Sionismo – estágio final

Imagem: Marcelo S. da Silva
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Por FRÉDÉRIC LORDON*

O genocídio não é uma reviravolta infeliz, muito menos o ato de um líder monstruoso que precisa apenas ser removido. Pois a verdade é que uma proporção assustadora da sociedade israelense literalmente enlouqueceu

1.

O primeiro diz: “O sionismo jamais teria triunfado sem o Holocausto”. O segundo acrescenta: “Benjamin Netanyahu mais ou menos deixou que isso acontecesse para retomar Gaza”. Quem são essas pessoas? Onde estão falando? Quanto tempo levará para serem denunciadas pela mídia, intimadas pela polícia e presas?

A resposta: são os líderes do centro político francês, o ex-eurodeputado Daniel Cohn-Bendit e o ex-ministro da Educação Luc Ferry, que aparecem ao vivo no canal de notícias a cabo LCI. Quanto à sua condenação pública e visita à delegacia, ainda estamos esperando. Tal é a escala da mudança tectônica.

A reviravolta surpreendente que se desenrola diante de nossos olhos, e o branqueamento coletivo que a acompanha, ficarão registrados como um caso clássico nos anais da propaganda. Uma reviravolta que emana do setor mais hipócrita do bloco propagandista – os “humanistas”: Delphine Horvilleur, a primeira rabina da França, Joann Sfar, uma conhecida cartunista, e Anne Sinclair, a ex-âncora de TV.

Celebrados por sua integridade moral, os três se sentiram perfeitamente confortáveis com dezoito meses de massacre em massa, difamando sistematicamente aqueles que enxergavam as coisas com clareza desde o início e assumiam todos os riscos – simbólicos, legais e até físicos – para denunciar o genocídio e a obscena confusão entre apoio à Palestina e antissemitismo.

Então, assim que esses modelos de virtude deram o sinal, a massa de negacionistas moveu-se em uníssono, fingindo abrir os olhos – ou melhor ainda, alegando que eles nunca os haviam fechado.

Por que nossos “humanistas” finalmente mudaram de ideia? Não por qualquer estímulo de consciência universal, mas sim para proteger um conjunto de interesses, a começar pelos seus próprios, simbólicos e reputacionais, ameaçados pela cumplicidade com um crime que quebrou todos os tabus; seguidos por aqueles do próprio projeto sionista, cujas credenciais políticas e morais naufragaram e, ainda assim, precisam ser mantidas à tona – daí a necessidade de apresentar sua face “humanista”.

Eis o cerne da questão: o sionismo, o axioma que deve ser preservado a todo custo, seja silenciando a dissidência ou fingindo contrição. Este é o ponto nevrálgico onde a repressão persiste, mesmo em meio à grande reviravolta.

Os Socialistas e os Verdes, no campo colonial desde o primeiro dia, negacionistas de setenta e sete anos de ocupação, censores de todas as vozes levantadas em defesa da causa palestina, mudos diante dos massacrados até que a permissão para falar fosse concedida – esses mesmos Socialistas e Verdes, há apenas um mês, aprovaram a infame lei de censura universitária, afirmando a equivalência entre antissionismo e antissemitismo, e criminalizando o primeiro em nome do segundo.

Ainda mais perverso, num momento em que o conceito de sionismo é a única coisa que impede a atribuição generalizada de um crime a todos os judeus, incluindo aqueles que o rejeitam completamente. O antissionismo, longe de ser equivalente ao antissemitismo, é um baluarte contra ele.

Nesses setores, o pânico europeu está compreensivelmente em ebulição. Com que direito os perpetradores do judeocídio presumem julgar o Estado de Israel? Uma culpa histórica avassaladora, agravada por uma conturbada conversão filosófica, logicamente emitida com carta branca – e a mensagem foi recebida.

Mas a verdade é esta: não haverá acordo nem na região nem, pelo clássico efeito bumerangue, em casa, até que rompamos com os eufemismos miseráveis dos “humanistas” e retornemos à política: isto é, a questionar o indiscutível.

2.

Devemos começar por entender o que queremos dizer com as palavras que usamos. As múltiplas definições históricas e doutrinárias de sionismo e antissionismo são bem conhecidas. Mas também podemos adotar uma visão conceitual.

Por exemplo, ao dizer isto: por sionismo, queremos dizer a posição política de que estabelecer o Estado de Israel em terras já colonizadas, expulsando seus habitantes, não representa, em princípio, nenhum problema. O antissionismo, portanto, é a posição política que vê o estabelecimento do Estado de Israel na Palestina como um problema de princípio.

Além da simplicidade, essa definição tem a vantagem de ser aberta – ou seja, apresenta um problema sem pressupor a solução. É por isso que somente uma mentira grosseira poderia transformar o antissionismo em um projeto para “empurrar os judeus de Israel para o mar”.

Na realidade, por mais indiscutível que parecesse após o Holocausto, a promessa sionista de dar aos judeus não apenas um Estado, mas – como diz a expressão – “um Estado onde pudessem viver em segurança” era espúria desde o início, na verdade, uma contradição em termos. Somente uma terra nullius poderia ter feito o contrário.

