Sobre a emissão de dinheiro

Gabriela Pinilla, Fragmento de Em pie de luta, Pintura Mural de 7 X 11 metros. 2018, Museo del INBA, Ciudad Juárez, México
image_pdf

Por LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA*

O governo é mais ortodoxo que o FMI e os banqueiros centrais

Não há ciência mais ideológica do que a economia. O que não é surpreendente porque ela lida com a repartição da renda, e os interesses envolvidos são muito grandes. Isto explica por que os economistas liberais são tão conservadores. Eles representam os interesses dos capitalistas. Ora os capitalistas, hoje, são fundamentalmente rentistas. Vivem de juros, aluguéis de dividendos; não são capitalistas empresários, que vivem dos seus lucros e do seu reinvestimento.

Nessa ciência ideológica é curioso como as palavras mudam de sentido ou ganham novos sentidos. Vejam, por exemplo, a questão da emissão de dinheiro.

Os economistas liberais, chamados então monetaristas, eram mortalmente contra a emissão de moeda que, afirmavam ser a causa da inflação. Não era. O aumento da quantidade de moeda apenas sanciona uma inflação que já ocorreu.

O que pode ser causa de inflação é o aumento das despesas públicas quando uma economia está chegando perto do pleno emprego. Porque poderá, então, haver excesso de demanda em relação à oferta.

Desde que as maciças emissões de moeda realizadas pelos bancos centrais após a grande crise de 2008 visando baixar a taxa de juros, ficou provado por A mais B, que elas não causam inflação. Os juros foram para zero e a inflação ficou muito baixa.

Assim, quando se tornou necessário defender as economias das consequências do Covid-19, os economistas dos bancos centrais, que são muito mais realistas que os professores de economia liberais, passaram a emitir mais moeda ainda. Estão certíssimos.

Eles emitem moeda comprando títulos novos do Estado; o dinheiro assim criado é usado para financiar as políticas de auxílio aos pobres, aos desempregados, e às empresas, e para financiar investimentos públicos que estimulem a economia.

Mas, para tornar mais aceitável sua política perante uma sociedade que ainda acredita que emissão de moeda causa inflação, os banqueiros centrais passaram a chamar a emissão de moeda de “compra de bônus”. Um bom nome.

Agora, por exemplo, leio no Valor que a presidente do Banco Central Europeu, acaba de afirmar que ainda é muito cedo para descartar a compra de bônus. Ou seja, não está na hora de parar de emitir moeda.

Enquanto isso nós, no Brasil temos um ministro da Economia que continua a limitar o necessário aumento do auxílio emergencial e não realiza os investimentos públicos também necessários para o país retomar o crescimento.

A desculpa é que deficit público causa inflação, mas já está mais do que provado que isso não é verdade. Só causa inflação quando essa emissão de moeda que financia esses gastos que levam ao excesso de demanda facilita o aumento das margens e dos preços.

Ora, este não é o caso enquanto a pandemia estiver limitando a demanda, principalmente por serviços, e mantendo elevado o desemprego.

Realmente, não é possível termos um governo também na área econômica tão incapaz como esse que está aí. Um governo que é mais ortodoxo que o FMI e os banqueiros centrais.

*Luiz Carlos Bresser-Pereira é Professor Emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Autor, entre outros livros, de Em busca do desenvolvimento perdido: um projeto novo-desenvolvimentista para o Brasil (FGV)

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES