Os trabalhadores, as instituições de ensino e a greve da educação federal

Imagem: Jonas Kakaroto
image_pdf

Por MICHEL GOULART DA SILVA*

Podemos ter críticas pontuais a certos aspectos da greve, mas em hipótese alguma pode-se questionar sua legitimidade ou relativizar sua importância

Neste momento, possivelmente o principal processo em curso na política brasileira passe pela greve nas universidades e institutos federais. Por um lado, esse processo mostra trabalhadores organizados e em luta, em âmbito nacional, reivindicando a recomposição de perdas salariais que se acumulam há muitos anos. Por outro, ao levantar essa demanda, esses trabalhadores explicitam o debate sobre o orçamento público e seus usos, questionando, em particular, a priorização do pagamento da dívida ou a garantia das emendas parlamentares para políticos de todas as cores políticas.

Contudo, para muitos analistas, o debate central em torno da greve não passa pela necessidade do crescimento dos investimentos da educação, pela submissão do governo ao capital financeiro ou pelo escoamento orçamentário para a garantia de currais eleitorais em ano eleitoral. Para muitos analistas, a grande questão que perpassa a greve é entender a razão pela qual uma categoria que, em sua maioria, ajudou a eleger Lula agora questiona o programa aplicado pelo governo. Para alguns, inclusive, sequer haveria legitimidade nessa greve, afinal teríamos dado a Lula o mandato e agora deveríamos aceitar qualquer coisa que viesse desse governo.

Esses argumentos já foram devidamente questionados por diferentes colegas com os mais diversos excelentes argumentos. Contudo, no geral, esses argumentos nada mais são do que variantes daquelas posições que não apoiam a greve. Concretamente, o que se tem é que os trabalhadores das instituições federais de ensino, de forma coletiva, optaram por paralisar seu trabalho de ensino, pesquisa, extensão e gestão. Podemos ter críticas pontuais a certos aspectos da greve, mas em hipótese alguma pode-se questionar sua legitimidade ou relativizar sua importância.

Embora para muitos as categorias em luta possam ser reduzidas a “eleitores de Lula”, esse é o aspecto menos relevante na constituição desse ser social. Em primeiro lugar, por óbvio, porque nem todos são eleitores do Lula. Em segundo lugar, porque o ato de votar é uma escolha pontual diante de circunstâncias específicas e momentâneas e obviamente não pode ser um estigma a ser carregado pelas pessoas durante quatro anos. Esse determinado fenômeno certamente tem suas implicações e impactos durante os quatro anos, mas, diante das circunstâncias concretas, é óbvio que cada ser social passa por novas impressões da realidade, reflexões e mudanças de perspectivas e não pode ser limitado ao que foi em um momento específico.

Nas eleições presidenciais, o cenário concreto em que estávamos passava pela escolha entre Bolsonaro, um pretenso fascista com um discurso demagógico que havia declarado guerra às universidades desde sua primeira campanha, e Lula, tentando inutilmente equilibrar melhorias pontuais para os trabalhadores com os interesses da burguesia e do capital financeiro. Essa era a escolha diante da qual estávamos e muitos de nós optaram pela segunda opção, ainda que sem ter esperanças no novo governo ou, pelo menos, diante da expectativa de que, nesse novo governo, não precisaríamos a todo o momento ter de nos defender – às vezes até fisicamente – dos ataques que permanentemente eram desferidos contra nós.

Portanto, o ser social que agora faz a greve se constitui, em grande medida, pela negação das atrocidades do bolsonarismo que vivenciamos ao longo de quatros anos – ou mesmo seis, se entendermos que o governo Temer foi uma espécie de precursor de Bolsonaro. Em certa medida, ao derrotar Bolsonaro nas urnas, queríamos o direito de continuar a existir e de poder trabalhar sem que nossas vidas estivessem em risco ou sem que o governo a todo o momento questionasse a legitimidade das nossas ações, as reduzindo a “doutrinarismo” ou qualquer outra aberração retórica que tenha saído da boca dos diferentes representantes do governo Bolsonaro.

Contudo, os anos de Temer e Bolsonaro não foram apenas de ataques retóricos, mas também de ações concretas contra a educação. E, assim, se forjou um segundo elemento que marca os trabalhadores que se encontram em greve, ou seja, a defesa das instituições de ensino em que trabalhadores. Entre bloqueios, contingenciamentos, cortes e outros tantos ataques, que remontam ao segundo mandato de Dilma e se aprofundaram com Temer e Bolsonaro, o cotidiano das instituições de ensino passou por garantir, mesmo que com o orçamento limitado, o básico para nossos estudantes.

Em meio a isso, sobrevivemos a uma pandemia, que nos obrigou a literalmente garantir as nossas vidas e a dos nossos estudantes. Desde 2015, vemos nossas instituições sofrerem um sufocamento orçamentário, enfrentando dificuldades de diferentes naturezas, forjando trabalhadores que as defendem como parte de sua própria vida. Não se trata aqui de corporativismo de categoria ou de uma arrogância institucional, mas de entender que nossa sobrevivência depende da existência dessas instituições, da colaboração com nossos colegas e do atendimento a nossos estudantes.

Contudo, a derrota da retórica demagógica que nos atacava permanente e a luta pela manutenção material de nossas instituições não será nada se não estivermos vivos. Portanto, entendemos que não é possível sobreviver com um salário que, no caso de algumas categorias, equivale a um terço daquilo que se recebia em 2010. O cenário de inflação e de aumento de despesas familiares, como em saúde e educação, mostra que os “supersalários” do funcionalismo público federal não passam de uma falácia completamente irreal. Em especial no caso dos servidores técnico-administrativos das universidades e institutos federais, o piso da categoria é inferior ao salário-mínimo. No caso dos docentes ou dos técnicos de nível superior, os valores absolutos até podem ser um pouco mais elevados, mas isso depende de muitos anos no cargo e a possuir o título de mestre ou de doutor.

Portanto, o que se tem hoje em movimento é um ser social que não pode ser limitado ao seu voto pontual nas últimas eleições presidenciais. Tratam-se, sim, de trabalhadores que lutaram pelo direito de existir, diante dos ataques bolsonaristas. Que defendem suas instituições, como resposta às perdas orçamentárias que sofremos ao longo dos últimos dez anos. E que batalham por ter condições de sobreviver e garantir a subsistência de suas famílias. Esses são os trabalhadores que neste momento enfrentam uma duríssima greve contra o governo e que não podem ser resumidos a meros eleitores de Lula, e que merecem o apoio incondicional de toda a classe trabalhadora.

*Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES