Uma breve história da violência

Jorge Oteiza, A onda, 1998
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Por JOSÉ MICAELSON LACERDA MORAIS*

Prefácio do autor ao livro recém-publicado

1.

“Ninguém que se tenha dedicado a pensar a história e a política pode permanecer alheio ao enorme papel que a violência sempre desempenhou nos negócios humanos, e, à primeira vista, é surpreendente que a violência tenha sido raramente escolhida como objeto de consideração especial. (Na última edição da Enciclopédia de Ciências Sociais, “violência” nem sequer merece menção.) Isso indica quanto a violência e sua arbitrariedade foram consideradas corriqueiras e, portanto, negligenciadas; ninguém questiona ou examina o que é óbvio para todos. Aqueles que viram apenas violência nos assuntos humanos, convencidos de que eles eram “sempre fortuitos, nem sérios nem precisos” (Renan), ou de que Deus sempre esteve com os maiores batalhões, nada mais tinham a dizer a respeito da violência ou da história. Quem quer que tenha procurado algum sentido nos registros do passado viu-se quase obrigado a enxergar a violência como um fenômeno marginal. Seja Clausewitz denominando a guerra como a “continuação da política por outros meios”, seja Engels definindo a violência como o acelerador do desenvolvimento econômico, a ênfase recai sobre a continuidade política ou econômica” (Hannah Arendt).

Como constatou Hannah Arendt, no fragmento que constitui a epígrafe deste livro, não é possível compreender a história humana sem a violência. Essa sentença não exprime apenas um juízo de valor ou uma condenação moral, mas uma constatação estrutural, que exige ser enfrentada em suas múltiplas dimensões filosóficas, econômicas, políticas e culturais. A violência não constitui mera exceção ao curso da história, um desvio ocasional em tempos de guerra ou instabilidade, mas uma condição constitutiva das formas sociais.

Longe de se limitar a episódios de repressão estatal, conflitos armados ou convulsões sociais visíveis, a violência se manifesta de maneira difusa, institucional e legitimada, organizando a vida coletiva desde seus alicerces.

Ela funda ordens políticas ao definir quem governa e quem obedece, legitima instituições ao silenciar os vencidos em nome da estabilidade, molda culturas ao determinar o que pode ser lembrado e o que será esquecido, desloca populações inteiras por meio da guerra, do colonialismo ou da especulação urbana, estabelece direitos ao mesmo tempo em que os nega a outros, produz riqueza expropriando corpos, terras e saberes, impõe fronteiras simbólicas e geopolíticas que distinguem os “civilizados” dos “bárbaros”, os incluídos dos descartáveis.

Nesse sentido, a violência é mais do que um ato: é uma lógica, um dispositivo histórico de organização da desigualdade, que atravessa as instituições e opera sob a aparência de normalidade. Ao compreender isso, não se trata de naturalizar a violência, mas de reconhecê-la como motor oculto de muitos processos que costumamos celebrar como progresso, civilização ou ordem.

Ignorar esse traço estrutural é perpetuar sua invisibilidade e dificultar qualquer tentativa efetiva de transformação social. Como advertiu Arendt, o desafio não é apenas denunciar a violência, mas desmascarar sua banalidade, sua presença silenciosa e reiterada no tecido ordinário da história humana.

Nesse contexto, a guerra também não se apresenta como um desvio da racionalidade política, mas a sua expressão concentrada, como sugerem diversas leituras críticas da tradição realista. Invertendo a célebre máxima de Carl Clausewitz (2014), pode-se afirmar que a paz não é o contrário da guerra, mas sua forma administrada, sua continuidade sob outros meios e disfarces. Os períodos considerados pacíficos, na verdade, muitas vezes representam apenas momentos de dominação estabilizada, nos quais os mecanismos de coerção física, simbólica e econômica operam de forma eficiente e naturalizada.

2.

Essa perspectiva desestabiliza a noção moderna de progresso como trajetória ascendente da razão, da moral ou da técnica. Progresso e destruição caminham juntos. O desenvolvimento de tecnologias de transporte, comunicação e produção esteve frequentemente atrelado à lógica bélica, à exploração colonial, à escravização de povos inteiros e à apropriação forçada de territórios e recursos. A racionalidade técnica que hoje celebramos como inovação surgiu, muitas vezes, em laboratórios militares, campos de batalha ou regimes de vigilância.

As grandes obras da civilização como as pirâmides, impérios, muralhas, cidades monumentais, foram erguidas sobre os escombros da barbárie, sustentadas pelo sofrimento anônimo dos vencidos, escravizados ou silenciados. Talvez a diferença entre civilização e barbárie não resida tanto nas práticas, mas nos discursos que as legitimam.

Chamamos de civilização quando a violência é institucionalizada, eficaz e reconhecida como necessária. Chamamos de barbárie quando ela nos escapa ao controle, nos ameaça ou nos expõe. Nesse sentido, a linguagem é cúmplice da dominação: nomear, ocultar, eufemizar são formas de continuar a guerra sob o signo da razão.

Compreender isso exige não a negação das conquistas humanas, mas uma crítica radical à sua genealogia. Por isso, a história da humanidade não pode ser escrita como epopeia do progresso, mas como uma crônica tensa entre violência e sentido, dominação e resistência, memória e esquecimento.

