Por DÉBORA TAVARES*
Comentário sobre o documentário dirigido por Raoul Peck, em cartaz nos cinemas
1.
O documentário Orwell: 2+2=5 não se apresenta como uma biografia linear convencional. O cineasta haitiano cujas obras anteriores (I Am Not Your Negro, Exterminate All the Brutes) dissecam as estruturas do colonialismo e do racismo, aproxima-se de George Orwell não como um mero admirador literário, mas como um interlocutor político.
Produzido em colaboração com a Orwell Foundation, responsável pelo espólio de George Orwell (que ainda se encontra sob domínio autoral nos EUA, enquanto Europa e Brasil o autor já entrou em domínio público), e a Neon (produtora do nosso premiado O agente secreto), o filme opera um deslocamento fundamental: retira o autor britânico da prateleira da profecia distópica abstrata e o insere novamente na materialidade da luta política do século XX.
Raoul Peck, que atuou como Ministro da Cultura no Haiti e vivenciou a ditadura dos Duvalier e o pós-colonialismo no Congo, utiliza sua própria biografia fragmentada para dialogar com a de George Orwell. O diretor não busca a neutralidade; ele assume, tal como George Orwell, em seu célebre texto Por que escrevo, que inicia o documentário em voiceover, afirma que “a opinião de que a arte não deve ter nada a ver com a política é, em si mesma, uma atitude política”.
A estrutura do filme justapõe o passado e o presente, entrelaçando imagens de arquivo, encenações e a narração dos textos de George Orwell feita pelo ator Damian Lewis, Alex Gibney, produtor do filme, observa que essa justaposição revela padrões que emergem repetidamente em diferentes geografias. Ao fazer isso, o documentário evita o risco de transformar George Orwell em um monumento estático.
O filme investiga o “momento” na vida de George Orwell – especificamente os anos finais de composição do livro 1984 – para contar uma história maior sobre o poder. Raoul Peck rejeita a biografia completa em favor de um recorte que permita uma análise das dinâmicas de poder e da manipulação ideológica, conectando a experiência imperial de George Orwell na Birmânia à vigilância contemporânea.

2.
A metáfora central que intitula o filme, “2+2=5”, transcende a aritmética para tocar na ontologia do poder totalitário. Em 1984, durante a tortura de Winston Smith, O’Brien não exige apenas obediência; ele exige a reestruturação da percepção da realidade. A liberdade, escreve Winston Smith em seu diário, é “a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro” (Orwell, 2021, p. 26). Se isso é concedido, tudo o mais se segue.
O filme de Raoul Peck recupera essa passagem não como um exercício filosófico, mas como uma demonstração de como o autoritarismo moderno ataca o senso comum. Alex Gibney ressalta que líderes autoritários invertem o que se sabe instintivamente ser verdade, exigindo que suas invenções sejam reverenciadas como fatos.
A cena da tortura no romance aparece no documentário em suas diversas adaptações ao longo dos anos 1950 até 1984, o que demonstra que a quebra de Winston Smith não ocorre apenas no corpo, mas na mente. O Partido busca o poder puro, e o poder sobre a matéria é irrelevante comparado ao poder sobre a mente humana. O filme ilustra como essa lógica opera hoje, citando o uso de termos como “fatos alternativos” ou a redefinição de guerra como “operação militar especial”.
A destruição da verdade objetiva, tema central para George Orwell, é apresentada como o pré-requisito para a dominação total. O totalitarismo exige a alteração contínua do passado e, a longo prazo, a descrença na própria existência de uma verdade objetiva.
3.
O filme e a obra de George Orwell exigem um discernimento rigoroso entre as diferentes faces da opressão no século XX. Há o autoritarismo de direita – manifestado no fascismo de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar – que George Orwell viu como uma extensão brutal do capitalismo em crise, em que “a adoração do poder” contaminou a intelligentsia europeia. E há o autoritarismo que surge dentro de processos revolucionários, especificamente a burocratização stalinista na URSS.
George Orwell, um socialista democrático convicto após a experiência na Catalunha, não criticava o socialismo em si, mas como se deu a experiência stalinista e, principalmente, seus desdobramentos no panorama inglês da década de 1940. A obra A Revolução dos Bichos atua como um prólogo a 1984, demonstrando como a revolução pode ser traída por uma nova casta dirigente que, embora não proprietária dos meios de produção, acumula privilégios e se mantém através da burocratização do Estado.
É crucial notar que a distopia de George Orwell não é um ataque ao Partido Trabalhista britânico, mas uma exposição das perversões a que uma economia centralizada está sujeita. O filme de Raoul Peck reforça essa distinção ao mostrar que o “playbook” (o manual de jogo) do autoritarismo se repete independentemente da ideologia declarada. A figura de O’Brien em 1984 representa a consciência cínica dessa elite que busca o poder como um fim, diferente das “utopias estúpidas e hedonistas” dos antigos reformadores.
O discernimento entre essas formas de poder é vital: enquanto o fascismo era uma reação do capital, o stalinismo representava, para George Orwell e para críticos como Rosa Luxemburgo, o perigo de uma revolução que, sem democracia, converte-se em ditadura de uma facção.
