Sean Bonney

Sean Bonney
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Por GUILHERME E. MEYER*

A poesia de Sean Bonney era um grito material contra o capitalismo: uma fúria vital que transformava o verso em arma e a existência em testamento coletivo, recusando qualquer conciliação com o mundo que o corroía

1.

Conheci o poeta Sean Bonney quando eu fazia o mestrado em Estudos norte-americanos no John F. Kennedy Institute da Freie Universität Berlin, na Alemanha, entre 2015 e 2017. Sean era um dos pós-doutorandos do instituto, trabalhando em um livro que não foi concluído sobre a poeta anarquista Diane di Prima, cuja obra Revolutionary Letters (1971) era uma tremenda influência na sua poesia. Diane di Prima foi uma das tantas poetas que descobri por meio dele.

Fui seu aluno em dois cursos: o primeiro sobre poesia anticapitalista contemporânea, em que lemos autores como Juliana Spahr e Anne Boyer; o segundo dedicado ao poeta Amiri Baraka, ligado ao movimento Black Power dos anos 1960 e 1970, sobre quem Sean Bonney tinha escrito sua tese de doutorado na Sorbonne Université, em Paris.

As aulas muitas vezes aconteciam fora do prédio do instituto, em um gramado do outro lado da rua, tanto para sairmos da rigidez da sala de aula quanto para ele e outros fumarem livremente. Fascinado por suas aulas, convidei Sean Bonney para ser meu orientador na dissertação de mestrado que escrevi sobre a poesia de Paul Laurence Dunbar e Ntozake Shange.

Durante aqueles anos, Sean Bonney escreveu dois livros de poesia: Cancer: Poems After Katerina Gogou (2016), uma recriação de poemas da autora anarquista, no estilo de suas obras anteriores Baudelaire in English: Poetics of Terror (2011) e Happiness: Poems After Rimbaud (2011); e o que viria a ser o seu último livro, Our Death (2019), escrito em reação ao ressurgimento do fascismo pelo mundo, em especial à primeira eleição de Donald Trump em 2016. Como escreveu na última frase de um dos poemas, “George Trakl’s Psalm”, “In America a very boring lunatic opens his eyes” [Na América um lunático muito entediante abre seus olhos].

No dia 26 de janeiro de 2017, tive o privilégio de estar presente em uma leitura de alguns poemas de Our Death enquanto o livro ainda estava em andamento. A urgência e a fúria com que Sean leu os poemas naquela noite são inesquecíveis. Essa é uma das coisas que mais me marcou na breve convivência com ele: a paixão enfurecida com que recitava Amiri Baraka, Diane di Prima ou seus próprios poemas, como se a sua vida e a vida dos outros dependesse dessas palavras. E depende.

2.

Em 2019, quando já fazia o doutorado em Literatura inglesa e americana na New York University, recebi a notícia de que Sean Bonney tinha sido encontrado morto em Berlim depois de ter sumido por alguns dias. Pouco se sabe sobre a sua morte. Sei que convivia com epilepsia. Sei, pelo contato pessoal e seus poemas da época, que fazia uso de álcool, maconha, anfetaminas e outras substâncias. E sei que o estado do mundo o corroía.

Em nota publicada nas redes sociais, a irmã de Sean Bonney declarou que a sua morte foi “um terrível acidente”. Em meio a um dos poemas de Our Death, “From Deep Darkness”, Sean escreveu seu testamento, que começa assim:

“Here goes. My coffee cups and typewriter I leave to, I dunno, whoever can scream the loudest. My collection of empty beer bottles I leave to my landlord. My library I leave to the homeless of Kottbusser Tor. My credit card likewise. My sexual uncertainty I keep to myself. My love I leave to the suicided”.

[Aqui vai. Meus copos de café e máquina de escrever deixo para, sei lá, quem conseguir gritar mais alto. Minha coleção de garrafas de cerveja vazias deixo para o dono do prédio. Minha biblioteca deixo para os moradores de rua de Kottbusser Tor. Meu cartão de crédito também. Minha incerteza sexual guardo para mim. Meu amor deixo para os suicidas].

Em 2025, no último ano de doutorado, recebi um e-mail de um estudante do departamento. Era um convite para participar de uma leitura coletiva de Our Death em homenagem a Sean Bonney. Um grupo de estudantes havia lido a obra em um curso sobre poesia contemporânea da professora e poeta Maureen McLane e ficado comovido com seus poemas sobre “amor, morte e sociabilidade sob o sol sempre ardente do capitalismo tardio”, conforme descreveram no e-mail. Além disso, a ideia era “testar um modo de leitura adequado à poética [comunista] de Sean Bonney: coletiva, social, aspiracional”.

No dia 17 de abril, dezenas de pessoas se reuniram no bar KGB no bairro East Village para a leitura, intitulada “Our Ghosts Are Going Nowhere”, frase do poema “Vitriol” de Our Death. Fui encarregado do terceiro dos 35 poemas do livro, “A Note on my Recent Poetics”. Na escuridão do bar, um a um os leitores se encaminhavam ao microfone e recitavam o seu poema, visivelmente comovidos. Na minha vez, senti vontade de gritar e chorar ao mesmo tempo.

