Revolução e contrarrevolução na Alemanha

Imagem: Gill Rosselli
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Por MARIO PEDROSA*

Prefácio de janeiro de 1933 do livro de Leon Trotsky

Os trabalhos aqui reunidos são pela primeira vez enfeixados em volume, sob o título Revolução e contrarrevolução na Alemanha. Escritos em momentos diversos, tratam, porém, do mesmo tema: o problema da revolução proletária alemã, posto em ordem do dia com uma extraordinária acuidade pelo irromper da crise em 1929. E o primeiro artigo data justamente daí.

O título dado torna, aliás, perfeitamente clara a unidade interna que prende esses escritos. Trata-se, como diz Leon Trotsky, não de salvar o capitalismo alemão, mas a Alemanha do seu capitalismo. Este é o tema central da obra.

Os problemas do destino do povo alemão, especialmente do seu proletariado, são estudados nestas páginas com a precisão e a argúcia que só o destro manejo desse extraordinário instrumento de investigação sociológica que é o marxismo pode proporcionar. Ainda mais quando é manejado por mãos que não são apenas de um grande teórico, mas de um homem de ação que já experimentou, nos laboratórios sociais da Revolução, as suas ideias e a sua doutrina. O analista e o revolucionário aqui se fundem, e é esta síntese que caracteriza o verdadeiro marxista.

Revolução e contrarrevolução na Alemanha repete o título da obra de Friedrich Engels (atribuída, aliás, a Karl Marx) sobre a revolução alemã de 1848. Ambas estudam as relações de classes da sociedade germânica em duas épocas decisivas de sua história.

O livro de Leon Trotsky continua o do mestre numa etapa mais alta do desenvolvimento histórico. As premissas então levantadas pelo colaborador de Marx são confirmadas agora na obra do companheiro de Vladimir I. Lênin, e têm aí o seu desenvolvimento final. As previsões apenas esboçadas pelo primeiro são completadas pelo segundo. Sobre as perspectivas que Friedrich Engels traçou, já realizadas pela evolução histórica, Leon Trotsky constrói novas que a marcha dos acontecimentos irá ou já vai pondo à prova.

Assim, na distância de quase um século, se patenteia a continuidade do processo histórico, atestando a fecundidade do método marxista e confirmando objetivamente as descobertas e as previsões geniais dos fundadores do socialismo científico.

Em 1848, a luta se travava entre a sociedade feudal e a sociedade burguesa em crescimento. Era a luta da burguesia em ascensão, sobretudo das suas classes médias, contra a nobreza, a burocracia e a coroa feudais. Hoje, a luta é entre o capitalismo agonizante, e o socialismo em gestão, e os lutadores de um e outro lado são o proletariado e a burguesia.

Então, a grande maioria da nação era constituída de pequenos industriais, lojistas, artesãos e camponeses. Hoje, a maioria absoluta é composta de operários industriais.

Em 1848, não existiam os grandes centros urbanos, e havia uma ausência completa de massas concentradas nas grandes cidades, e este fato impediu que as classes médias alcançassem a supremacia política, como a alcançaram as burguesias francesa e inglesa. A revolução burguesa ficou desde então retardada na Alemanha, e, quando surgiu a oportunidade de desenvolver-se, já foi em plena revolução proletária.

Em 1848, predominava no país a descentralização política, fracionado que era em cem principados rivais, provincianos, isolados, reacionários, entravando com os seus privilégios feudais não só o desenvolvimento político, como o próprio desenvolvimento econômico geral, cujos interesses já se tinham nacionalizado, vencendo o seu localismo primitivo.

Hoje, o proletariado, pela sua simples existência como classe organizada, choca-se com a legalidade burguesa, ameaçando constantemente o próprio regime capitalista.

Friedrich Engels constatava, naquela época, que “o movimento da classe operária nunca será independente, não possuirá nunca um caráter proletário, enquanto as diferentes frações da classe média, e sobretudo a sua parte mais progressista, os grandes manufatureiros, não conquistarem o poder político e refundirem o Estado segundo os seus interesses”.

Tinha então a massa da classe operária como empregador – não os grandes industriais modernos, mas o pequeno industrial, cujo sistema de exploração não passava de uma sobrevivência da Idade Média.

“O homem que os (operários) explorava, mesmo nas grandes cidades, era o pequeno patrão”. Mal começava então na Alemanha o modo de produção moderno, e a economia geral ainda se caracterizava pela ausência das grandes empresas industriais, pela falta de condições modernas de existência. Esse atraso econômico refletia-se na mentalidade do operário, que se distinguia pelo provincianismo e pelo artesanato.

