Os garotos podres

Anna Boghiguian, A Play to Play , 2013,
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Por CIRO SEIJI*

Considerações sobre a trajetória da banda de punk rock do ABC paulista

Descrever o protesto punk no seu nascedouro, nos anos oitenta em São Paulo e em especial no ABC paulista é difícil porque não cabe na palavra “protesto” como ato político manifesto. A estratégia de choque não era de ruptura consciente, não era só a roupa cuidadosamente rasgada ou casacos de napa cheios de rebites e pichações, tinha o ridículo e antiestético como componente, tinha o fedor e guerra de lixo, cachaça e drogas improvisadas, tinha até um punk que andava de chinelo sob a bota sem sola, acho que o chamavam de general carniça.

Garotos podres era uma destas bandas que falava de luta operária, mas também ridicularizava Batman como cafetão da Batgirl, e fazia performances cômicas no palco como se nada sairia dali. Não por outro motivo escolhera o pior nome possível para uma banda que nasceu para não fazer sucesso.

Afinal, sucesso musical que tocava estaria era relacionado a uma virtuosidade instrumental e uma alegria que não se via em lugar algum atrás da fuligem e do fog da linha do trem. Os hippies odaras cantavam “Alá, meu only you, no azul da estrela”, esta era a MPB domesticada que tocava no rádio. Odiávamos isso com todas as forças.

Se existiu uma coisa que nasceu para não dar certo foi o punk rock paulista, que foi regurgitado por uma vanguarda sem nenhuma tradição musical e literária. A única coisa que havia de essencial era um niilismo debochado, violento e cru. Não sem motivo o punk rock deve ter sido a única estética que não vendeu. Seus sucessores sim, o new-wave, e bandas pós-punk venderam camisetas, penteados e até deram uma nova definição para a palavra “gótico”. Antes de pensar em catedrais com vitrais que terminam em arco em ogiva, lembram do Eduardo Mão-de-tesoura, olhe aí o capital vendendo depressão como estética.

A inviabilidade econômica do punk é flagrante e está escancarada no fato do próprio Mau e sua banda Garotos podres lançarem o clip musical “Antifa Hooligans” numa casa de shows que já se despediu várias vezes da cidade.[i] Provavelmente uma das últimas casas onde se toca basicamente punk rock e em contraste há dezenas de bares cheios esta noite em são Paulo, onde outro gênero musical contemporâneo ao punk, o metal, mais elaborado musicalmente no sentido que um Adorno roqueiro classificaria como o ouvinte ocupado em nomear o virtuosismo instrumental como centro de seu hábito de consumo.

Nada contra a origem operária do Black Sabath cujo guitarrista perdera a ponta dos dedos numa máquina, mas o gênero deslanchou dos subúrbios industriais de Birmingham para a indústria cultural como qualquer banda hippie milionária que vende love, love, love. Enfim, como lutar contra o capital ficando rico?

Ah! e por quê futebol?[ii] Onde mais a ordem burguesa permite ainda nos reunimos para brigar?

*Ciro Seiji é tecnólogo, artista visual, poeta e letrista de músicas.

 

Notas


[i]Hangar 110 é uma tradicional casa noturna de rock localizada na Rua Rodolfo Miranda, 110, no bairro do Bom Retiro, na Zona Central de São Paulo.

[ii]Segundo a página da banda: “Antifa hooligans foi composta pela banda italiana Los Fastidios, a fantástica melodia de Antifa Hooligans tornou-se um clássico de todos aqueles que hoje se colocam ao lado da resistência contra o fascismo. Aqui no Brasil, os golpes de estado de 2016 e 2018 conduziram o Brasil a um governo que jamais escondeu a sua inspiração fascista, e que cotidianamente ameaça o povo brasileiro com um golpe militar. Diante desta trágica realidade, nós dos Garotos Podres nos colocamos junto às trincheiras da defesa da humanidade contra as trevas da barbárie fascista! Através desta versão de Antifa Hooligans, procuramos homenagear não apenas os “Los Fastidios” (e também a banda The Oppressed, que gravou uma primorosa versão desta música) mas principalmente à todos aqueles que resistem ao Fascismo!!”.

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