O poder na economia política do Zé do Depósito

Imagem: Domínio Público

Por MARCIO KA’AYSÁ*

O Brasil real e o Brasil oficial, segundo o povo

“O subdesenvolvimento brasileiro não é um destino. É uma doença. Aliás, tem cura.” (Atribuída à Darcy Ribeiro)

Outro dia enjoado em São Paulo. O céu amanheceu meio encoberto, a umidade escorria nos rostos das pessoas e o calor sufocava ao meio-dia. No centro da cidade, homens e mulheres apressados suavam de cabeça baixa, tentando não ver o Brasil real, cheio de pedintes, “homens-placa”, vendedores nos sinais e filas onde havia o anúncio “procura-se”. As vidas angustiadas, temendo pelo emprego, pela saúde, pelo futuro, pela violência, pelos filhos não eram visíveis de longe, de cima dos prédios. Era evidente, violenta, concreta, porém, nas conversas e nos olhos que eu ouvia e via, enquanto esperava por fotocópias numa banca jornal.

Lembrei, então, do meu amigo Zé do Depósito. Fazia tempo que eu não o via. Fiquei tentando imaginar o que ele diria agora, quando o ministro não cumpriu outra promessa demais empregos e crescimento da economia. Mas não precisei imaginar muito tempo. Vi o Zé, sem o uniforme, saindo do prédio do sindicato. Corri até ele, feliz por tê-lo encontrado. Mas, dessa vez, seu rosto estava menos amigável. Misturava raiva e silêncio. O mesmo silêncio que assalta os que têm medo. Quando lhe estendi a mão, não havia entusiasmo em seu cumprimento, nem em seus olhos. Perguntei o porquê do desânimo e o Zé respondeu com uma voz envelhecida que eu não conhecia: “Fui demitido, Seu Marcio. O patrão mandou vários funcionários embora. Disse que era por causa da crise e que iria usar máquinas ao invés de gente.”

Era a primeira vez que eu via tristeza nos olhos do meu amigo e, por isso, o convidei para almoçar. Já avisei: “Zé, hoje, eu pago.” Constrangido, ele aceitou e começou a desabafar. Enquanto falava, Zé, agora, sem depósito, parecia procurar entender por que o Brasil real era tão diferente do Brasil oficial, cheio de promessas, jornais otimistas e olimpíadas. À nossa frente, os dois brasis não eram iguais, nem mesmo primos. Apenas o tumulto mercantil da cidade disfarçava mal a pobreza que crescia. Na verdade, Zé do Depósito já sabia a resposta: a pobreza, a desigualdade crescente e a sujeição dos pobres às ordens dos mais ricos. Sabia por que foi ele que, em nossa última conversa, me fez entender o significado do subdesenvolvimento a partir da pele de quem o sofre[i].

“Seu Marcio, não passa um dia sem que um amigo perca o emprego. Os pais da minha nora, por exemplo, estão indo buscar cesta básica na igreja porque o restaurante onde os dois trabalhavam fechou. Agora, o que aparecer, eles pegam. Qualquer serviço. Têm que aceitar e ainda ficar feliz.” As palavras do Zé, contudo, pareciam falar dele mesmo.

Nervoso, apontou para um jornal pendurado na banca: “e agora tem tanque de guerra na rua? Para que? Me diga, para que? Para gerar emprego que não foi. Não foi para defender nossos direitos de trabalhador. Eu li no jornalzinho do sindicato que, nesse mesmo dia, os deputados aprovaram um contrato de trabalho de dois anos, sem carteira assinada, para gente com até 29 anos e o salário- sabe de quanto, Seu Marcio? -de R$ 550! Não estou brincando. O senhor lê, o senhor sabe. É sério. Imagina, então, se meu filho que perdeu o emprego e agora trabalha de entregador desses aplicativos, vai sair de lá! Vai para onde? Onde um menino que estudou em escola da periferia e só tem o segundo grau vai arrumar emprego que preste? Vai ser entregador até o fim da vida.”

Meu amigo suspirou desanimado e continuou: “E tem deputada, aí, que quer colocar trabalhador com carteira assinada contra trabalhador sem carteira assinada[ii].Sabe qual foi a solução que os caras deram? Não foi dar direito para quem não tem[iii]. A escolha dessa turma foi tirar direitos de quem conquistou com organização, apanhando da polícia… Eles e os patrões só pensam em diminuir o salário. Dizem que é para concorrer com a Ásia. Mas que Ásia? Só se for com aquela em que o prédio cai na cabeça do trabalhador. Meu filho diz que eles querem dividir para conquistar e eu acho que ele está certo. Fazem tudo para dividir a gente o tempo todo.”

Zé parou para pensar, enquanto nos sentávamos no balcão da mesma padaria de antes. Pensou e recomeçou mais calmo: “Para nós, Seu Marcio, sobra essa conversa mole de empreendedorismo. O senhor já viu trabalhador com pouco dinheiro, sem educação, sem treinamento, sem amigos ricos, prosperando na crise?! Para cima de mim?! Aqueles que tentaram ou quebraram ou trabalham muito para ter uma renda menor que antes do desemprego e, pior, sem segurança nenhuma. São bem poucos os que podem se orgulhar de ter vencido sozinhos. A TV incentiva essa bobagem, esse individualismo, esse jeito de olhar o mundo como se fosse cada um contra todos. É disso que patrão gosta. Trabalhador sozinho é fraco. Só tem chance unido e organizado. Só assim atrapalha a ganância sem fim dos donos das empresas. E atrapalha para quê? Por que é divertido? Isso é conversa de rico ou de gerente puxa saco do patrão. Atrapalha para lutar por um pedaço maior do fruto do trabalho. Só assim, a gente anda para frente. Era assim no tempo que eu era gráfico e tínhamos um sindicato forte.”

