Orgulho roubado – perdas, vergonha e a ascensão da direita

Min Mahaw, Brinquedo tradicional de Mianmar, 2015
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Por MATTHIAS AMMANN*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Arlie Russell Hochschild

Stolen pride: loss, shame, and the rise of the right (Orgulho roubado: perdas, vergonha e a ascensão da direita) é o título do último livro lançado por Arlie Russell Hochschild em 2024. Um livro em que a socióloga e professora emérita da Universidade da Califórnia, Berkeley, descreve em detalhes a longa imersão que fez no universo afetivo de parte do eleitorado republicano e nos ajuda a compreender o fenômeno da extrema direita norte-americana.

É importante ressaltar que Arlie Russell Hochschild já havia produzido grandes contribuições para a área da sociologia das emoções em temas como o trabalho, a família, a distribuição dos papéis de gênero e a comercialização dos afetos. Mais recentemente, ela resolveu dedicar sua atenção e experiência ao fenômeno da ascensão da direita.

Vale mencionar que Stolen Pride é, na verdade, uma continuidade do trabalho de investigação que a autora realizou em seu outro livro de 2016 – Strangers in their own land. Este livro reconhecido pela crítica que descreveu em detalhes a sua imersão em Lake Charles, Louisiana. Região marcada por catástrofes climáticas, pela atuação da indústria petroquímica e por uma grande concentração do eleitorado republicano que se opõe com veemência às regulações estatais, apesar da deterioração regional.

No presente livro, Arlie Russell Hochschild mudou de cenário e se aventurou em Pikeville, Kentucky, no coração dos Apalaches. Trata-se de uma região montanhosa com uma indústria de carvão decadente, grande pobreza e uma grave crise de drogas. É uma região com uma maioria branca e que, nas eleições passadas, votou majoritariamente em Donald Trump, além de ter sido palco para manifestações de supremacistas brancos.

O trabalho realizado no livro tenta analisar a “história profunda” dos diversos habitantes e, assim como em Lake Charles, a autora descobriu que em Pikeville há um grande sofrimento decorrente das perdas econômicas e culturais ocorridas nas últimas décadas que afetaram diretamente o orgulho e a autoestima da população. Sofrimento que é ainda maior para os homens brancos de baixa escolaridade, que se tornaram especialmente vulneráveis às doenças do desespero – adições, alcoolismo e suicídio.

Pikeville, que já foi uma região próspera e com uma indústria de carvão que era motivo de orgulho nacional, sofreu duramente com a globalização. A terceirização da produção para países e regiões mais baratas, a automação, o declínio dos sindicatos e a concentração econômica nas grandes cidades geraram um declínio da qualidade de vida regional.

Além da perda concreta da qualidade de vida, também é importante ressaltar a presença de duas narrativas culturais importantes na população local. A primeira é a narrativa do sonho americano, que sugere que o filho tenha uma vida mais próspera e mais abundante do que a vida de seu pai. A segunda narrativa se baseia na ética protestante, que valoriza o trabalho duro, a autonomia e a autorresponsabilidade pelo sucesso e pelo fracasso individuais.

O encontro dessas narrativas rigorosas, em um contexto de declínio económico regional e pouca mobilidade social, gera o que Arlie Russell Hochschild chamou de pride paradox (paradoxo do orgulho). Um paradoxo em que o indivíduo sente vergonha por não alcançar o sucesso esperado. Vergonha que pode ser autodirigida, projetada sobre algum grupo como culpa ou buscar uma solução criativa.

Quando a vergonha é projetada como culpa, busca normalmente culpar os line cutters (fura filas). Na perspectiva meritocrática deles, o governo, as políticas afirmativas e a atenção conferida às mulheres, aos afro-americanos, aos imigrantes e aos refugiados seria injusta, pois prejudica aqueles que aguardam pela sua vez de realizarem o sonho americano.

Ademais, além de sentirem que são roubados no plano económico e do mercado de empregos, essas pessoas também acreditam que a história dos seus antepassados, a sua biografia e o seu estilo de vida são difamados, prejudicados ou apagados à medida que a vida rural é retratada como retrógrada e ignorante pela mídia, pelas redes sociais e pelos discursos dos democratas liberais.

Os golpes econômicos e culturais os privam do orgulho identitário, que busca segurança, aceitação e admiração, mas que também teme a rejeição, a diminuição, o apagamento e ser malvisto.

Ressalta-se que grande parte dos entrevistados pela pesquisadora quer se sentir útil, ter um lugar honrado e respeitado no corpo social. Porém, as mudanças ocorridas nas últimas décadas fizeram com que eles perdessem o seu lugar na national pride economy (economia nacional do orgulho/da dignidade).

As perdas listadas acima, além da vergonha, podem produzir angústia e revolta, bem como uma vontade de restabelecer um orgulho do qual foram privados, fazendo com que gradualmente surjam também discursos em que eles são vítimas de um sistema que lhes rouba o orgulho e a dignidade, e que é necessário repor o respeito perdido. Esses discursos expressam uma necessidade de melhorar o mercado de trabalho e de valorizar a cultura regional, mas, por vezes, também enveredam pelo nacionalismo, pela valorização da branquitude ou mesmo celebram o nazifascismo.

Outro aspecto interessante trazido pelo livro é o surgimento da figura do good bully (bom valentão). O bom valentão, neste caso representado por Trump, seria um guerreiro que lutaria por eles. Alguém capaz de promover um ritual anti-vergonha que é composto por quatro atos: (i) faz uma afirmação provocativa; (ii) recebe uma reprimenda pública da mídia ou dos democratas liberais; (iii) posa de vítima e de envergonhado ou humilhado; (iv) devolve ou retruca a humilhação àqueles que o envergonharam. Assim, ocorreria uma identificação entre os envergonhados e Donald Trump. Trump seria aquele capaz de buscar a vingança e de recompor o orgulho perdido. Esse ritual carrega a esperança do restauro da dignidade que foi destituída no paradoxo do orgulho.

Durante o ritual acima, outras transformações afetivas também ocorrem. Por exemplo: as perdas transformam-se em roubo; a vergonha em culpa e a tristeza em raiva. E especialmente a transformação discursiva de perda para o roubo – do orgulho, do estilo de vida, do poder branco, da visibilidade, de uma história heroica da América etc. – cria um ambiente de suspeita generalizada. Suspeita que facilmente pode desacreditar o processo eleitoral.

Em conclusão, o livro de Arlie Russell Hochschild é uma obra notável, apoiada por uma sólida base empírica e um significativo esforço empático. Ele revela os efeitos nocivos do paradoxo do orgulho em uma economia marcada por oportunidades limitadas e uma acentuada responsabilidade pelo fracasso, tornando-se fundamental para uma compreensão mais profunda do cenário político atual.

*Matthias Ammann é economista, psicanalista, doutor em Estudos Culturais pela Uniersidade do Minho.

Referência


Arlie Russell Hochschild. Stolen pride: loss, shame, and the rise of the right. Nova York,The New Press, 2024, 380 págs. [https://amzn.to/48exz9p]


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