Por FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR*
Mais de quatro décadas depois, a sombra da AIDS persiste não como uma sentença, mas como um espelho inquietante de nossos medos, estigmas e da complexa relação entre corpo, arte e sociedade
O calendário ainda registra: primeiro de dezembro é o dia mundial da luta contra a AIDS. Mais de quatro décadas, vivendo na sociedade de risco, evoco uma peça publicitária de outrora: “se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar”. Saltos qualitativos foram observados na prevenção e no processo terapêutico. Podemos afirmar que ela se tornou crônica? A chapeuzinho vermelho segue amarelando com os seus medos ancestrais. Em 2025, vivemos com HIV/AIDS em outros patamares, mas ela persiste nos nossos desassossegos cotidianos. Contar que é soropositivo, nos dias de hoje, é uma confissão menos turbulenta? Quais questões a AIDS recoloca para os nossos incertos tempos?
Nossos corpos dariam um romance. O corpo de José Leonilson deu um filme. Ele e Herbert Daniel, escritor de Meu corpo daria um romance, subjetivaram, na companhia das letras e da arte, o prazer com risco de vida, cantado pelo Cazuza. Em “risco de vida”, da dramaturgia teatral de Alberto Guzik, dois de seus desejantes personagens literários afirmaram: “viver é o maior barato”. “Viver faz mal à saúde”. Na contraluz literária, assim vivíamos e vivemos agora. Riscos para todos, todas e todes.
A AIDS faz parte dos nossos shows cotidianos? Na segunda metade dos anos 1990, participei de conversa sobre o seguinte tema: “olha a cara dela. A AIDS não é mais aquela”. E hoje, no ano de 2025? Qual a nova faceta da “peste gay” dos “aidéticos” nos primórdios dos anos 1980? Qual a nova imagem da estigmatizante pandemia daquela conjuntura histórica? A doença mudou o seu perfil epidemiológico. Como estamos vivendo agora? Os medos medievais seguem nos dias de hoje, na sociedade de riscos e incertezas. E o uso das camisinhas masculinas e femininas? Esta última é usada pelas mulheres atuais? Perguntas disparadas com a leitura de A paixão de JL (2015), filme de Carlos Nader.
Como a AIDS se espalhou entre os diversos grupos populacionais, os impactos socioeconômicos por ela gerados, a resposta da sociedade civil organizada, através das suas organizações não governamentais e as políticas públicas direcionadas à enfermidade focalizada, são capítulos de uma história social da doença. A AIDS é exemplar para quem afirma: “um vírus só não faz doença”. Esta é alvo de construções sociais, práticas discursivas e produções de sentido. Os desdobramentos subjetivos do adoecer geram textos literários, fílmicos, musicais e teatrais. Narrativas falantes dos múltiplos ais das nossas existências.
“Ser gay hoje em dia é a mesma coisa que ser judeu na Segunda Guerra Mundial”. Afirmação feita pelo artista visual José Leonilson em seu diário íntimo, gravado em fitas cassete entre os anos de 1990 e 1993. Sonhos, memórias e ficções pessoais no ensaio poético de quem subjetivou a AIDS no seu trabalho artístico. Os perigosos, os outsiders, os discriminados, as vítimas de preconceitos e estigmatizações históricas foram citados nas suas criações artísticas: aidéticos, homossexuais, mulheres, ciganos, comunistas, negros, judeus, aleijados. Um “José Lasaro”, um Jó arteiro, dá visualidade aos excluídos e oprimidos de uma história das dominações. Na crueldade da experiência com a praga evocativa da lepra bíblica, Leonilson questiona as razões do seu infortúnio: “Eu não fiz nada pra merecer isso, sabe”.
Nos anos 1990, sexo seguro, prevenção, drogas, adolescentes, mulheres, apoio psicológico aos portadores e um viva a vida eram termos e expressões de referência bibliográfica em tempos de AIDS. Hervé Guibert, partindo da sua própria experiência com a doença, escreveu o seu “protocolo da compaixão”. A Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e o Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ) publicaram a história social da AIDS no Brasil e no mundo. Caio Fernando Abreu nas suas “pequenas epifanias” e cartas escritas do leito hospitalar.
Do prédio do Emílio Ribas paulistano, ele via as catacumbas cemiteriais do outro lado da avenida. No cinema, a voz operística de Maria Callas em cena dramática de Philadelphia. Em outros tons, a comédia musical Paciente Zero. As Horas, livro de Michael Cunningham, ganhou versão cinematográfica. Entre os cineastas, exalto o polêmico e provocador Derek Jarman, o criador de Sebastiane, Eduardo II e Blue.
AIDS e suas metáforas na companhia das letras de Susan Sontag. Bibliografia reforçada com Estigma, de Erving Goffman. Histórias da AIDS nas páginas literárias, telas fílmicas e composições musicais. O ponto de vista das ciências humanas é destacado com a “sociologia de uma epidemia”, produzida por Michael Pollak. “A literatura (des)construindo a AIDS” nas “histórias positivas” pesquisadas por Marcelo Secron Bessa.
*Francisco de Oliveira Barros Júnior é professor aposentado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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