As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A direita ataca Porto Alegre

Imagem: Bia Santana
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por GERSON ALMEIDA*

O dia do patriota faz urgente a defesa de democracia contra aqueles que se valem dela para destruí-la é a questão de fundo que precisa ser enfrentada sem trégua

Existem 5.565 municípios no país, mas apenas os vereadores e o prefeito de Porto Alegre sentiram-se à vontade para dedicar um dia do calendário oficial da cidade aos patriotas.

Antes que algum desavisado pergunte: e daí? é preciso esclarecer que o dia escolhido é aquele em que hordas fanatizadas vandalizaram as instalações do Senado, da Câmara Federal, da Presidência de República e do Supremo Tribunal Federal, as sedes dos três poderes da República Federativa do Brasil e, portanto, símbolos do Estado de direito democrático e da Constituição que os conforma. Neste caso, patriota é o nome fantasia dos golpistas.

Ao serem questionados sobre o tema, o prefeito Sebastião Melo (MDB) e o presidente da Câmara de Vereadores, Hamilton Sossmeier (PTB), tentaram se esquivar de qualquer responsabilidade e esconderam-se atrás de argumentos burocráticos e de manobras marotas. O prefeito Sebastião Melo, mesmo tendo a prerrogativa de veto, decidiu deixar passar o prazo legal para se manifestar, o que é uma forma nada sutil de apoio à iniciativa.

Os vereadores da base do governo controlam a maioria das três comissões que analisaram a proposição: Comissão de Constituição e Justiça, que não encontrou nenhum óbice legal para a exaltação do golpismo; pela Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude, que achou adequado para a educação e para a cultura estimular o vandalismo e a pregação antidemocrática; e a, pasmem, Comissão de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Pública, na qual a maioria percebe os atos golpistas como compatíveis aos direitos humanos e à segurança pública. É surpreendente que apenas dois vereadores tenham votado contra nessas comissões, sugerindo que os setores democráticos precisam perceber que há temas inegociáveis e que é preciso demarcar politicamente.

A aprovação do “Dia do Patriota” em Porto Alegre é uma infame ostentação de apoio das autoridades do executivo e do legislativo municipal de Porto Alegre aos atos de vandalismo que foram realizados com o objetivo explícito de impor um regime que no qual o parlamento e o judiciário seriam subjugados à um executivo imposto por um golpe de estado, sequestrando a soberania popular aferida em eleições democráticas.

Isso mostra que o nível da degradação moral e política do grupo de poder que sustenta o prefeito Sebastião Melo – ampla maioria na Câmara de Vereadores – chegou ao ponto da metástase. Nenhum dos sucessivos governos de direita, que há anos governam a cidade, foi capaz levar tão longe o desprezo pela democracia na cidade que se tornou conhecida no mundo como exemplo de participação social.

É verdade que o prefeito Sebastião Melo está determinado a se afirmar como uma liderança do campo que reúne todo o arco da direita regional e sua gestão está determinada a transformar Porto Alegre em um modelo de gestão ultraliberal, como mostra o seu propósito de tornar as áreas públicas da cidade, como a Orla do Guaíba e os Parques em mercadorias à disposição dos interesses do mercado e do lucro privado. O que opera uma mudança substancial na função urbana dessas áreas, até então consideradas como bens essenciais e de uso universal, destinados a assegurar o bem-estar, a qualidade de vida e a preservação do meio-ambiente urbano para toda a população.

Mas a explicação para esta ação bizarra não pode ser encontrada apenas na política local, pois o descompromisso com a democracia e a soberania popular é uma característica intrínseca do atual estágio do capitalismo que faz de tudo para assegurar uma autonomização das “forças do mercado” de todo e qualquer tipo de controle da sociedade. Para o “mercado” a função dos governos é de agir para facilitar a sua ação e jamais para estabelecer regras que o coloquem à serviço da sociedade.

A maneira que as lideranças agem diante de um projeto de lei é uma tomada de decisão sobre interesses de determinados setores da sociedade, uma escolha sobre projetos de sociedade. E o prefeito Sebastião Melo e os vereadores da sua base de sustentação política mostraram de forma escrachada a que interesses servem.

Porto Alegre sob a gestão de Sebastião Melo e sua aliança política repulsiva virou motivo de chacota nacional ao dedicar um dia para o patriota/golpista, mas a questão que isso revela é o quanto o atual sistema de pensamento e ação da direita brasileira e suas congêneres no mundo estão se afastando cada vez mais do compromisso com o pacto democrático.

