Os riscos de um mundo que se desmorona

Imagem: Yumu
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Por GILBERTO LOPES*

Entre guerras evitáveis e hegemonias em declínio, o mundo avança sem escuta e flerta com riscos que podem se tornar irreversíveis

O mundo corre riscos imensos. “Nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, a situação geopolítica e militar global foi tão perigosa”, afirmam Mauricio Bustani, ex-diplomata, e o economista Paulo Nogueira Batista Jr., diretor do New Development Bank (NDB), o banco dos BRICS, entre 2015 e 2017.

Mauricio Bustani e Paulo Nogueira Batista Jr. analisam o cenário internacional e alguns desafios que a situação representa para o Brasil, num artigo publicado no site A Terra é Redonda em 23 de janeiro.

Ex-embaixador do Brasil em Londres e Paris, José Mauricio Bustani era diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) quando o governo de George W. Bush montou sua campanha contra o governo de Saddam Hussein, no Iraque, acusado de possuir armas de destruição em massa.

Eleito para o cargo em 1997 e reeleito em 2001, foi destituído em abril de 2002, quando a pressão do governo norte-americano conseguiu uma votação majoritária nesse sentido: 48 a 7, com 43 abstenções. Abstenções que Mauricio Bustani atribuiu à falta de apoio explícito do governo brasileiro de Fernando Henrique Cardoso e do ministro das relações exteriores Celso Laffer. “Os países da América Latina, Ásia e África pensaram que o Brasil via com reservas meu desempenho e, no último momento, abstiveram-se”, disse Mauricio Bustani.

José Mauricio Bustani negociava com o governo iraquiano sua incorporação à OPAQ, outorgando, assim, acesso aos inspetores da organização ao suposto arsenal de armas químicas, de cuja existência ele duvidava.

Mas George W. Bush já preparava a invasão do Iraque e não estava interessado na gestão de Mauricio Bustani. Pelo contrário, em 5 de fevereiro do ano seguinte – um mês antes da invasão –, ele fez com que seu secretário de estado, o general Colin Powell, fizesse uma apresentação dramática de “documentos” e “provas” no Conselho de Segurança das Nações Unidas – falsos, como sabemos hoje – justificando o ataque que ocorreria no mês seguinte.

A tradição imperial norte-americana

A principal fonte de ameaças e agressões neste cenário é bem conhecida, asseguram. No entanto, “seria um erro atribuir a responsabilidade por tudo o que está acontecendo atualmente apenas a Donald Trump. O ‘fator Trump’ é temporário, enquanto o problema é essencialmente estrutural e, portanto, duradouro”.

José Mauricio Bustani lembrou mais tarde, em entrevista a um jornal brasileiro, que são, sobretudo, os presidentes democratas “os responsáveis pelas grandes guerras desencadeadas pelos norte-americanos”. O império norte-americano não dá trégua: Barack Obama, responsável pelo maior número; Bill Clinton, que decidiu apoiar a expansão da OTAN para o leste, violando os acordos alcançados entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan para pôr fim à Guerra Fria.

“O fenômeno Trump deve ser visto como a reação de uma superpotência em decadência que já não consegue manter sua hegemonia global respeitando as regras de uma concorrência econômica organizada de forma ordenada”. Com Trump, o poder imperial simplesmente “tirou as máscaras”. Num mundo em que China, Rússia e o Sul global se fazem ouvir, “desmascaram sua verdadeira face e perdem os bons modos”.

Irã e Ucrânia

Na outra entrevista – concedida ao jornalista Leão Serna, publicada no jornal conservador Folha de S. Paulo em 21 de fevereiro –, José Mauricio Bustani referiu-se à perspectiva de uma guerra contra o Irã e ao cenário europeu, após a invasão russa da Ucrânia.

Os Estados Unidos repetem hoje as acusações contra um suposto plano iraniano para dotar-se de armas atômicas. Plano que o Irã nega. Seu desenvolvimento estava, além disso, sob o controle da Agência Internacional de Energia Atômica das Nações Unidas até que Donald Trump rompeu os acordos com o governo iraniano durante seu primeiro mandato e pôs fim a essa vigilância.

“Há sinais de que o regime iraniano só sobrevive graças a uma repressão brutal”, disse o jornalista.

“– Você está errado”, respondeu Mauricio Bustani. “Essa é uma história mal contada, é a visão do Ocidente. O Irã assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, é inspecionado regularmente pela Agência Internacional de Energia Atômica, mas continua sendo demonizado”, afirmou. “Não acredito que vá ocorrer uma rebelião interna, como diz a imprensa ocidental”.

