavras e emoções para: (a) normalizar a hostilidade às alteridades de raça, gênero, credo, ideologia e; (b) trocar a identidade individual pelo sentimento de pertença a um grupo de fanatismo. Trata-se da iniciação em uma seita político-religiosa dogmática, excludente.

A estética da camisa (marrom na Alemanha, preta na Itália, azul na Espanha) circunscreve o arranjo orgânico que exibe uma força paramilitar para atrair a classe média e legitimar o barbarismo das “gentes de bem”, a exemplo dos membros da Ku Klux Klan. Hoje o Tea Party desfralda a bandeira confederada, símbolo do supremacismo racial (EUA). A crítica ao “sistema” (a política, os partidos) encobre a demagogia que dinamita a legislação vigente para atender o mercado autorregulado, cujo simulacro se acha nas narrativas de autoajuda que monetizam o desamparo sob o neoliberalismo.

A vez de Juan Guaidó

As insatisfações são canalizadas para longe dos donos do poder. A opção é pelo estímulo a afetos de rejeição à institucionalidade. A pantomima se estende às autoridades que fingem ter sido obrigadas a tomar decisões antipáticas. Tipo os vis acordos de Donald Trump fechados com a União Europeia, o Reino Unido e o Japão recentemente. Para o primeiro-ministro francês, 27 de julho foi “um dia sombrio de submissão”. A França dissimula um temor napoleônico da Rússia para entregar os anéis e alguns dedos. La noblesse oblige o fingimento para disfarçar a rendição à potência da América.

Os ataques metódicos às instituições, agora, vêm de fora enfraquecendo órgãos de defesa do Estado de direito. O objetivo é colocar de joelhos as organizações multilaterais. Tarifaços táticos sinalizam o cerco ao comércio exterior do país e estimulam o lawfare à liderança do presidente Lula. O Brasil está na vanguarda política da resiliência ao arbítrio trumpista. O Nobel de Economia Joseph Stiglitz elogia a coragem da posição. “Que outros líderes de países grandes e pequenos demonstrem bravura semelhante diante do bullying do mais poderoso país do mundo”.[1]

O contexto tem um protagonista em nome do clã miliciano para dar visibilidade à oposição interna. Não falta vira-lata a serviço de neocolonizadores. Cada conjuntura apresenta um Juan Guaidó. Ao traidor de plantão não importa o prejuízo causado às empresas e aos empregos. A trama não mira apenas a libertação do covarde golpista, taoquei, mas frear uma erosão político-econômica unipolar. Rentistas e monopólios tecnológicos são os mestres do jogo de xadrez; os exportadores são peões.

Um boné humilhante

“O movimento fascista nascente colocou-se a serviço da questão nacional. Não sobreviveria sem ir nessa direção. Mas fez do item trampolim. Noutras vezes, adotou discurso pacifista e isolacionista”; qual o apelo à paz na Faixa de Gaza e a saída do Clube de Paris, portanto, da sustentabilidade. Para não citar posturas “não nacionalistas, a ponto de praticar a traição”.

Karl Polanyi menciona o oficial militar que chefia o governo colaboracionista da Noruega, na ocupação nazista: “Quisling pode ter sido o nome de um bom fascista, mas não foi o de um bom patriota”. Vale para o governador de São Paulo com o humilhante boné Make America Great Again (MAGA), contra os interesses nacionais.

A soberba imperial expõe os entreguistas. O inelegível ofereceu a Elon Musk, que sequer precisou pedir, o metal de transição com 98% das reservas mundiais na Amazônia. Leve e resistente, o nióbio tem aplicação na indústria aeroespacial, automotiva e de tubulações. É ouro para a alta tecnologia.

Coube ao ex-operário defender as riquezas da União do entreguismo. A contestação dos EUA ao comércio global e ao princípio de não intervenção no mercado derruba argumentos pseudo técnicos da ortodoxia econômica. Entre a acumulação e a democracia, o capital não vacila como o Estadão.

Caduca o tempo do Consenso de Washington (1989); abre-se o espaço à Truculência de Washington (2025). A marcha em várias oportunidades conduz à simulação, sendo fascista sobretudo na forma à medida que bandos de civis tidos por irresponsáveis (“coitados”, na interpretação desdenhosa do palhaço sociopata) são manipulados pela conivência de burocratas em cargos de proa. Ocorre nos momentos em que a filosofia antidemocrática já existe, mas ainda não tem peso político decisivo.

A soberania nacional

A população é tomada de refém para o sequestro da soberania nacional, enquanto os vendilhões se contentam com o papel subalterno de marionetes no teatro do fascismo. Outrora as 15 milhões de vítimas do Covid-19 foram abandonadas; a indústria farmacêutica negou-se quebrar a patente das vacinas. Ora, a cidadania in totum é agredida e, a nação, rebaixada à condição de colônia pelo perfil gângster do capitalismo ianque com viés fascista. Prevaleça o sentimento de uma pátria republicana.

Outro mundo é possível, e necessário. A esfera pública não precisa ser espelho da selva capitalista. A cooperação pode sobrepujar a cobiça. A utopia nasce com os indivíduos insubstituíveis, não com as “elites”. Inspirada na Revolução do Haiti (1791), a Conjuração Baiana (1798) continua a ecoar. Da periferia vem o som de tambores da liberdade e o colorido da igualdade e da solidariedade. De progressistas chegam propostas de boicote e articulações internacionais de proteção da dignidade. A luta de classes acirra-se com caráter geopolítico na contemporaneidade. A terceira via é capitulação.

Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, dedicado ao homem do povo Charle Chaplin: “Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração / os párias, os deficientes, os falidos / Falam os tocos de vela, que comes na penúria / cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam”. Os Brics representam um lado dessa escuta contra os negacionismos.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

Nota

[1] Cf. Leia aqui.

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