Plataformização da vida social

Imagem: David McEachan
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Por VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ, ARLEI OLAVO EVARISTO, ESTER DIAS DA SILVA BATISTA, LUCAS GONÇALVES DA GAMA & IZABELA VICTÓRIA PEREIRA*

A plataformização da vida em dados, controlada pelas Big Techs, pasteuriza o trabalho vivo, esvazia a educação crítica e naturaliza violências, transformando cidadãos em servos voluntários da vigilância algorítmica

A ideia mais simples indica que a vida social, econômica, os registros bancários, nossa imersão cultural, a comunicação que recebemos, os nossos dados de educação e de saúde pública (os remédios que compramos), toda a nossa institucionalidade (o famoso RG, o CPF, os registros da carteira de trabalho), os e-mails de docentes de universidades federais – com sua base no Google –, e até mesmo a urna eletrônica, tudo isso passa por alguma plataforma digital.

Portanto, não estamos invisíveis, e seremos ainda mais avistados quanto mais entrarmos neste “circuito digital”. Aliás, o próprio Whatsapp emitiu um aviso para administradores de grupos ativarem um comando de privacidade, para que a Inteligência artificial não “pescasse” as conversas.

Isso revela a venda de nossos dados digitais (pegadas) para empresas de marketing que irão, em seguida, repassar para nós mensagens publicitárias. E há mais, no sentido de que nossos dados, estão alimentando extensas bases de dados (internacionalizadas) e, assim, estamos nos inserindo (meio gratuitamente, como “servos voluntários”, diria Bauman) numa rede, malha digital que nos vigia e controla – sempre a serviço das Big Techs, as empresas bilionárias de controle digital, como a Amazom, o Google, a Microsoft, a Meta. Nosso texto apresenta cinco leituras básicas e complementares sobre esse tema.

Mutação da técnica em tecnologia

Os dias atuais estão imersos em tecnologias diversas, desde coisas simples como TVs, computadores e celulares até assistentes virtuais, redes sociais com algoritmos que perfilam o usuário em poucos minutos e inteligência artificial embutida em qualquer aparelho possível. Antes de termos toda essa tecnologia disponível em nossas mãos foi necessário um árduo desenvolvimento da técnica. Os gregos eram expert na técnica, especialmente por ela estar estritamente ligada à moral.

Esse aprimoramento tecnológico passou pelos gregos, os quais buscavam uma vida mais virtuosa e, por conta disso, buscaram desenvolver coisas que facilitassem suas vidas para que pudessem se dedicar ainda mais à arte e à polis. Uma lógica parecida foi aplicada por outros povos, como os romanos e seus aquedutos e, muito posteriormente algo que revolucionaria o mundo de uma forma inimaginável: a prensa de Gutenberg.

Este marco pode representar um possível momento de cisão entre a produção técnica e produção tecnológica. A produção técnica é essencialmente manual, realizada por artesãos, marceneiros, ferreiros, confeccionando peças únicas e exclusivas. Enquanto a produção tecnológica se apresenta em maior volume, como a própria prensa de Gutenberg fez para imprimir os documentos bíblicos e que, a partir do século XVII, resultaria nas revoluções industriais. Hoje, o “produto é você!”.

A invisibilidade dos diferentes nas redes

A prometida revolução digital não mudou as bases da vida social. As tecnologias avançaram, mas ainda servem como cenário para antigos comportamentos e decisões. Os recentes casos de violência contra mulheres mostram isso: nas redes sociais, as agressões são naturalizadas e, mesmo quando denunciadas, os comentários continuam culpabilizando as vítimas.

O desenvolvimento técnico, nesse aspecto, segue sem progresso ético. A violência de gênero funciona como uma mensagem social que expõe a vulnerabilidade das instituições e a permanência do patriarcado. Do mesmo modo, a tecnologia está longe de resolver essas falhas: ela apenas as automatiza, desmontando a ideia de neutralidade nas decisões das máquinas.

Esse horizonte também é atravessado por outro fenômeno: a troca de antigos movimentos de mobilização social por um engajamento rápido e superficial. Lutas históricas deram lugar a dinâmicas virais, marcadas mais pela busca por seguidores do que pela participação política. A cultura digital favorece essa atuação imediata e pouco reflexiva.

Quando a responsabilidade social é transferida para sistemas automatizados, surge um risco essencial: não se trata de uma revolução tecnológica, mas da perda da capacidade de enfrentar problemas estruturais e reconhecer o próprio papel cidadão.

A reforma do ensino

A recente reforma do ensino médio (Lei nº 14.945/2024) representa um aprofundamento do processo de precarização do ensino público, intensificando ainda mais as desigualdades já existentes na educação brasileira.

A reforma diminui a carga horária comum, com ênfase em ciências humanas (exemplos: filosofia, história, artes e sociologia), e aumenta a carga horária de itinerários formativos, que são matérias interdisciplinares (educação financeira, etc.). A exclusão da disciplina de filosofia faz com que os estudantes deixem de ter acesso a uma formação crítica como indivíduos na sociedade.

O ensino básico público foi submetido à nova reforma do ensino médio, a qual reduz a carga horária destinada às áreas de ciências humanas e biológicas, e introduz disciplinas interdisciplinares sem planejamento e estrutura adequados. Em contraste, o ensino privado, em sua maioria, mantém o modelo anterior, enquanto os vestibulares para o ensino superior permanecem inalterados.

Esse contexto evidencia a reprodução de desigualdades educacionais no Brasil, na medida em que a escola pública tende a direcionar seus estudantes à inserção precoce no mercado de trabalho, ao passo que o ensino privado continua voltado à preparação para o ingresso nas universidades. Retirar o ensino de filosofia é proposital, pois, a crítica não é interessante ao capital.

Pasteurização do trabalho humano

O cenário introduzido pela nova “revolução tecno-científica” (século XXI) nos impôs o controle algoritmo e a negação da política. Se, por um lado, o trabalho não pago realizado nas redes alimenta o capital (Big Techs), no outro sentido essas corporações impõe uma lógica de produção laboral, que elimina a singularidade, a crítica e a complexidade humana em favor de um produto consumível, viralizável, que o pensador venezuelano Ludovico Silva denominou como mais-valia ideológica, onde o trabalhador mesmo fora de seu ambiente de trabalho produz e valida a ideologia das classes dominantes.

A pasteurização, processo originalmente conhecido na bioquímica, como um processo térmico para eliminar os micro-organismo patogênicos, serve como uma metáfora precisa para que os algoritmos eliminem o trabalho vivo (trabalho humano), se prevalecendo do trabalho morto, ou seja, automatizando ao máximo as tarefas.

O trabalho perde seu sentido de classe, seus direitos sociais e trabalhistas, a criatividade humana é substituída pela repetição de fórmulas e modelos que os algoritmos determinam e com isso a reflexão crítica é sufocada. A pasteurização precariza as condições materiais da existência humana e esteriliza a ontologia do ser. É preciso reintroduzir a capacidade humana com suas falhas, imprevistos e o pensamento crítico nas engrenagens do sistema.

*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo. Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ) [https://amzn.to/4aBmwH6]

*Arlei Olavo Evaristo é doutorando em Ciência, Tecnologia e Sociedade na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

*Lucas Gonçalves da Gama é graduado em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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