Serna também perguntou quem seria a próxima vítima de Vladimir Putin, após o ataque à Ucrânia. “– Não haverá nenhuma”, afirmou Mauricio Bustani. Essa ameaça “é uma criação europeia”. “Você acredita que Vladimir Putin vai invadir Londres e Paris? Alguém com consciência política consegue imaginar isso?”.

O jornalista insistiu: acredito que ele vai invadir os países bálticos. “– Jamais! Eles já teriam invadido. Por que fariam isso? Não precisam. A Europa não entende. A Rússia sempre quis ser europeia”.

Para Mauricio Bustani, Donald Trump quer uma solução para esse conflito porque não há como a Ucrânia vencer.

A doutrina Donroe

O que um país como o Brasil pode fazer diante dessas mudanças no cenário internacional? Como resistir à Doutrina Donroe, uma atualização da antiga Doutrina Monroe com a qual, em 1823, os Estados Unidos em ascensão definiram sua política de “A América para os americanos”? Nessa tentativa de controlar o hemisfério, diz Mauricio Bustani, Donald Trump conta com o apoio da Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile, Equador, Costa Rica, Honduras e El Salvador.

Na Costa Rica, um assessor do novo governo, que assumirá em maio próximo, já sugeriu reformar a constituição para permitir a instalação de bases militares norte-americanas nas costas do país e combater o narcotráfico. Parece um passo lógico, depois que a atual Assembleia Legislativa aprovou no ano passado, por unanimidade, uma reforma que permite extraditar costarriquenhos para os Estados Unidos.

O ataque à Venezuela e a tentativa de recolonizar o país devem despertar no Brasil e em outros países a preocupação com sua capacidade de dissuasão, alertam Mauricio Bustani e Paulo Nogueira Batista Jr. O sequestro do presidente Nicolás Maduro deixou evidente a ausência de meios para essa defesa. Para isso, eles propõem o desenvolvimento de uma forte base industrial de defesa, o controle dos recursos naturais, bem como das rotas comerciais pelo Atlântico Sul. E chegam à conclusão de que é necessário reexaminar a participação do país no Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Nesse aspecto, a ordem do pós-guerra, que reconhece apenas os cinco membros do Conselho de Segurança como potências nucleares, está completamente superada.

A última oportunidade do Ocidente

A discussão sobre as perspectivas da nova ordem internacional estende-se, naturalmente, por todo o mundo. O presidente finlandês, Alexander Stubb, um fervoroso partidário da OTAN e que hoje a Rússia considera representante da extrema russofobia que se espalha pela Europa, lamenta o fracasso das esperanças surgidas no final da Guerra Fria, de um mundo unificado sob as normas da democracia e do mercado capitalista. “A era do pós-Guerra Fria é coisa do passado”, afirma ele num artigo intitulado “The West last chance”, publicado na revista Foreign Affairs em dezembro passado.

Para Alexander Stubb, o Ocidente tem uma última oportunidade para preservar a ordem liberal mundial. Para isso, deve aprender a ouvir e promover reformas nas instituições internacionais, de modo que elas reflitam melhor o peso econômico e político do Sul global e do Oriente global.

O acadêmico e diplomata de Singapura, Kishore Mahbubani, concorda com a visão de vStubb sobre o papel do Sul global. Em sua perspectiva, o Ocidente e o Oriente lutam para conquistar os corações e as mentes do Sul global. A razão é simples, afirma: eles percebem que “o Sul global decidirá a direção da nova ordem mundial”.

Uma invasão provocada

Kishore Mahbubani refere-se à invasão russa da Ucrânia. O Ocidente insiste que “não foi provocada”. É claro que a Ucrânia nunca atacou a Rússia, afirma, mas muitos pensadores ocidentais, “como o diplomata norte-americano George Kennan e o intelectual australiano Owen Harries, alertaram há décadas que a expansão da OTAN para o leste acabaria provocando uma reação violenta por parte da Rússia”.

Para Kishore Mahbubani, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, expressou “uma visão mais matizada sobre a guerra na Ucrânia” quando, em maio de 2022, declarou: “Vladimir Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só Putin o culpado. Os Estados Unidos e a União Europeia também são. Qual foi o motivo da invasão da Ucrânia? A OTAN? Os Estados Unidos e a Europa deveriam ter dito: ‘A Ucrânia não vai aderir à OTAN’”.

