Twitter ou Koo?

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Por CAIQUE DE OLIVEIRA SOBREIRA CRUZ*

Considerações sobre a entrada em massa de brasileiros na rede social Koo

As redes sociais são criadas por empresários que, em 99% dos casos, defendem os seus interesses, portanto, são de direita ou de extrema direita, nenhuma novidade aí. O problema com o Koo é maior do que isso, porque está interligado com um projeto político. A rede social foi lançada em 2020 com o apoio direto do primeiro-ministro Narendra Damodardas Modi da Índia, um político de extrema direita.

O seu partido, conservador e signatário de um “nacionalismo religioso hindu” de direita, o Partido Bharatiya Janata (BJP), financia direta e indiretamente o Koo para seguir um padrão que serviria de aparelho ideológico dos reacionários na Índia, permitindo o discurso de ódio contra as minorias, os mulçumanos etc., impedindo críticas ao governo e colocando “influencers” e celebridades para enaltecê-lo.

Por conta do fato do Twitter ter sofrido mudanças e, em 2020, estar retirando os discursos de ódio dos indianos nas redes e liberando comentários de críticas fortes ao governo, ele foi perseguido e, no lugar, elaboraram o projeto do Koo para ser o instrumento da extrema direita no país, pregando a liberdade do discurso de ódio, ao estilo da bicicleta protofascista abrasileirada maldita: Monark.

Pode parecer que não faz sentido pensar nisso estando no Brasil, pois, em tese, o STF, caso o Koo venha a vingar aqui, irá regular essas questões, para o uso, aqui em nosso país, pelos usuários (como já está fazendo com o Twitter e com o Telegram). Contudo, pensando externamente e com internacionalismo (como reza a tradição proletária), participar dessa rede, hoje, é aumentar o seu poder financeiro, o seu poder político e financiar o governo de extrema direita na Índia que massacra os explorados e oprimidos.

Uma analogia básica para ficar mais simples: imaginemos que o Twitter, antes da compra do Elon “Bosta”, fosse censurado e defenestrado pelo governo Bolsonaro e, em seguida ele (Jair Bolsonaro) pedisse para “Carluxo” elaborar uma nova rede social e, depois, apoiar e financiar o projeto para que empresários abrissem essa rede, liberando discursos de ódio contra os explorados e oprimidos, e, também, os destinados a exaltar o governo Bolsonaro e as práticas desumanas da extrema direita (como as praticadas pela trupe que foi banida do Twitter pelo “Xandão”) e, além disso, proibindo as críticas ao governo na metafórica rede, tudo isso tendo o financiamento direto do Partido Liberal (PL) e do atual governo.

Suponhamos, pari passu, que, após dois anos da criação dessa rede, viessem os indianos e, por achar graça no nome do aplicativo (aos moldes da quinta série do ensino fundamental), entrassem em rebanho nele. Esse movimento afetaria ou não a correlação de forças contra a extrema direita no Brasil?

Esse é o ponto… O problema está muito longe de ser tão somente “os usuários são de extrema direita e agora nós vamos ocupar e tomar o lugar” ou, simplesmente, “todos os donos de redes sociais famosas são de direita”. Não, a questão fundamental é a ligação direta entre a rede social e o governo de extrema direita de Modi e, por derivação, as diretrizes da rede que foram formuladas para fomentar o reacionarismo e o protofascismo na Índia.

À guisa de conclusão, nós precisamos encontrar qual é o liame que demarca a diferença entre a comédia pura e a comédia política e como elas passam por metamorfoses imperceptíveis ao realismo ingênuo. A “esquerda” brasileira ainda não conseguiu tirar um saldo do processo de comédia pura nos últimos períodos que foi destinado ao bolsonarismo (em suas caricaturas nas redes sociais e nos programas televisivos de cultura “inútil” que não valem a honra de menção) que acabou por ser um dos elementos (secundário, diga-se) de contribuição para alastrar este fenômeno (Jair Bolsonaro e a sua caterva), convertendo-o de comédia pura em comédia política e, por fim, em política comédia.