A incompatibilidade com a democracia já havia sido expressa de forma cristalina na resposta de Friedrich Hayek, um dos principais ideólogos do neoliberalismo, durante a ditadura de Pinochet no Chile: “Minha preferência pende a favor de uma ditadura liberal, não a um governo democrático”. A defesa de democracia contra aqueles que se valem dela para destruí-la é a questão de fundo que precisa ser enfrentada sem trégua.

*Gerson Almeida, sociólogo, ex-vereador e ex-secretário do meio-ambiente de Porto Alegre.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Eduardo Borges Luiz Costa Lima Marcos Silva Antônio Sales Rios Neto Paulo Martins José Raimundo Trindade Lucas Fiaschetti Estevez Thomas Piketty Valerio Arcary Ricardo Abramovay Alexandre Aragão de Albuquerque Annateresa Fabris Paulo Nogueira Batista Jr Milton Pinheiro Antonio Martins Vladimir Safatle Ronaldo Tadeu de Souza Paulo Sérgio Pinheiro Remy José Fontana Michael Roberts Renato Dagnino Lorenzo Vitral Luiz Roberto Alves Flávio Aguiar Daniel Afonso da Silva Gerson Almeida Slavoj Žižek Luciano Nascimento Daniel Costa Marcelo Módolo Ronald León Núñez Denilson Cordeiro Francisco de Oliveira Barros Júnior Marjorie C. Marona Liszt Vieira Celso Frederico Fernando Nogueira da Costa Bruno Fabricio Alcebino da Silva Vanderlei Tenório José Dirceu Luiz Eduardo Soares Leda Maria Paulani Luís Fernando Vitagliano Vinício Carrilho Martinez Gilberto Maringoni Jorge Luiz Souto Maior Roberto Bueno Leonardo Sacramento André Márcio Neves Soares Benicio Viero Schmidt Luiz Carlos Bresser-Pereira Igor Felippe Santos Francisco Fernandes Ladeira Berenice Bento João Carlos Loebens Érico Andrade Dênis de Moraes Luis Felipe Miguel Elias Jabbour Celso Favaretto Luiz Werneck Vianna João Sette Whitaker Ferreira Marilia Pacheco Fiorillo Jean Pierre Chauvin Flávio R. Kothe Fábio Konder Comparato Maria Rita Kehl Henri Acselrad Marcelo Guimarães Lima Valério Arcary Luiz Bernardo Pericás Kátia Gerab Baggio Leonardo Avritzer Rafael R. Ioris Henry Burnett Juarez Guimarães Plínio de Arruda Sampaio Jr. Alysson Leandro Mascaro Michael Löwy Boaventura de Sousa Santos Anselm Jappe Eleutério F. S. Prado Manuel Domingos Neto Ronald Rocha Ricardo Fabbrini Eugênio Trivinho Yuri Martins-Fontes João Paulo Ayub Fonseca Ari Marcelo Solon Luiz Renato Martins Mário Maestri Gilberto Lopes Carla Teixeira Eugênio Bucci João Carlos Salles Chico Alencar Antonino Infranca Roberto Noritomi Tales Ab'Sáber Marilena Chauí José Geraldo Couto Osvaldo Coggiola Priscila Figueiredo Julian Rodrigues Sandra Bitencourt Luiz Marques Claudio Katz Alexandre de Freitas Barbosa André Singer Eleonora Albano Jorge Branco Armando Boito Otaviano Helene Ricardo Musse Ricardo Antunes Manchetômetro Tarso Genro Anderson Alves Esteves Heraldo Campos Jean Marc Von Der Weid Airton Paschoa Francisco Pereira de Farias Leonardo Boff Sergio Amadeu da Silveira João Lanari Bo Daniel Brazil Carlos Tautz João Feres Júnior Fernão Pessoa Ramos Everaldo de Oliveira Andrade Marcus Ianoni José Machado Moita Neto Lincoln Secco Alexandre de Lima Castro Tranjan Salem Nasser Ladislau Dowbor Bruno Machado José Luís Fiori Andrew Korybko Atilio A. Boron Paulo Fernandes Silveira Rodrigo de Faria José Micaelson Lacerda Morais Mariarosaria Fabris José Costa Júnior Caio Bugiato Paulo Capel Narvai Tadeu Valadares Chico Whitaker Eliziário Andrade Marcos Aurélio da Silva Afrânio Catani Bento Prado Jr. Walnice Nogueira Galvão Rubens Pinto Lyra Dennis Oliveira João Adolfo Hansen Bernardo Ricupero Gabriel Cohn Samuel Kilsztajn

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada