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Imagem: Kelly
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Estratégias de desenvolvimento dos países emergentes com grande população

Há um grupo de cinco países com força de trabalho acima de 100 milhões pessoas em 2022: China (782 milhões), Índia (554 milhões), Estados Unidos (169 milhões), Indonésia (138 milhões) e Brasil (109 milhões). Esses números, grosso modo, correspondem a pouco mais da metade do total populacional e de 2/3 da população adulta.

A força de trabalho compreende pessoas com 15 anos ou mais capazes de fornecerem mão de obra para a produção de bens e serviços durante um período específico. Inclui pessoas atualmente empregadas e pessoas desempregadas, mas procurando trabalho, bem como pessoas em busca do primeiro emprego.

Nem todo o mundo trabalhador está incluído nessa força de trabalho. Os trabalhadores não remunerados, os trabalhadores familiares e os estudantes são omitidos. Alguns países não contam os membros das Forças Armadas. A dimensão da força de trabalho tende a variar, durante o ano, porque os trabalhadores sazonais entram e saem.

Esses países emergentes, exceto os Estados Unidos com capitalismo maduro, geralmente, adotam estratégias de desenvolvimento levando em conta suas grandes populações e a necessidade de gerar emprego e crescimento econômico sustentado. Esses países costumam utilizar uma combinação de políticas industriais, agrícolas, tecnológicas, educacionais e sociais para impulsionar o desenvolvimento.

Adotam a industrialização e a diversificação econômica como estratégias de desenvolvimento. Fazem investimento em setores industriais pesados (como siderurgia e automotivo) e leves (como têxteis e eletrônicos). Entre eles, há diferenças no fomento a setores de alta tecnologia e inovação, como Tecnologia da informação, biotecnologia e telecomunicações.

A depender dos recursos naturais, uns adotam a agricultura intensiva com a implantação de técnicas agrícolas modernas, incluindo mecanização, uso de fertilizantes e melhoramento genético das culturas. Somam incentivos para promoção de produtos agrícolas de exportação, contribuindo para a diversificação econômica.

Nem todos possuem o mesmo investimento em infraestrutura de transporte e energia com construção e modernização de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e infraestrutura energética para suportar o crescimento econômico. Da mesma forma há os atrasados em desenvolvimento de infraestrutura urbana para melhorar as condições de vida nas cidades, incluindo saneamento, transporte público e habitação.

Uma estratégia de desenvolvimento usual é o estabelecimento de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) para atrair Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) com incentivos fiscais e regulatórios. Requer a simplificação de processos burocráticos e a melhoria do ambiente de negócios para atrair capital estrangeiro.

O desenvolvimento de capital humano também é muito diferenciado com o gritante atraso brasileiro em educação e capacitação. Ainda não é suficiente seu investimento em educação básica, técnica e superior para criar uma força de trabalho qualificada. Necessita de programas de formação e requalificação profissional para atender às necessidades de diferentes setores econômicos

Evidentemente, há uma vantagem do capitalismo tardio “saltar etapas”, indo direto para a adoção da tecnologia de ponta de empresas transnacionais. Mas há a desvantagem do muito maior esforço necessário para educar com ensino superior de qualidade a maior parte de uma população adulta gigantesca. É condição necessária para a absorção de tecnologia, caso seja possibilitada pela exigência de sua transferência para exploração do grande mercado interno.

Em todos os países são necessárias políticas de inclusão social para a redução da pobreza. Mas os programas de combate à pobreza e de transferência de renda não devem criar a ilusão de também diminuírem a desigualdade social de maneira substantiva.

São prioritários os investimentos em saúde pública, segurança social e serviços básicos para melhorar a qualidade de vida ou o bem-estar social.

A estabilidade macroeconômica é obtida com uma gestão equilibrada por meio de políticas fiscais, monetárias, cambiais e de controle de capital para regular a demanda agregada, promover o crescimento da oferta agregada (capacidade produtiva) e controlar a inflação.

A manutenção de um ambiente político estável assegura a confiança dos investidores e a continuidade das políticas de desenvolvimento. A polarização ideológica com tentativas de golpe de Estado só afasta os investidores estrangeiros pelo risco dos contratos.

Entre as características geográficas comuns desses países estão suas grandes extensões territoriais, permitindo a exploração de recursos naturais variados e a diversidade climática e geográfica. Têm a disponibilidade de recursos naturais abundantes, como minerais, petróleo, gás natural e terras agrícolas férteis.

Quanto às características demográficas, a presença de uma população jovem e em crescimento proporciona uma força de trabalho abundante e potencialmente dinâmica. Mas todos sofrem a ameaça do envelhecimento populacional e até queda absoluta da população.

A alta taxa de urbanização com grandes centros urbanos atua como motor de crescimento econômico. Provoca, no entanto, problemas de poluição e congestionamentos de difíceis soluções.

Em geral, esses países com grandes populações possuem economias diversificadas com presença de todos os setores: primário, secundário e terciário. Seus grandes mercados internos suportam o crescimento da produção e do consumo.

Os desafios mais significativos se dão em termos de inclusão social e redução de desigualdades, com necessidade de políticas públicas focadas no problema, após a redução máxima da pobreza. Oportunidades crescentes de mobilidade social podem ser obtidas através de melhorias na educação e nas condições de vida.

Todos têm necessidade de sistemas de governança complexos para lidar com a diversidade regional e os problemas de administração de grandes populações. Agrava a dificuldade de combinar planejamento e livre-mercado com a crescente ênfase em políticas de desenvolvimento sustentável para equilibrar crescimento econômico com preservação ambiental.

Destacando desse grupo os Estados Unidos, um país de capitalismo maduro, os demais se distinguem da seguinte maneira.

A China priorizou a industrialização massiva, o investimento pesado em infraestrutura, a promoção de inovação tecnológica e as políticas de redução da pobreza. Tem uma extensa rede de Zonas Econômicas Especiais e um mercado interno vasto.

A Índia colocou foco na modernização agrícola, desenvolvimento industrial, investimentos em infraestrutura e um crescente setor de tecnologia da informação. Políticas de inclusão social e programas de transferência de renda também se destacaram.

A Indonésia ainda busca o desenvolvimento de infraestrutura, diversificação econômica, promoção de investimentos estrangeiros e programas de inclusão social para reduzir a pobreza e melhorar a educação.

O Brasil, embora enfrentando problemas econômicos, devido à polarização e instabilidade política, investe em infraestrutura, modernização agrícola, industrialização em algumas áreas carentes e dependentes de tecnologia estrangeira, como a indústria farmacêutica. As políticas sociais para melhorar a qualidade de vida dos mais pobres receberam prioridade na Era social-desenvolvimentista (2003-2014). Estão sendo retomadas.

Os países com uma força de trabalho acima de 100 milhões de pessoas adotam estratégias de desenvolvimento por meio de industrialização, modernização da agricultura, investimentos em infraestrutura, atração de investimentos estrangeiros, desenvolvimento de capital humano e políticas de inclusão social.

Esses países compartilham características geográficas, demográficas, econômicas, sociais e políticas influentes em suas abordagens de desenvolvimento, aproveitando suas grandes populações, recursos naturais abundantes e mercados internos extensos para impulsionar o crescimento econômico sustentável e melhorar a qualidade de vida de suas populações.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/3r9xVNh]


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