Como sabemos, isso não aconteceu. Aconteceu exatamente o contrário. Com a União Soviética derrotada e desaparecida, Washington pensou que sua hora tinha chegado. Que não precisava prestar contas de suas decisões. Sem o tom estridente com que hoje Donald Trump diz poder fazer o que quiser no mundo, Bill Clinton decidiu avançar as linhas da OTAN em direção às fronteiras russas, sem ouvir as advertências sobre o perigo dessa decisão.

Invocando princípios morais e compromissos com a democracia e os direitos humanos, também tensionaram as relações com a China. Acreditavam estar do lado certo da história, disse Kishore Mahbubani.

Mas o povo chinês “prosperou quando contou com um governo central forte e eficaz que o governou com sabedoria. Sob a liderança do Partido Comunista, o povo chinês desfrutou dos melhores 40 anos de desenvolvimento humano e social em 4.000 anos de história”.

Kishore Mahbubani conclui que Alexander Stubb está certo ao pensar que “esta é a última oportunidade do Ocidente para convencer o resto do mundo de que é capaz de dialogar, em vez de monologar”.

Mas, acrescenta, para dialogar é preciso ouvir. “Infelizmente, 12% da população que vive no Ocidente não aprendeu a arte de ouvir os restantes 88% com quem compartilha o planeta”.

Europa sonha novamente com a derrota da Rússia

Entretanto, na Europa, aumentam os apelos para continuar a guerra até a derrota da Rússia. “Hoje, a Europa está rearmando-se. Os países da União Europeia passaram de investir 214 bilhões de euros em defesa em 2021 para 326 bilhões em 2024”, afirma uma correspondente do jornal espanhol El País numa nota sobre os quatro anos de guerra, completados em 24 de fevereiro. Ela lembra que a União Europeia “desembolsou cerca de 194 bilhões de euros para a Ucrânia” e tem pendente um empréstimo de outros 90 bilhões.

É inevitável pensar qual seria o papel da União Europeia no mundo se tivesse destinado uma quantia próxima a essa para projetos de desenvolvimento, na Ucrânia, na África ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas isso é impensável.

“Devemos assumir todas as possibilidades de aumentar a pressão sobre a economia russa e fortalecer a posição da Ucrânia”, afirmaram Rachel Reeves, ministra das finanças da Inglaterra, e Elisabeth Svantesson, da Suécia, num relatório em que garantem que a pressão econômica sobre Moscou “está funcionando”.

A Europa sonha em cumprir a missão que a Alemanha não conseguiu concluir na década de 1940. Há anos que seu único plano é ganhar a guerra, sem que qualquer iniciativa diplomática prospere.

Encerro este texto na sexta-feira, 27 de fevereiro, quando crescem as ameaças de outra guerra, com consequências dramáticas, fáceis de imaginar: o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, uma decisão que Donald Trump reivindicou como exclusivamente sua.

Diante desta realidade, Kishore Mahbubani não perde a esperança: “Se o ensaio de Stubb despertar um processo de escuta no Ocidente, especialmente na Europa, terá servido para um fim útil”, afirma.

Não parece, em todo caso, estar acontecendo assim. O Ocidente não parece ouvir a advertência de Alexander Stubb, ele próprio um entusiasta do esforço militar e econômico para derrotar a Rússia. O Ocidente está desperdiçando sua “última oportunidade”. O risco que corremos é que o resto do mundo também não tenha outra…

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor, entre outros livros, de The end of democracy: a dialogue between Tocqueville and Marx (Editora Dialética) [https://amzn.to/3YcRv8E]

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Referências


O artigo, intitulado “If you want peace…”, publicado em 26 de janeiro, pode ser visto aqui: https://eng.globalaffairs.ru/articles/peace-bustani-batista/

A entrevista de Mauricio Bustani pode ser vista aqui: https://www1.folha.uol.com.br/amp/ilustrissima/2026/02/bustani-diz-que-trump-mente-sobre-risco-nuclear-do-ira-e-repete-bush-no-iraque.shtml

O artigo de Alexander Stubb, intitulado “The West last chance”, pode ser visto aqui: https://www.foreignaffairs.com/united-states/wests-last-chance

O artigo de Kishore Mahbubani, intitulado “The dream palace of the West”, publicado em fevereiro, pode ser visto aqui: https://www.foreignaffairs.com/united-states/dream-palace-west?utm_medium=newsletters&utm_source=fatoday&utm_campaign=Ukraine%20and%20the%20New%20Way%20of%20War&utm_content=20260220&utm_term=EDZZZ006ZX

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