Uma escolha facílima

Imagem: Caner Demiroğlu
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Por ARACY P. S. BALBANI

A eleição de 2026 apresenta uma dicotomia clara: de um lado, os fantasmas do retrocesso; de outro, a força humana de quem constrói um futuro. A escolha é óbvia

“A maior droga que, tenho a impressão, já assolou o mundo, foi o poder. O poder é o que mais vicia e o que mais mata até hoje” (Elke Georgievna Grunnupp, Elke Maravilha).

1.

A disputa das eleições de 2026 começou. Há de tudo nesse processo: parlamentares brasileiros condenados por tentativa de golpe de Estado e outros crimes fugindo para o exterior; quantias elevadas em dinheiro vivo apreendidas pela Polícia Federal em endereços de deputados federais; corporativismo escancarado para blindar políticos contra investigações e anistiar os que já têm culpa comprovada; manifestações populares nas ruas; Bolsonaros batendo cabeça e posts entre eles pelo espólio político da família; e a manipulação costumeira do noticiário por um punhado de veículos de comunicação (ainda) poderosos.

As alegações de vários investigados para umas relações esquisitas entre agentes políticos, pastores de igrejas, empresários, investidores, alguns magistrados, influenciadores digitais e o crime organizado podem ser fantasiosas, mas os tiros que inauguraram a corrida eleitoral foram reais. Disparados na ação do Governo do Estado do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha em outubro, mataram 121 brasileiros.

Duas eleições presidenciais atrás, um jornal paulista vetusto publicou editorial defendendo que a escolha entre os dois candidatos do segundo turno era ‘muito difícil’.

Os analistas do jornal não foram capazes de projetar os efeitos das mudanças climáticas, da derrocada financeira dos EUA, da inépcia dos candidatos da direita brasileira à Presidência e ao governo dos estados, nem da ganância dos apoiadores desses candidatos no futuro próximo do Brasil. Provavelmente, também não contavam com a hipótese de ocorrer uma pandemia como a do coronavírus.

Eis que a boiada passou desenfreada. A via escolhida pelo eleitorado brasileiro em 2018 resultou em alguns recordes numéricos: a taxa de desemprego dobrou; chegou a 14,7% e afetou 14,8 milhões de brasileiros em 2021; o desmatamento aumentou 94% até 2022, no maior retrocesso ambiental de todos os tempos. Nunca antes na História desse país houve tanta gente afetada por incêndios florestais, estiagens prolongadas, deslizamentos de terra, erosões do solo, enchentes e vendavais.

Outros retrocessos foram igualmente monstruosos. A flexibilização das regras para cidadãos comprarem armas de fogo a partir de 2019 levou as autoridades a perderem o controle sobre o seu uso no Brasil. O número de feminicídios aumentou. Mais de mil mulheres foram assassinadas entre janeiro e setembro de 2025. Muitas eram mães, deixando centenas de crianças órfãs.

Cerca de 2.700 mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato no mesmo período, das quais muitas deverão enfrentar sequelas físicas incapacitantes. Todas, assim como suas famílias, sofrerão as sequelas psicológicas graves da violência.

O Brasil voltou ao mapa da fome de 2022 a 2025, com 19 milhões de pessoas famintas disputando ossos bovinos descartados e alimentos jogados no lixo. Mais de 710.000 brasileiros morreram de COVID-19, e se estima que 400.000 poderiam ter sido salvos se a condução da crise sanitária tivesse sido adequada às recomendações científicas. Não se trata de números apenas. São – ou eram – vidas humanas.

2.

Os fantasmas do ódio, da ignorância, do vício do poder, da ambição egoísta e da discriminação ainda arrastam as correntes e exercem influência por todo o país. Muita gente abandonou o pudor de xingar ou ameaçar autoridades, vizinhos e desconhecidos, seja na Internet ou pessoalmente. Pais passaram a desacreditar as vacinas recomendadas pela comunidade científica internacional para seus filhos.

Caciques políticos de baixo clero terceirizam serviços públicos de saúde, assistência social, educação, etc. para empresários amigos do peito sem consultar os Conselhos Municipais e Estaduais. Por sua vez, muitos membros desses conselhos de participação social fazem vista grossa ou, até, coro para todos os atos administrativos de prefeitos e governadores.

