Um romance de Domingos Oliveira

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro “Antônio: o primeiro dia da morte de um homem”

 

1.

Há poucos dias me encontrava no Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, com a finalidade de pegar um ônibus para uma curta viagem ao interior. Como estava adiantado, resolvi matar o tempo numa pequena livraria, na realidade, uma ponta de estoque de livros, isto é, estabelecimento que comercializa, a preços baixos, publicações que as editoras se desfizeram para renovar ou desocupar seus estoques.

Dei uma olhada rápida e, quando já estava saindo, encontrei um exemplar de Antônio, o primeiro dia da morte de um homem, de Domingos Oliveira (1936-2019), ator, cineasta, diretor, dramaturgo, roteirista de cinema e televisão e poeta.

Domingos Oliveira ingressou na Globo em 1963 para fazer a programação da emissora, que estreou dois anos depois. Embora grande parte do programado não tenha entrado no ar, ele permaneceu na empresa, tendo produzido e dirigido o “Show da Noite”, além de ser responsável pelos roteiros do seriado “22 200 Cidade Aberta”. Em 1967 deixou a Globo para dedicar-se ao cinema e ao teatro, retornando a ela em 1970, tendo permanecido como ator ou autor até 2001.

Formado em engenharia, nunca exerceu a profissão. Em 60 anos de carreira no campo artístico, escreveu o roteiro de 18 filmes, dirigiu 19 ou 20, foi ator em outros 10, dirigiu e roteirizou programas e séries de TV, escreveu e adaptou meia centena de peças, publicou alguns livros, lançou seis traduções.

Sua estreia na direção cinematográfica deu-se em 1967, com Todas as mulheres do mundo, com Paulo José, Leila Diniz (com quem foi casado), Joana Fomm e Flávio Migliaccio, seguido de Edu, coração de ouro (1968), também com Paulo José, Leila Diniz e Joana Fomm, além de Amilton Fernandes e Maria Gladys, entre outros.

Iniciou-se no teatro com sua peça “Somos todos do jardim de infância” (1963). Dirigiu uma série de atores renomados (Henriette Morineau, Jorge Dória, Tônia Carrero, Marília Pêra, Paulo José, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Dina Sfat, Ida Gomes), sendo durante mais de uma década, de 1990 a 2000, diretor do Teatro Planetário, onde dirigiu, adaptou e organizou eventos e cabarés filosóficos, em que mesclava música, humor e crítica. Na TV dirigiu “Confissões de adolescente”, escrita por sua filha Maria Mariana e fez, ainda, adaptações para vários programas e minisséries da Globo. Merece ser destacado que em 1984 recebeu o prêmio Molière pela direção de três peças, “Conversas íntimas”, “Escola de maridos” e “Irresistível aventura”.

De maneira semelhante ao ator e diretor estadunidense John Cassavetes (1929-1989), Domingos manteve um estilo autoral e artesanal de trabalho, caracterizado por orçamento bastante reduzido, produção independente, quase sempre com a mesma equipe de trabalho, técnicos e atores, geralmente amigos do diretor – casos de Ricardo Kosovski, Maria Ribeiro, Clarice Niskier, Clarisse Derzié, Dedina Bernardelli, sua companheira Priscilla Rozenbaum, Paulo José, Aderbal Freire-Filho.

Domingos Oliveira ficou 20 anos afastado de atividades cinematográficas, dedicando-se ao teatro e à televisão. Retornou ao cinema com Amores (1997) e, até 2017, dirigiu 11 filmes, merecendo destaque Separações (2002), Feminices (2005), Todo mundo tem problemas sexuais (2008), Paixão e acaso (2012), Infância (2014) e Os 8 magníficos (2017).

 

2.

Domingos Oliveira, entretanto, não havia publicado nenhum romance – e o fez com este Antônio: o primeiro dia da morte de um homem, que contou com a colaboração de Andreia Alencar e Duaia Assumpção. Acho que a obra acabou passando despercebida pois, conforme escrevi nas linhas iniciais, o encontrei perdido numa ponta de estoque de livros, ao lado de textos de autoajuda, horóscopos, clássicos da literatura universal em edições pouco cuidadas e baratas, história do futebol, romances ingênuos, aventuras (no Himalaia, escalando o Everest etc.), gramáticas da língua inglesa.

É bem verdade que o livro de Domingos Oliveira não é uma obra-prima, mas sim, uma a narrativa de um autor que produziu escritos em que o humor, a ironia, a sexualidade, a desilusão amorosa e a busca da felicidade sempre deram o tom. Entendo que trecho das orelhas possa melhor explicitar o que estou afirmando: “Professor, roteirista, escritor frustrado, homem que já não é garoto, Antônio é um protagonista inesquecível, e nas páginas do romance faz o que todo personagem deveria fazer: vive. Ele ama, sofre com o término de um longo casamento, apaixona-se por Manuela e Nádia – vértices de um delicioso triângulo amoroso –, escreve, luta por reconhecimento, tudo isso observado pelo espectro do amigo Eduardo, recém-falecido, que não se furta a emitir opiniões e tentar interferir nas escolhas de Antônio (…) Recheado de cenas antológicas de amor, dor, amizade e sexo Antônio é um pungente romance sobre relacionamentos. Um livro que (…) se carrega muito da dramaturgia de Domingos – com cortes cinematográficos e diálogos do melhor teatro…”.