O século XX levou ao paroxismo a promessa iluminista de emancipação universal por meio da ciência e da razão. Longe de se cumprir, revelou seu reverso sombrio, qual seja, a transformação da razão em instrumento de dominação.

O otimismo racionalista que animava os enciclopedistas, os reformadores liberais e os socialistas científicos, foi duramente confrontado com duas guerras mundiais, genocídios industriais e regimes totalitários que mobilizaram todo o aparato técnico-científico moderno para fins de destruição sistemática. Na virada para o século XXI, essa lógica se sofisticou com os drones autônomos, a vigilância algorítmica e a militarização do ciberespaço.

A história econômica tampouco escapa a esse diagnóstico. A acumulação capitalista, base da modernidade ocidental, floresceu em meio à escravidão, à colonização violenta e à guerra permanente. O capital se alimenta da destruição tanto quanto da produção. Não é por acaso que os períodos de maior crescimento econômico do século XX foram precedidos ou sucedidos por guerras mundiais.

A depressão de 1929 encontrou na Segunda Guerra Mundial sua “solução” funcional: reorganizou as forças produtivas, legitimou a expansão estatal, reativou a indústria, redefiniu os impérios e estabilizou o dólar como moeda hegemônica. Essa interdependência entre violência e economia, entre destruição e reconstrução, tornou-se parte integrante da lógica contemporânea.

O complexo industrial-militar, denunciado por Eisenhower, nos anos 1960, deixou de ser uma exceção americana para se tornar uma norma global. Armas são exportadas como mercadorias, guerras são financiadas como projetos de desenvolvimento, e a segurança tornou-se um dos principais motores da inovação tecnológica. A guerra, em sua forma permanente, é hoje um setor econômico altamente rentável.

3.

No plano político, vivemos sob o domínio de uma razão securitária que não visa mais o bem-estar coletivo, mas a administração do risco, a contenção dos “indesejáveis”, a vigilância dos corpos, a eliminação preventiva da dissidência. Michel Foucault chamou isso de “biopolítica” e Achille Mbembe, de “necropolítica”.

Em ambos os casos, trata-se de um poder que decide quem deve viver e quem pode morrer; não mais em nome da soberania divina ou da lei natural, mas em nome da racionalidade estatística, da governabilidade econômica, da manutenção da ordem. Nesse cenário, a paz tornou-se uma forma altamente sofisticada de violência: silenciosa, estrutural, institucionalizada. A fome, o desemprego, a desigualdade, o encarceramento em massa e a exclusão digital são faces dessa nova guerra difusa.

Este livro parte de um paradoxo inquietante: quanto mais a humanidade avança em suas conquistas técnicas, mais se aproxima da possibilidade real de sua autodestruição (ou da consolidação de uma ordem social em que apenas alguns poucos privilegiados sobrevivam).

Ao longo dos capítulos, veremos que a paz que hoje experimentamos é, em grande medida, uma paz armada: sustentada por arsenais nucleares, algoritmos de vigilância e tratados internacionais que, em última instância, programam a destruição mútua. Diante disso, emergem questões incômodas: será que uma revolução verdadeiramente emancipatória se tornou inviável? O desejo de justiça ainda habita nossa imaginação política? Ou a assimetria entre a potência do poder e a fragilidade dos meios de resistência se tornou simplesmente intransponível?

Nesse cenário, a violência não é um resíduo arcaico, mas a engrenagem estrutural do sistema. A modernidade aperfeiçoou a guerra, tornando-a mais eficiente, impessoal e aceitável, mas não se limitou a ela: estendeu a lógica da violência a múltiplas esferas da vida social, econômica, política e simbólica. Na modernidade pós-tardia, essa violência difusa se manifesta em formas menos visíveis, porém igualmente devastadoras.

Como lembra Hannah Arendt, “aqueles que sofreram violência sonham com violência”; talvez porque a violência, mais que um problema a ser eliminado, seja a linguagem originária da história humana. A pergunta decisiva, então, é: pode existir um mundo em que o poder não fale, antes de tudo, a língua da violência? Talvez esta seja nossa tarefa mais urgente, e também a mais difícil: conceber a superação radical de uma lógica que fez da violência a forma mais duradoura e persuasiva da política.

*José Micaelson Lacerda Morais é professor do Departamento de Economia da Universidade Regional do Cariri (URCA). Autor, entre outros livros, de A condição apropriadora: por que a desigualdade estrutura a vida em comum? (Clube de Autores). [https://amzn.to/3Sj2Y3k]

Referência


José Micaelson Lacerda Morais. Uma breve história da violência: poder, progresso e o motor bélico da humanidade. Independently Published, 2025, 160 págs. [https://amzn.to/4pZ1qv1]

Bibliografia


ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Tradução André Duarte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. Tradução. Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle. Martins Fontes: São Paulo, 2014.

EISENHOWER Dwight D. Discurso de despedida do presidente (1961). Disponível em: https://www.archives.gov/milestone-documents/president-dwight-d-eisenhowers-farewell-address.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção tópicos)

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.


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