Enquanto a terra tivesse habitantes anteriores, o Estado de Israel que surgiu não poderia conhecer a segurança: não se pode desapropriar pessoas sem que elas lutem para recuperar o que lhes pertence. Assim, a falência do “Ocidente” europeu foi agravada, e o assassinato em massa industrial dos judeus foi “reparado”, por meio de um arranjo político impossível: Israel. Shlomo Sand oferece o resumo brutal: “A Europa nos vomitou, os judeus, sobre os árabes da Palestina”.

É aqui que estamos, setenta e sete anos depois. O genocídio não é uma reviravolta infeliz, muito menos o ato de um líder monstruoso que precisa apenas ser removido. Pois a verdade é que uma proporção assustadora da sociedade israelense literalmente enlouqueceu. Outro título possível para este artigo poderia ter sido “Ao Ar Livre”.

Desde 2005, Gaza tem sido uma prisão a céu aberto; hoje é um campo de concentração a céu aberto, enquanto setores da sociedade israelense (e da diáspora) se assemelham a uma ala psiquiátrica a céu aberto. O psicólogo israelense Yoel Elizur, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, coletou depoimentos de soldados destacados em Gaza.

Um deles disse: “a partir do momento em que você sai do lugar chamado Israel e entra na Faixa de Gaza, você é Deus”. Outro: “Eu me senti como, tipo, como um nazista… parecia exatamente como se nós fôssemos, na verdade, os nazistas e eles, os judeus”.

Que vertigem nos apodera diante de tamanha catástrofe total – psíquica, política, histórica? O que aprenderemos sobre as abominações sádicas cometidas no campo de tortura de Sde Teiman, quando os fatos finalmente vierem à tona? O que dizer da depravação de atrair os famintos a um ponto de distribuição de alimentos apenas para bombardeá-los com artilharia?

As mídias sociais estão inundadas de vídeos de soldados documentando seu gozo assassino e civis israelenses exultando com o espetáculo, muitos exigindo, ao mesmo tempo, que não nos esqueçamos de que as crianças palestinas também serão massacradas. Alguns podem objetar que essas torrentes de imundície, por mais abundantes que sejam, não são um índice da sociedade como um todo.

Certamente, existem os outros: soldados em devastação moral, reservistas que se recusam a “retornar”, oponentes de longa data de um consenso colonial que se tornou um consenso a favor da aniquilação. Eyal Sivan nos lembra de seus números: insignificantes. Uma pesquisa publicada no jornal Haaretz revelou que 82% dos israelenses apoiam a expulsão completa dos palestinos de Gaza e 65% subscrevem o mito de Amalek e o mandamento divino de exterminá-los. O cerne desta sociedade está mergulhado na loucura.

3.

Chega inevitavelmente um momento em que os projetos políticos de dominação revelam sua verdadeira natureza. Aqui, então, as características fundamentais do sionismo são expostas em plena luz: ele é colonial, racista – isso já estava claro – e, quando necessário, genocida.

É isso que passamos a entender. E isso, afinal, é lógico: não existe sionismo com rosto humano, assim como não pode haver um Estado judeu seguro em terras tomadas à força. Nesse ponto, a alternativa histórica se apresenta. Ou a sociedade israelense persiste em seu impulso de extermínio, preparando o terreno para sua perdição moral e, eventualmente, sua queda.

Ou reconhece que, desde o momento em que cometeu a Nakba, estava preparando sua própria catástrofe e, ao fazê-lo, percebe o único futuro viável para uma presença judaica na Palestina: um Estado binacional e igualitário. Como frequentemente acontece, o aparentemente utópico é o único realismo genuíno.

Há sete milhões de judeus em Israel; eles não vão a lugar nenhum, nenhuma posição antissionista séria os está pedindo. A reivindicação antisionista é desarmante e biblicamente simples: igualdade. Igualdade para todos os habitantes, igualdade em dignidade e direitos, igualdade no direito de retorno para refugiados, igualdade em tudo.

É fácil compreender a ansiedade que tal perspectiva poderia despertar em muitos israelenses ou judeus na diáspora. Ainda mais considerando que, após o Holocausto, a ansiedade estava fadada a se tornar a condição afetiva dominante da identidade judaica – o que explica os espasmos de violência e a desorientação sem sentido sempre que a solução paliativa chamada “Israel” é questionada.

“É anormal, desumano que o mundo inteiro seja antissemita”, declara Elie Chouraqui, um diretor de cinema medíocre que virou comentarista – completamente desequilibrado – para um Luc Ferry perplexo. Mas nenhuma intensidade emocional pode alterar a realidade objetiva da situação: terras foram tomadas de seus ocupantes. Não há nada, nem mesmo o Holocausto, que possa apagar, e muito menos justificar, esse fato. A alternativa é clara. A não ser uma fuga assassina, o crime original do Estado de Israel não admite outra solução além da igualdade.

*Frédéric Lordon é economista e filósofo, diretor de pesquisa do CNRS no Centre européen de sociologie et de science politique de Paris. É autor, entre outros livros, de Sociedade dos afetos: por um estruturalismo das paixões (Papirus).

Tradução: Sean Purdy.

Publicado originalmente publicado no blog Sidebar da New Left Review.


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