Antônio tem 42 anos, é casado e, numa noite de Natal em Paris, nos anos 1990, acaba encontrando um grande amor – à primeira vista. Volta para o Rio de Janeiro, larga a mulher com quem vivia, e estabelece a nova relação afetiva. Professor de antropologia mais ou menos respeitado, ganha a vida dando aulas em universidades particulares e “escrevendo crônicas para jornais vários, assinados ou sem assinatura. Não é famoso, mas também não deixa de ser, ninguém é famoso no Rio fora de seu quarteirão” (p. 12).

Ela, Blue, “tipo europeu”, dois anos mais nova, formada em sociologia, “trabalhava no ramo da moda, sócia de uma promissora butique/brechó de roupas femininas exclusivas (…) Personalidade firme, sempre se vestiu à moda de Blue” (p. 13).

Ambos se conheceram num momento de suas vidas que pode ser assim resumido: “Dizem que a vida é melhor no meio. Quando já se aprendeu alguma coisa e o corpo ainda não conhece a humilhação da velhice” (p. 13). Necessitando de mais dinheiro, Antônio vai trabalhar na TV, colaborando em programa humorístico, além das aulas. Alcança sucesso, depois deixa de ser sucesso, é despedido, passado algum tempo é readmitido com salário maior, “porém bem menor do que ele esperava”.

Depois de 18 anos, a separação. Do nada, Blue anunciou que se apaixonou por um baterista bem mais jovem que conheceu num show que acabara de assistir; avisou que vai deixá-lo pois não gostaria de traí-lo. Antônio estava com 62 e Blue com 60. Ela acabara de publicar um livro, primeiro e único, sobre seu tempo de moça virgem (Castidade contemporânea), sucesso instantâneo, cujo editor (o mesmo de Antônio), João Maria Rosas, começara a cortejá-la.

Há o velho Cavalcanti, já com seus oitenta e tantos anos, que já tivera livraria de luxo e agora era proprietário e praticamente vivia em uma grande banca de jornal bem sortida. Aprende-se, na leitura, que Asif vem a ser “uma gíria cada vez mais usada em turmas de psicanalistas moderníssimos”: asif = “as if” = “como se fosse”. Uma pessoa que se comporta como se fosse outra.

As narrativas se alternam, na primeira e na terceira pessoas e Antônio, às vezes meio deprimido, outras tocando sua vidinha no piloto automático, acaba se envolvendo com Manuela, 21 aninhos, olhos verdes (“Eu não gosto de velho, mas foi a Nádia que comentou que ele era o cara certo. Muito inteligente, já foi casado com umas mulheres bonitas aí. Valeria a pena botar no currículo”, p. 66), e com Nádia, 28, olhos azuis, que usava “um vestidinho curto da cor dos olhos” (p. 74). Depois o envolvimento se transforma num ménage à trois.

Enfim, não vou detalhar mais, apenas acrescento que “o amor platônico é uma perversão, como formulou Freud. Um tipo de dimensão sexual tarada que exclui o corpo” (p.88) e que está na Bíblia que “o corpo da amada é o jardim das delícias, sendo o amante um jardineiro caprichoso que tem por obrigação e prazer cuidar com minúcia de cada recanto” (p. 91-92).

Outro personagem que surge na narrativa é Curvino, jesuíta, Ph.D. em análise estatística, psicólogo, que “toca piano com influências do livre jazz”, bonito, alto, parecido com John Cassavetes e…reitor na universidade privada e confessional em que Antônio trabalha. Sua meta é colocar a instituição no “Top 500”, ou seja, entre as melhores universidades do mundo. Amigo de Antônio, convida-o para espionar os professores que considera “improdutivos” e que possam atrapalhar os planos da universidade de se tornar um centro de excelência. Como Antônio se nega a dedurar seus colegas e não deixa de se envolver com Manuela, aluna da casa, acaba sendo demitido por Curvino.

Por influência de sua ex, Blue, consegue publicar seu livro, Casaco de cristal (ah, o editor Rosas, que antes se negara a publicá-lo, agora vive com Blue).

Numa reviravolta no enredo, Curvino demite-se, pede perdão ao papa, larga a batina e surpreende os leitores, ressurgindo em São Paulo, rico e famoso. O velho Cavalcanti retorna à ribalta e muda por completo o andamento o que aparece nas páginas derradeiras. Antônio, por sua vez, recebe o veredicto de Nádia, enquanto escreve o seu romance: “…para você não há saída. Você vai começar a morrer quando parar de se apaixonar” (p. 172).

Talvez o romance de Domingos Oliveira não se aproxime muito do que de melhor se tem produzido por aqui nos últimos tempos. Mas tem seu charme e não é sisudo, ao contrário, é livre, leve e solto como são suas obras, de considerável conteúdo autobiográfico, nos domínios artísticos em que navega com desenvoltura. É um livro que se lê de uma sentada, talvez em pouco mais de duas horas.

Encontra-se repleto de conselhos à la Domingos, como por exemplo, esse: “como é sabido nos casamentos de longa duração, os maridos devem ficar cautelosos quando a esposa faz plásticas ou procura um psiquiatra” (p. 19). Ou esse outro: “Um quarto de amor precisa ter contíguo pelo menos mais dois cômodos: uma cozinha, posto que amar dá fome. E um banheiro, posto que amar pede o banho da purificação, exigindo a renovação do pecado” (p. 89). Mas há ainda outros, muitos outros…

*Afrânio Catani é professor titular aposentado da Faculdade de Educação da USP e, atualmente, professor sênior na mesma instituição. Professor visitante na Faculdade de Educação da UERJ, campus de Duque de Caxias.

 

Referência


Domingos Oliveira. Antônio: o primeiro dia da morte de um homem. Rio de Janeiro: Record, 2015, 176 páginas.