A audiência pela graça, feita por boa-praça, e dada a uma desgraça, que desenlaça a ameaça à vida e despedaça a democracia burguesa, largando-a “às traças”; movimento que pode ser representado fielmente pelo infeliz e capacitista dito popular “bater palma para maluco dançar”. Mais uma vez, parte da “esquerda” se põe a bailar à beira do precipício, em nome do êxtase efêmero e fútil  dos trocadilhos e das piadecas de quinta categoria de corte infanto-juvenil, trazem à evidência, no Brasil, uma rede social que só tinha reconhecimento e adeptos na Índia (dados iniciais indicam que só haviam 2 mil usuários do “Koo” no Brasil).

Como momento do processo de conversão da comédia pura para a comédia política e em sequência para a política comédia, transforma o que seria uma simples brincadeira em um movimento massivo de entrada de brasileiros no Koo (dispenso os calembures no sense), pois, pela falta de substantividade e politicidade nas ações concretas por causa da desinfluência engendrada pelas lideranças políticas dos grandes partidos e entidades de classe, a substantividade dos corpos está sendo composta pela frivolidade pueril do vazio existencial; a forma esvaziada da casca seca vaga se confunde erroneamente com a substância da essência que tem em seu devir a luta pela plenitude inalcançável na qual a própria jornada é o elemento fundamental do gozo, gerando, assim, um sentimento de pertencimento entre os pares de “esquerda”, ao alcançarem o âmbito do sarcasmo e do escárnio. Uma grande comédia pura sem responsabilidade social, apressou-se em metamorfosear-se em um gozo risível de conjunto, emulando um afeto e um prazer na “turma” da jocosidade que se conduziu para o seu ponto de apogeu, a entrada em efeito manada dos partícipes no Koo, primeiro como brincadeira, depois como tragédia.

A vida é uma comédia e esta permeia todos os locus possíveis e impossíveis, no entanto, a acidez e a ironia precisam ter amparo na substancialidade do ser, seja para objeto de catarse geral, seja para uma catarse política. A utilização da comédia pura e da comédia política sem responsabilidade social em busca do gozo superficial e opaco (ao invés do gozo profundo), quando é reiterada incessantemente em um longo período pelos mesmos grupos de “esquerda”, está tendendo sempre ao benefício da extrema-direita no mundo. Aguardamos e torcemos para que o fenômeno seja apenas um efeito efêmero da algazarra, haja vista que não é saudável para o ser se satisfazer do vazio e nem para a “esquerda” ajudar o crescimento e a estabilidade de uma empresa que é um aparelho “ideológico” da extrema direita indiana, em especial, do seu governo nefasto.

Ó, grande Kafka, onde se escondes? O insólito e o cômico nos rodeiam novamente, o fantasma tragicômico não se enfada de assombrar a nossa sociedade e o gozo artificial promovido pelo neoliberalismo se reproduz cada vez mais intensamente na figura do indivíduo-empresa.

PS1: A título de comparação, o BJP faz parte de um organismo internacional de partidos conservadores no qual a União Brasil (antigo PFL e depois DEM) é o Partido representante brasileiro.

PS2: Aparentemente, a segurança dos dados dos usuários no Koo, é pouco sólida as matérias internacionais indicam fragilidade e ataque hackers com constância. Nesse aspecto, provavelmente, devem tentar solucionar, haja vista que a plataforma está tendo um boom no Brasil. Ademais, eu não tenho confiança nos organismos de imprensa norte-americanos e europeus que li para obter essas informações, portanto, nesse quesito, não tenho a convicção de afirmar sobre o grau de segurança da rede social, afinal, nossos dados foram sequestrados pela própria Meta (empresa do “formidável” mundo “ocidental”) que hoje coordena a tríade: Facebook, Instagram, WhatsApp.

PS3: Eu também faço parte do grupo que deseja que Elon Musk se exploda.

*Caique de Oliveira Sobreira Cruz é mestrando em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador.

 

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