“Todos os operários esperavam por sua vez, no fim de contas, tornarem-se um pequeno patrão. […] Esses proletários ainda não eram proletários no sentido pleno do termo, […] eram apenas um prolongamento da pequena burguesia nas vésperas de tornar-se o proletariado moderno, não se achavam em oposição direta com a burguesia, isto é, com o grande capital”.

Atualmente, esse processo de diferenciação entre a pequena burguesia e a classe operária chegou o seu termo completo – e é a pequena burguesia que, temendo ser absorvida no proletariado, procura defender desesperadamente o seu lugar ao sol, ameaçada de soçobrar definitivamente na proletarização.

Como a casta feudal em 1848, agora, acima de todas as classes da nação, pairam os novos barões da finança, a casta do capital financeiro.

Finalmente, assim punha Friedrich Engels o problema político do partido proletário na sua época: “As necessidades imediatas e as condições do movimento eram tais que não permitiam lançar nenhuma reivindicação especial do partido proletário. […] Com efeito, enquanto o terreno não estiver limpo para permitir uma ação independente dos operários, enquanto o sufrágio universal e direto não estiver estabelecido, enquanto os trinta e seis Estados continuarem a dividir a Alemanha em pedaços inúmeros, que podia fazer o partido proletário, senão… lutar ao lado dos pequenos comerciantes para adquirir os direitos que lhes permitissem mais tarde conduzir a sua própria luta?”.

Desorganizados, desabusados, os operários apenas despertavam para a luta política, sentindo unicamente o “simples instinto de sua posição social”.

De sua análise, Friedrich Engels concluía que seria preciso esperar que chegasse “primeiramente a vez da democracia dos pequenos burgueses, antes da classe operária e comunista poder esperar tomar o poder e abolir definitivamente esse sistema de salariado que a conserva sob o jugo da burguesia”.

Assim, quase um século depois, percebe-se hoje claramente que o que se está decidindo atualmente na Alemanha não é mais do que o mesmo processo histórico iniciado em 1848. O processo do desenvolvimento industrial pari passu com o desenvolvimento do proletariado e de sua consciência de classe, iniciado naquela época, encontra agora o seu epílogo. A pequena burguesia, então revolucionária, tinha fatalmente de ocupar o primeiro lugar na cena política, e era a condutora natural do proletariado na senda da revolução. O proletariado via-se obrigado a pegar em armas para defender interesses que não eram diretamente os seus.

A situação em nossos dias é outra. E o problema que se põe agora com toda a sua grandeza e acuidade é o problema da tomada do poder pelo proletariado. A pequena burguesia tornou-se para sempre incapaz de conduzir qualquer movimento independente. Os papéis se inverteram: agora, ou ela segue o proletariado para o futuro, ou toma a direita para a reação.

De democrática revolucionária que era, passa a reacionária, de jacobina transformar-se em fascista. O fascismo, segundo a definição de Leon Trotsky, não é mais do que a caricatura reacionária do jacobinismo, na época do capitalismo em decadência.

Enquanto, em 1848, a pequena burguesia fazia o proletariado lutar por ela contra a sociedade feudal, em 1933 vê-se mobilizada pelo capital financeiro, como um aríete contra a classe operária organizada: espera assim vencer a crise que corrói o regime e que a leva à miséria, sair da situação desesperada em que se encontra, procurando destruir os fatores de intensificação da implacável luta que enche toda a nossa época, travada entre a burguesia e o proletariado. Eis o fundamento do fascismo.

Decapitada a revolução proletária, em 1918, a república democrática weimariana que surgiu em consequência tem-se caracterizado pela impotência e esterilidade. Foi um aleijão saído das mãos senis dos burocratas e dos políticos corrompidos da social-democracia. Mas na dinâmica da luta de classe, no estado atual das condições históricas, já não há lugar para os artigos pedantes da constituição de Weimar. O resultado é esse que se tem visto: sob o peso dos acontecimentos, sob os entrechoques da luta de classes, esse aborto liberal tem vindo, ora mais ora menos disfarçadamente, numa marcha lenta, mas progressiva, revelando cada vez mais, sob a capa livresca e cor de rosa da constituição de Weimar, o seu caráter reacionário.