“Hoje, Seu Marcio,” – prosseguiu -“ninguém mais lembra dos sindicatos do ABC, lutando pela democracia, por salários melhores, por jornada de trabalho justa… Ensinaram para os mais novos na escola, na propaganda, nos filmes, em tudo, que eles têm de lutar contra os seus colegas para vencer. Que trabalhando muito e dizendo amém ao patrão, você vai subir na empresa, e a maioria acreditou. Hoje, estão todos aí, sem esperança porque não sabem a força que têm juntos. Na periferia, Seu Marcio, tem gente que tenta alertar, ensinar… Mas é difícil. Quem tem dinheiro compra todos os meios para convencer que o interesse do rico é o interesse do trabalhador e isso é uma mentira.”

Agora, os olhos do Zé do Depósito já não estavam calmos. Ele fez um silêncio, coçou a cabeça e eu esperei que recomeçasse. Primeiro, maldisse o que vê na TV e ouve no rádio porque, segundo ele, dão a impressão de ouvir seu ex-patrão falar. Para o Zé, “os camaradas falam em compromisso, contrato, lei, mas toda essa honestidade- riu do adjetivo -é para satisfazer os ricos. Não faz cara de espantado, não, Seu Marcio! É isso, sim. Os contratos deles tem de ser cumpridos e defendidos. Mas e os que interessam aos pobres e aos trabalhadores? Quer ver? Pensa comigo. A lei diz que o povo tem direito à saúde, à educação, à moradia digna e os cambau e o que acontece? Cumpre-se? Nada! Eles falam que para cumprir essas obrigações é preciso dinheiro, estar no orçamento e o que nós pagamos de impostos não dá, não é suficiente. Mas para pagar banco e multinacional nunca falta dinheiro! Eles sempre dão um jeitinho. O que eu estou dizendo, Seu Marcio, é que o poder protege o poderoso. O poder é para defender os que já são ricos. Sabe aquela frase: aos amigos tudo, aos inimigos a lei? Pois é, eles são amigos e se entendem para repartir o bolo, mas nós, os trabalhadores, que fazemos o bolo, parecemos os inimigos. É um país ingrato, Seu Marcio.”

Olhei os olhos do meu amigo e vi a raiva reascender e seus gestos ficarem maiores, como se quisessem atingir algo ou alguém. Suas palavras, agora, carregavam a cólera dos que se acreditam injustiçados. O discurso do Zé assumiu, então, o clima de comício e ele passou a falar alto para todos à nossa volta ouvirem: “fui fazer a rescisão do contrato de trabalho ali, no sindicato, e o assunto das conversas era sobre um banco que mandou para os clientes um relatório dizendo que valia a pena pensar num golpe caso o Lula ganhasse a eleição, em 22[iv]. Eu fiquei assustado. Eles podem fazer isso? E se minha associação lá, da periferia, ou meu sindicato falarem isso contra os candidatos dos ricos? O que acontece? A lei é para quem? É só para a polícia descer o sarrafo em greve de trabalhador e na molecada da favela?”

Submissão. Era sobre isso que falava Zé do Depósito. A palavra amargava sua boca e estava claro que, para o meu amigo, o Brasil não era democrático. O poder estava concentrado nas mãos de poucos, quase todos muito ricos e essa elite não se importava em exercer sua força para manter o status quo, mesmo que isso significasse sofrimento para a maioria da população. O modo como esse poder se manifestava podia ser violento, como o Zé via as ações policias nas favelas e nas greves; ameaçador, quando, por exemplo, o desemprego faz o trabalhador aceitar qualquer condição de trabalho, inclusive de desrespeito e muita exploração; ou disfarçado, quando os meios de comunicação e a internet são pagos para difundir valores e comportamentos considerados adequados à ordem e seus interessados. E, evidentemente, exceto por interstícios, os mais pobres e a maioria dos trabalhadores têm pouca influência sobre qualquer um deles.

As palavras do meu amigo, muito mais do que os livros, tinham a força de canhão: dentro da desigualdade brasileira, não há democracia possível porque a maioria não é livre dos constrangimentos da pobreza e da necessidade e, assim, na verdade, não são cidadãos plenos. Então, a palavra que resta é submissão. Outra vez, no mundo que o Zé do Depósito me apresentava, o povo se submete porque não tem alternativa e, muito importante, porque se faz todo esforço para que continue não tendo outra esperança além de sonhar.

Nesse instante chegou o prato. Um “PFão”[v] cheiroso que silenciou o Zé por um minuto. Eu sabia que ele tinha mais a dizer. Então, me calei, aguardando. Dessa vez, porém, meu amigo falou pausado, querendo pensar no que dizia. Zé do Depósito examinava, agora, quem manda e quem obedece no Brasil, explicando porque, segundo ele, pouca coisa muda ano após ano. O que dizia envolvia o futuro e nossas esperanças, dando a palestra um rumo rebelde e provocativo, que contarei em breve.

*Marcio Ka’aysá é pseudônimo de um economista brasileiro, “sem parentes importantes e vindo do interior”.

Notas


[i] A crônica, apresentando o Zé do Depósito, foi publicada em 30 de junho de 2021, no sítio https://aterraeredonda.com.br/a-economia-politica-de-ze-do-deposito/?doing_wp_cron=1629119618.4968070983886718750000 .

[ii]https://www.youtube.com/watch?v=iNJxiA9jXkM .

[iii]https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/08/10/minireforma-trabalhista-priore-requip.htm .

[iv]https://revistaforum.com.br/politica/economista-do-santander-defende-golpe-para-evitar-retorno-de-lula/ .

[v] Prato-feito bem servido.