O direito do consumidor de pedir nota fiscal é encarado por muitos comerciantes e prestadores de serviços como uma ofensa. Se for cliente do sexo feminino ou idoso, a arrogância do vendedor ou prestador cresce exponencialmente. Uai? Sonegação não é crime?

Vários influenciadores digitais que ostentam prosperidade, têm milhares de seguidores nas redes e foram até cotados como pré-candidatos a cargos eletivos majoritários terminam 2025 desmascarados. Foram flagrados pela polícia sob efeito de álcool e entorpecentes, ou em conluio com bandidos perigosos. Cabe o parêntese: imagine o rebuliço se a regulação das redes e a legislação eleitoral exigissem a apresentação periódica de exame toxicológico negativo.

As eleições municipais de 2024 abarrotaram prefeituras e câmaras municipais de pastores religiosos e militares. Mais de 150 militares de várias patentes foram eleitos. Interessante que o fenômeno não poupou os munícipes de exibição pública de armas de fogo, nem de vários discursos desumanizantes, racistas, xenófobos, transfóbicos, ‘em defesa dos cidadões’ (sic) ou ‘indignados’ de vereadores que acreditavam, inclusive, que tombamento do patrimônio histórico era… demolição dessas edificações.

Esses espectros que nos rondam promovem um deboche de larga escala que pode custar muito mais vidas e divisas (leia-se: dinheiro) para o país.

Porém, há um contingente enorme de brasileiros conscientes da situação dramática do planeta e preocupados com o futuro. Existe uma geração que gosta de estudar, esforça-se para entrar numa universidade pública e gratuita de excelente qualidade, ter uma profissão e ver seus direitos trabalhistas respeitados. Angustia-se com a perspectiva de envelhecer com longevidade, mas sem conquistar aposentadoria digna.

Deseja sair de casa e voltar em segurança, especialmente se for uma pessoa jovem, preta e moradora da periferia, já que esse é o perfil das vítimas principais de violência.

3.

São milhões de pessoas que ficam espantadas quando contamos como foi viver no Brasil da instabilidade econômica, em que sofremos com maxidesvalorizações cambiais, confisco da poupança popular, umas cinco moedas nacionais, hiperinflação, desabastecimento nos supermercados, e uns oito planos econômicos para lá do limite da irresponsabilidade governamental.

São cidadãos que apreciam a cultura nacional, seja na literatura, música, artes visuais, culinária ou outras manifestações. Têm curiosidade e respeito pelas variações culturais regionais desse país imenso. Amam o esporte leal. Preferem o fair play e o talento dos esportistas aos valores comerciais milionários de alguns atletas.

Interessam-se por política estudantil e partidária. Querem incluir as pessoas mais vulneráveis, proteger a natureza e contribuir para a paz mundial. Longe de serem sonhadores românticos, colocam a mão na massa e promovem desde vaquinhas virtuais até mutirões de obras. Suas ações solidárias têm bons resultados.

Independentemente da idade, são abertos a novas ideias e bem-humorados. Gostam de viajar e conhecer pessoas. Repudiam preconceito, desonestidade, corrupção, devastação ambiental, guerras e ditaduras.

Essas pessoas, profundamente humanas, são a esperança concreta de dias melhores e mais felizes para todos – no Brasil e no mundo.

Ao contrário do que o editorial do jornalão afirmou em 2018 e errou na mosca, a questão para 2026 sobre o futuro do Brasil é simples assim. Basta escolher.

*Aracy P. S. Balbani é doutora em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP. Atua como especialista exclusivamente no SUS no interior paulista.

Referências


TV Brasil. Entrevista de Elke Maravilha. Em: https://www.youtube.com/shorts/57xFUFqjKWg

Agência Brasil. 2025 já é o ano com maior número de feminicídios na capital paulista. Em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-12/2025-ja-e-o-ano-com-maior-numero-de-feminicidios-na-capital-paulista

Agência Senado. Pesquisas apontam que 400 mil mortes poderiam ser evitadas; governistas questionam. 24/06/2021. Disponível aqui.

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