A sua evolução para a direita, depois da nova derrota do proletariado em 1923, e depois da agravação da crise que ora devasta o organismo econômico e social da Alemanha capitalista, tem-se acelerado. Por isso estamos vendo, contra as perspectivas dos doutores sabichões da social-democracia, a volta de todos os elementos retrógrados da monarquia prussiana. Os fantasmas reacionários do passado que parecia morto se levantam na arena política atual da Alemanha, como se nada tivesse acontecido desde a grande guerra. Recordemos aqui as palavras proféticas de Friedrich Engels em 1848, em face da falência revolucionária da pequena burguesia e das classes médias, na época da formação e do crescimento do proletariado: “O liberalismo político, o reino da burguesia sob a forma do governo monárquico ou republicano, tornou-se para sempre impossível na Alemanha”.

Leon Trotsky mostra claramente esse processo: “O mundo assombrado reverá a imagem do período passado, apenas sob a forma de convulsões ainda mais violentas. E, simultaneamente, ressurgirá o militarismo alemão. Como se os anos de 1914-1918 não tivessem existido! A burguesia alemã coloca, de novo, à frente da nação, os barões do leste do Elba.

É aqui o ponto culminante dessa marcha para a direita: Hindenburg, os velhos marechais e barões, os príncipes, o neobonapartismo – e como uma forma nova de reação –, enfim, o fascismo. As palavras geniais de Marx diante dos jurados de Colônia, ao cabo da revolução de 1848, se atualizam com uma força de evidência irresistível: “Depois de uma revolução, a contrarrevolução permanente torna-se para a coroa uma questão da existência cotidiana”.

Após as derrotas de 1918 e de 1923, é precisamente a isso que estamos assistindo – a instalação paulatina da contrarrevolução. O fascismo não é mais do que essa contrarrevolução permanente na sua expressão final e decisiva.

Fiel aos ensinamentos dos seus grandes mestres, e continuando-os dialeticamente, Leon Trotsky opõe ao processo da contrarrevolução permanente o da revolução permanente. Nessa oposição, não há lugar para os sonhos senis de democracia e de liberalismo dos velhos enxaquecados e dos lacaios e caixeiros de fraque da social-democracia; a questão se decidirá como Marx a pôs em 1849 – ou pelo “triunfo completo da contrarrevolução, ou então por uma nova revolução, vitoriosa”.

Eis a questão histórica decisiva da Alemanha atual. E esta questão toda se resume agora na conquista da maioria da classe operária para a bandeira revolucionária do comunismo. É esta a tarefa do Partido Comunista alemão, sua tarefa imediata e inadiável. Dentro do regime capitalista, não há saída para o povo alemão. Todas as condições existem para facilitar esta tarefa ao Partido Comunista. Basta que ele compreenda – assinala Trotsky – que “ainda hoje só representa a minoria do proletariado”, e ponha de lado a política do ultimatismo burocrático que o tem paralisado até agora. Os destinos da revolução alemã dependem apenas da conquista dos operários social-democratas. E só há um meio de realizar essa conquista, é pela política de frente única preconizada pela Oposição de Esquerda, de acordo com os ensinamentos de Lênin, e da qual este livro é um verdadeiro manual.

Debruçado febrilmente sobre os acontecimentos que se desenrolam na Alemanha, lá do seu exílio de Prinkipo, na vigilância incansável pelos destinos do heroico proletariado alemão, Leon Trotsky escreveu nessas páginas um tratado completo de estratégia e tática revolucionária marxistas, digno de emparelhar-se ao lado das grandes obras políticas clássicas de Marx e de Engels e que é uma verdadeira continuação das páginas imortais da Moléstia infantil do comunismo de Lênin, na época atual, nessa nova fase decisiva para a revolução proletária mundial, que se abriu com o estalar da crise de 1929.

A diferença é só que, neste caso, o mal é o oposto do infantilismo: senilidade burocrática. Mas, então como agora, a terapêutica é do mesmo modo acertada, e tem igual eficiência.

*Mario Pedrosa (1990-1981) foi ativista político, jornalista e crítico de artes plásticas. Foi um dos fundadores do PT. Autor, entre outros livros, de A opção imperialista (Civilização Brasileira).

Referência


Leon Trotsky. Revolução e contrarrevolução na Alemanha. Organização: Mario Pedrosa. Introdução e revisão técnica: Dainis Karepovs. São Paulo, Fundação Perseu Abramo\Editora Veneta, 2023, 484 págs.


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