Solitária

Edward Hopper, Automat (1927)
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Por MICHAEL LEONEL*

Comentário sobre o livro de Eliana Alves Cruz

1.

Em Solitária, de Eliana Alves Cruz, o livro se desenrola na relação entre uma mãe empregada doméstica, Eunice, sua filha, Mabel, os empregadores, Lúcia e Tiago, e o círculo de parentes e serviçais do prédio Golden Plate. O presente texto propõe analisar o quarto de empregada como dispositivo de reprodução da divisão racial do espaço, evidenciando como a segregação arquitetônica atua na manutenção de desigualdades raciais e de classe no Brasil contemporâneo.

Este campo de relações é muito bem conhecido no país, no qual o apego à presença de serviçais domésticos perpassa séculos figurando em muitos aspectos desde o tempo do escravagismo, haja vista a imagem das mulheres negras como domésticas representarem a maior porcentagem desta classe de empregados antes na figura das mucamas e amas de leite e hoje nas empregadas domésticas e babás, sendo esse ofício transmitido quase como herança em razão da falta de possibilidade de ascensão social.

A presença da empregada doméstica é pautada pela ideia de invisibilidade, vigilância e submissão de modo violento e simbólico, haja vista que o espaço arquitetônico de prédios como o Golden Plate busca que os serviçais estejam sempre afastados, escondidos, como exemplo de elevadores de serviços, portaria de serviço, banheiros e quartos de empregada, muitas vezes deslocadas ao lado da área de serviço, sendo o trabalho realizado a única forma de aparecer.

No livro de Eliana Alves Cruz, a existência da compartimentação espacial é bem retratado, pois Eunice passa boa parte da sua semana morando na cobertura dos empregadores e quando a sua filha Mabel não pode ficar com a avó devido a sua saúde precária, a pequena acaba ocupando o espaço do quarto da empregada para que fique na solitária e afastada por um muro sociológico com a vida dos empregadores.

Conforme descreve a personagem Mabel quando teve o primeiro contato com este cômodo do apartamento: “Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas… descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo” (Cruz, 2022, p. 18).

2.

Este ambiente reflete a forma como são tratadas as trabalhadoras domésticas marcadas pela funcionalização para estar próxima para servir e a exclusão da socialização com os familiares dos empregadores com intuito de não pertencimento concluindo que estes espaços representam uma verdadeira “divisão racial do espaço”.

Como bem define De Lima, Campos e Santos sobre a criação e fundamentação deste ambiente em apartamentos de famílias abastadas desde o início do século XX “(…) está relacionado às políticas eugênicas e higienistas, deste período, que pregavam a inferiorização da raça negra em relação à branca e a higiene como atributo de povos brancos evoluídos”.[1]

O “quartinho”, portanto, não constitui mero detalhe arquitetônico, mas um dispositivo social que materializa hierarquias históricas no interior da vida privada. Ele organiza corpos, delimita presenças e institui fronteiras invisíveis que reproduzem, no plano doméstico, a lógica colonial da separação entre aqueles que pertencem e aqueles que servem.

Ao perpetuar estes espaços nota-se a continuidade de aspectos coloniais que classificava e estratificava as pessoas em função do tom de pele aos quais pertenciam. Logo a “mãe preta do período escravocrata equivale à babá dos dias atuais, assim como a mucama daquela época corresponde às trabalhadoras domésticas de hoje”.[2]

Esta forma de continuação de presença das mulheres negras em funções com baixa remuneração e escolaridade se explica pela atuação de múltiplas camadas de opressão. Esse fenômeno que é conhecido por interseccionalidade de opressões ocorre quando existe a sobreposição estrutural de opressões de raça, gênero e classe, como bem traduzido nas obras de Kimberlé Crenshaw[3] e Carla Akotirene.[4]

Então, quando se trata de analisar o compartimentação espacial, a obrigação de utilização de banheiro de serviço e talheres próprios, conforme diversos relatos no livro Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada, de Preta Rara[5] conceito de violência simbólica, proposto por Pierre Bourdieu,[6] apresenta-se como mecanismo de atuação haja vista que esses símbolos atuam de modo invisível e não coercitivo e socialmente aceitos pelo grupo dominante mas que exercem controle e domínio sobre os dominados.

Concluindo, a análise do quarto de empregada em Solitária, de Eliana Alves Cruz, evidencia que a segregação doméstica não constitui mero detalhe arquitetônico ou resquício de um passado superado, mas sim uma engrenagem ativa na reprodução contemporânea das hierarquias raciais e de classe no Brasil. O espaço não é neutro: ele organiza corpos, delimita presenças e estabelece fronteiras simbólicas que definem quem pertence e quem apenas serve.

Nesse sentido, a antiga divisão entre casa-grande e senzala ressurge no interior dos apartamentos sob a forma de área social e área de serviço. O quartinho da empregada não é apenas um cômodo secundário: ele se consolida como instituição silenciosa de reprodução da desigualdade estrutural brasileira.

*Michael Leonel, advogado, é mestrando em Bioética na PUC-PR.

Referência


Eliana Alves Cruz. Solitária. São Paulo, Companhia das Letras, 2022, 168 págs. [https://amzn.to/4dAPyeI]

Notas


[1] DE LIMA, Jéssica Caroline Rodrigues; CAMPOS, Rafael Alves de; SANTOS, Rodrigo Gonçalves dos. Arquitetura da Desigualdade: o quarto de empregada como comunicador de uma ordem social estratificada. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), v. 14, n. 41, p. 333–360, 2022.

[2] DOS SANTOS ANDRADE, M. Desigualdades Entrelaçadas: a interseccionalidade entre raça e gênero na luta da mulher negra. Revista de Ciências Sociais Aplicadas, v. 6, n. 1, p. 4–6, 2025. DOI: 10.59370/rcsa.v6i1.275. Disponível em: https://ojs.uniceplac.edu.br/index.php/reciso/article/view/275

[3] CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Color. Stanford Law Review, Stanford, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, jul. 1991.

[4] AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

[5] RARA, Preta. Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada. Belo Horizonte: Letramento, 2019.

[6] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012

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