Os ventos do Chile

Dora Longo Bahia, Black Bloc, 2015 Serigrafia sobre fibrocimento 50 x 79 cm
image_pdf

Por JOANA SALÉM VASCONCELOS*

Breve análise das eleições para a Convenção Constitucional.

Desde outubro de 2019, o Chile vive uma grande erupção social e uma crise de hegemonia política. As elites chilenas assistem, atordoadas, ao transbordamento da luta popular por direitos, gratuidade, bem-estar e dignidade. Apesar dos entraves impostos pelo Acordo Pela Paz Social de 15 de novembro de 2019, que definiram um quórum conservador de 2/3 para a mudança constitucional; apesar da regulamentação restritiva da Convenção Constituinte, enquadrada nos marcos da geopolítica neoliberal; e claro, apesar da pandemia, as organizações populares seguiram sua construção política autônoma de outubro de 2019 até hoje, preparando-se para o confronto contra o maior entulho autoritário da ditadura: a Constituição de 1980.

Os governos democráticos de 1990 a 2021 se curvaram ao chamado “modelo chileno” e o tornaram ainda mais sofisticado, ampliando o mal-estar social. Mas o modelo da Constituição de 1980 se mostrou corroído e esgotado. Enquadrado em uma sociedade sem direitos desde o golpe de 1973, os chilenos foram lançados ao desamparo da sociedade neoliberal, ao individualismo de mercado e à guerra de todos contra todos.

O Estado Subsidiário, arquitetado por Jaime Guzmán e os Chicago Boys na ditadura, mercantilizou todas as esferas da vida e impôs à sociedade chilena os arbítrios das privatizações generalizadas em nome da liberdade das grandes corporações. A espoliação privada da terra, da água, dos recursos minerais e agrícolas, a perversa capitalização das aposentadorias, a mercantilização da educação e da saúde, foram promovendo um processo irreversível de desgaste do tecido social.

A campanha publicitária pela democracia, que disse “No” à Pinochet em 1988, tinha como slogan “la alegría ya viene”, mas a preservação do arranjo constitucional da ditadura impediu que a democracia entregasse sua promessa. O “pinochetismo sem Pinochet” comandou os últimos 30 anos de democracia no país.

Mas agora o “modelo chileno” está mais combalido do que nunca. Nas eleições de 15 e 16 de maio passado, os chilenos indicaram que a Convenção Constituinte será um evento democrático de grandes proporções, com força para refundar as relações entre Estado e sociedade em bases populares e verdadeiramente democráticas.

Os resultados eleitorais não se parecem com nada que eu já tenha visto. Os deputados independentes eleitos são 32% dos 155 membros da Convenção. Os deputados indígenas são 11%. Os três grandes blocos partidários somam 57%. Os independentes tiveram orçamentos pequenos e quase nenhum tempo de TV, mas obtiveram um terço dos votos, mostrando a corrosão do sistema partidário convencional. Entre os candidatos indígenas, os direitistas foram derrotados e os indígenas à esquerda venceram.

Até semana passada, muitos amigos me disseram que a pulverização das candidaturas poderia corroer a força eleitoral da esquerda. Era um reflexo da descentralização da revolta de 2019, um elemento positivo que poderia, na matemática eleitoral, se tornar negativo. Mas ocorreu o oposto: a força dos independentes desequilibrou o resultado em favor da esquerda.

Entre os blocos partidários, a direita teve 24% (Vamos por Chile – RN/UDI); o centro ficou com 16% (Lista de Apruebo – ex Concertación); e as esquerdas com 18% dos deputados (Apruebo Dignidad – PC/FA).

Entre os independentes, a Lista del Pueblo, de esquerda, teve 15%. A Lista Nueva Constitución, de centro-esquerda, teve 7%. Ainda há 8% dos independentes eleitos sem lista, com candidaturas de perfil local cuja posição ideológica ainda precisa ser mapeada.

Em resumo, temos:
Direita (Vamos por Chile): 24%
Centro-Esquerda (Apruebo + Nueva Constitución-ind): 23%
Esquerda (Apruebo Dignidad + Lista del Pueblo-ind): 34%
Indígenas (nenhum da direita): 11%
Independentes sem lista: 8%

A direita foi posta no canto do ringue. A arquitetura constitucional de Jaime Guzmán está prestes a ser desarmada.

*Joana Salém Vasconcelos é doutora em história pela USP. Autora de História agrária da revolução cubana: dilemas do socialismo na periferia (Alameda).

Publicado originalmente em Portal Contrapoder.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES