Tem um governador no meio do caminho da USP

Gustav Metzger, Pintura em papelão, c.1961–2
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Por EUGÊNIO BUCCI*

A lista tríplice da USP segue para as mãos de um Executivo que desdenha da democracia e da cultura. O risco iminente é que a violência simbólica de sua gestão invada o território do pensamento livre e crítico

1.

Neste segundo semestre, a Universidade de São Paulo (USP) vai escolher quem ficará à frente da reitoria pelos próximos quatro anos. É a “eleição reitoral”, como se diz no jargão acadêmico. Estamos falando da designação do dirigente da maior e mais ativa universidade do Brasil, frequentemente apontada nos rankings internacionais como uma das cem melhores do mundo.

A decisão começará dentro da USP, mas será resolvida fora da USP. O que a comunidade universitária fará, por meio de seus órgãos colegiados e de consultas internas, é uma votação. Em seguida, os três nomes mais sufragados comporão a lista tríplice, e esta seguirá para o Palácio dos Bandeirantes, onde o governador do Estado exercerá seu poder – legítimo e legal – de definir quem assumirá o posto. A última palavra, portanto, virá do chefe do Poder Executivo paulista.

Esse rito decisório tem razão de ser e tem funcionado a contento. Claro que há momentos melhores e momentos piores. Quando quem governa o estado tem um entendimento maduro do que significa a autonomia universitária, compreende a natureza da pesquisa, sabe distinguir a ciência da filosofia e tem compromisso com a paz, com os direitos humanos e com a normalidade democrática, as coisas tendem a ir bem. Quando não é assim, fica mais difícil. A questão é saber como vai ser desta vez.

O governador do estado, como temos visto, prefere a força ao saber. Sua política policial se baseia na violência. A viatura escura passa em alta velocidade, dando pinotes sobre rodas, ziguezagueando na pista, e a gente começa a cantarolar “chame o ladrão, chame o ladrão” (abraço, Chico Buarque). Os episódios de abuso da farda contra pessoas indefesas produziram um saldo de pilhas de cadáveres, e o Palácio não muda sequer o titular da Secretaria de Segurança. Para completar, o chefe do Executivo insiste nas tais “escolas cívico-militares”: quer que a caserna dê aulas para a cidadania, quando o país precisa do oposto.

Quando o assunto é cultura, o descaso impera. O Bandeirantes submete a TV Cultura a uma seca de recursos sem precedentes. Sempre que pode, desprestigia as artes, a diversidade de opiniões, a boa informação jornalística e o pensamento crítico. É verdade que, até agora, não tivemos um ataque frontal contra a USP, mas, considerado o entorno, as perspectivas não inspiram o otimismo.

2.

Tudo ia mal até que, esta semana, o quadro piorou. O titular do Executivo paulista começou a bombardear o processo do STF em que um certo (ou errado) capitão reformado e outros réus são julgados pela tentativa de golpe de Estado. “Infelizmente, hoje eu não posso falar que confio na Justiça”, ele declarou, conforme registrado no editorial do jornal O Estado de S. Paulo. A afronta ao Supremo não poderia ser mais descabida, como anotou o mesmo editorial: “É altamente problemático que a principal autoridade do Executivo paulista, com pretensões de presidir a República, expresse desconfiança sobre o Poder Judiciário”.

Mas a “principal autoridade do Executivo paulista” fez mais. Primeiro, defendeu o indulto ao ex-capitão. Disse que deveria ser o “primeiro ato” de um futuro presidente da República. Depois, desembarcou em Brasília com a missão de aglutinar apoio parlamentar para uma anistia aos acusados de tentar derrubar o regime democrático. Em tempo: ele cumpriu a missão.

Posturas como essas, de viés autocrático, turvam a condição de quem deve participar de uma decisão tão séria sobre o USP, que só faz defender a democracia. “Aqueles que rejeitam e agridem a democracia não protegem o saber, a ciência, o pensamento e não amam a universidade”, discursou o professor Carlos Gilberto Carlotti Jr no dia 11 de agosto de 2022, na Faculdade de Direito da USP, no ato em defesa da lisura do processo eleitoral.

A USP rejeita a ditadura, a tortura e a censura. Tanto que, em um gesto inédito de reparação, concedeu diplomas honoríficos às famílias de 32 estudantes que desapareceram nas masmorras do regime autoritário instaurado pelo golpe de 1964. Seguindo os mesmos princípios, o Conselho Universitário concedeu ao ministro do STF Alexandre de Moraes, também professor da USP, a medalha Armando de Salles Oliveira, a mais alta honraria da Universidade.

Agora, retornemos às declarações e aos atos do governador. O que ele pretende? Convulsionar a sociedade? Convocar uma motociata contra o Judiciário? Por onde andará sua cabeça, que já se refestelou à sombra de um boné vermelho, estampado com o acrônimo “Maga”? Seu discernimento terá derivado?

Ao chefe do Executivo do estado nunca faltaram apoios solícitos. Ele até já foi tratado como um representante do “bolsonarismo moderado”. Embora a expressão seja ilógica e disparatada, uma vez que o repúdio animal a qualquer forma de moderação é o primeiro traço definidor do bolsonarismo (se é moderado, não pode ser bolsonarismo, e vice-versa), era assim que ele era festejado. Agora que o governador rasgou a fantasia, apoiá-lo ficou mais trabalhoso. Seu bolsonarismo, além de imoderado, desembestou na selvageria.

Fiquemos atentos. O futuro da USP tem um encontro marcado com ele.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


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