Ocorrida poucos meses depois da reeleição de Donald Trump, a leitura foi permeada pela mesma combinação de desespero e revolta que permeia Our Death, pelo pessimismo revolucionário característico de figuras como o pensador marxista Walter Benjamin, por quem Sean tinha muito carinho. Estar com uma centena de outras pessoas naquele bar naquele momento, recitando os poemas de Sean na escuridão, compartilhando o seu, o nosso ódio do capitalismo e do fascismo, foi uma das experiências mais lindas da minha vida – uma afirmação coletiva de que agora mais do que nunca o fantasma de Sean não vai a lugar algum.

A note on my recent poetics

I stopped smoking pot a few months ago because it was making me paranoid, but since then most days I’ve been taking potentially fatal doses of amphetamine. It’s almost certainly making me psychotic, but it does at least have the advantage of saving me from the vast cataclysm that sleep has become. Most mornings I feel uneasy, visible and invisible at the same time, trapped between the proverbial two worlds, neither of which I’m prepared to accept or even tolerate. I can’t tell them apart anyway – everything’s functioning at some kind of stroboscopic level, where the invisible world is populated by a gaggle of flesh and blood insomniacs staggering around after a shipwreck, and the visible one by a weird star-map, a network of knots and tumours that up until now have been locked somewhere in the centre of the earth, a hell of alphabets and spectral injustices arranged in pieces along the chronology. Let’s see. There was the poll tax revolt. There were punk houses. There was ecstasy and acid and free parties. The criminal justice bill. Britpop. The rise of the ironic wank. The phrase zero tolerance. The boredom of enforced hedonism. The skeleton of Tony Blair. The flames of humanitarian intervention. The inevitability of jihad. And that’s just one more or less arbitrary little cluster, a hall of various mirrors that every morning I chop and snort increasingly gargantuan lines from until, in the words of Ernst Bloch, “years become minutes, as in legends where, in the apparent time span of a single night, a witch cheats her victim out of a long life”. And I don’t know whether I identify with that witch or not, but I do know that there are some mornings when I consider the possibility of powdering Blair’s bones, and then casting them at the feet of various monuments – say for example the statues that encircle Trafalgar Square – so as to transform them into real demons. The crisis, or whatever it is we’re supposed to call it. The ruins of the Ritz, for example. The broken glass of Millbank. The jail terms of the rioters. Ah shit. See you later. Everybody knows that Thatcher faked her death.

Uma nota sobre minha poética recente

“Parei de fumar maconha há alguns meses porque estava me deixando paranoico, mas desde então, quase todos os dias tenho tomado doses potencialmente fatais de anfetamina. Isso quase certamente está me deixando psicótico, mas pelo menos tem a vantagem de me salvar do vasto cataclisma que dormir se tornou. Em muitas manhãs me sinto desconfortável, visível e invisível ao mesmo tempo, preso entre os ditos dois mundos, em nenhum deles estou preparado pra aceitar ou mesmo tolerar. De qualquer forma, não posso separá-los – tudo está funcionando em uma espécie de nível estroboscópico, no qual o mundo invisível está povoado por um bando de insones de carne e sangue cambaleando por aí depois do naufrágio, e o mundo visível por um estranho mapa astral, uma rede de nós e tumores que até agora esteve trancada em algum lugar no centro da terra, um inferno de alfabetos e injustiças espectrais organizados em pedaços ao longo da cronologia. Vejamos. Houve a revolta fiscal. Havia as casas punk. Havia ecstasy e ácido e festas abertas. A lei de justiça criminal. Britpop. A ascensão da babaquice irônica. A expressão tolerância zero. O tédio do hedonismo forçado. O esqueleto de Tony Blair. As chamas da intervenção humanitária. A inevitabilidade da jihad. E isso é só outro amontoado meio arbitrário, um corredor de vários espelhos nos quais toda manhã eu bato e cheiro carreiras cada vez mais colossais até que, nas palavras de Ernst Bloch, “anos se tornam minutos, como nas lendas em que, no período aparente de uma noite, uma bruxa se apodera da longa vida de sua vítima”. E não sei se me identifico com essa bruxa ou não, mas sei que há algumas manhãs em que considero a possibilidade de moer os ossos de Blair, e então lançá-los aos pés dos vários monumentos – falo por exemplo das estátuas que contornam a Trafalgar Square – pra transformá-los em demônios reais. A crise, ou como quer a gente deva chamar isso. As ruínas do Ritz, por exemplo. O vidro quebrado da região de Millbank. Os termos de prisão dos rebeldes. Que merda. Até breve. Todo mundo sabe que Thatcher forjou sua morte”. (Tradução de Beatriz Bastos & Otávio Campos).

*Guilherme E. Meyer é doutor em literatura inglesa e americana pela New York University e professor de literatura no Institute for Social Ecology.

Referências


PDF de Our Death, disponibilizado pela Commune Editions

Tradução de poemas de Sean Bonneypor Beatriz Bastos & Otávio Campos

Gravação de Sean Bonney lendo poemas do manuscrito de Our Deathem Berlim em 2018

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