A crítica de George Orwell se sustenta em três pilares textuais fundamentais que aparecem em voiceover ao longo do documentário: o ensaio Por que escrevo, o romance 1984 e o ensaio documental O caminho para Wigan Pier. Em Por que escrevo, George Orwell estabelece que “nenhum livro é genuinamente livre de viés político” e que a “opinião de que a arte não deve ter nada a ver com a política é, em si mesma, uma atitude política”. Peck ecoa isso ao afirmar que entrou no cinema por causa da política e do conteúdo, não pelo entretenimento. A escrita, para ambos, é uma ferramenta de intervenção na realidade, uma tentativa de “transformar a escrita política em arte”.
Em O caminho para Wigan Pier, George Orwell realiza o movimento de “submergir” na realidade da classe trabalhadora. A descrição dos odores, da sujeira e da exaustão física dos mineiros não é mero naturalismo; é a exposição da base material que sustenta a superestrutura intelectual. A análise do romance revela como a classe média sente repulsa física pelo proletariado, um “preconceito de classe” enraizado na educação. O filme de Raoul Peck visualiza essa divisão, lembrando que a prosperidade de uns depende do suor invisível de outros. A consciência de classe, argumenta George Orwell, exige que a classe média reconheça que, economicamente, está no “mesmo barco” que o mineiro de carvão, apesar das diferenças culturais.
4.
Já em 1984, a crítica atinge seu ápice ao dissecar a estrutura do poder. Winston Smith, o “herói degradado”, falha porque sua rebeldia é individualista e limitada. Ele entende “como” o sistema funciona, mas não “por que”. A análise marxista sugere que a consciência de classe de Winston é incompleta; ele observa a massa (os proles) como uma força externa, escrevendo em seu diário: “Se há esperança, ela reside nos proles”, mas sem se integrar a eles. O filme sugere que essa alienação – a separação entre o intelectual e a ação coletiva – é fatal. Como aponta Terry Eagleton em Marx estava certo, o marxismo pode ser ótimo na teoria, mas a prática exige a superação do abismo entre a abstração e a realidade material.
É necessário desviar da leitura que atribui a atmosfera sombria de 1984 exclusivamente à tuberculose de George Orwell. Embora a doença tenha marcado seus últimos anos – e Raoul Peck utilize o drama de sua luta física para estruturar a narrativa fílmica – a obra é produto de uma análise lúcida das estruturas políticas, não um sintoma febril. A deterioração física de Winston no romance reflete a deterioração do corpo social sob o totalitarismo, onde “o progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor”.
A história, como nos lembra Eric Hobsbawm, é um campo de luta e contradição, e George Orwell documenta a tentativa do totalitarismo de parar a história, de criar um “eterno presente” onde o Partido sempre tem razão.
Cabe ainda mencionar como alguns temas elaborados por Walter Benjamin enriquecem essa leitura do filme. Tanto George Orwell quanto Walter Benjamin observam o progresso não como uma linha ascendente, mas como uma tempestade que acumula ruínas. O filme de Raoul Peck, ao conectar o passado colonial e o presente autoritário, funciona como o “anjo da história” benjaminiano, olhando para os escombros para entender a catástrofe. A técnica e a burocracia, longe de garantirem a emancipação, podem ser usadas para aperfeiçoar a barbárie. A “bota pisando um rosto humano para sempre” é a imagem final desse progresso técnico desprovido de ética humanista.
Orwell: 2+2=5 encerra-se não como uma profecia de condenação, mas como um manual de resistência didático. O filme ao fazer uso de textos do próprio George Orwell como a voz narrativa, educam a audiência que muitas vezes não teve contato com o texto do autor e acaba reproduzindo algumas interpretações distorcidas – fruto de um trabalho de desinformação da extrema direita. Assim, a relevância de George Orwell hoje, como destaca o documentário, reside na sua capacidade de diagnosticar a manipulação da linguagem e a atomização dos indivíduos.
Para frear a ascensão autoritária, é preciso mais do que a rebeldia solitária de um Winston Smith ou o cinismo adaptativo de uma Julia. É necessário organizar o campo crítico, unindo a clareza teórica à força material da massa. Como afirmou Marx em Crítica da filosofia do direito de Hegel (1844): “as armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apodera das massas”. O filme de Raoul Peck serve como essa arma da crítica, “escovando a história a contrapelo” como nos lembra Benjamin para nos dizer que, embora o Partido possa tentar impor que 2+2=5, a liberdade reside na teimosia coletiva de afirmar que o resultado é, e sempre será, quatro.
*Débora Tavares é doutora em literatura pela Universidade de São Paulo (USP).
Referência
Orwell: 2+2=5.
EUA, França, documentário, 2025, 119 minutos.
Direção e roteiro: Raoul Peck.
Produção: Alex Gibney e Raoul Peck.
Narração: Damian Lewis.
Bibliografia
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.
DEMOCRACY NOW! “Orwell: 2+2=5”: Raoul Peck & Alex Gibney on New Documentary, Authoritarianism, Trump & More. Entrevista concedida a Amy Goodman e Nermeen Shaikh. Nova York: Democracy Now!, 2 out. 2025.
EAGLETON, Terry. Marx Estava Certo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ORWELL, George. O Caminho Para Wigan Pier. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
ORWELL, George. Por que escrevo e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.






















