Por PAULO GHIRALDELLI*
A vitória de Zohan Mamdani em Nova York revive a esperança de Richard Rorty em uma “Nova Velha Esquerda”, que une as lutas de minorias e trabalhadores na tradição socialista e democrática de Eugene Debbs e Luther King
1.
Há os que lembram dos artigos políticos de Richard Rorty pelo que ele temia. Mas o lema de Richard Rorty era “antes esperança que conhecimento”. É um lema forte, que leva a sério o mistério da esperança e da utopia entre as pessoas. Prefiro falar de Richard Rorty pela sua esperança, não pelo temor. Mas, para me explicar melhor, começo pelo que lhe fazia tremer.
Richard Rorty foi um crítico do neoliberalismo. Ele dizia não saber o que fazer, em detalhes, em termos de economia, mas insistia que, como cidadão, não se importava de pagar mais impostos de modo que o faxineiro da universidade pudesse ter uma vida melhor. Do modo que estavam as coisas, ele dizia, nada iria funcionar bem.
O temor de Richard Rorty era o de quem via os Estados Unidos com uma classe trabalhadora cada vez mais caminhando para o empobrecimento e, portanto, para o ressentimento, o que a levaria na direção do populismo de direita. Segundo essa sua visão, isso traria à tona alguém que iria fazer os americanos de esquerda terem saudades até de Bush, o filho. Richard Rorty conjecturava que tal coisa não estava distante.
Por diversas vezes Richard Rorty reclamou de como o Partido Republicano estava se deixando levar por negacionismos de toda ordem, e por uma maneira de pensar própria do Tea Party, a ala reacionária do partido.
Ele faleceu em 2007. Barack Obama se elegeu em 2008. Essa eleição segurou o movimento perigoso que Richard Rorty temia. Mas, então, após oito anos do liberal Barack Obama, o que era o pesadelo do filósofo aconteceu: Donald Trump conseguiu se tornar o candidato dos republicanos e se elegeu presidente. Todavia, ele foi segurado pela crise da Covid.
Administrou mal a vinda da doença para a América e acabou não se reelegendo. Promoveu uma insurreição tresloucada, a invasão do Capitólio. Foi condenado na Justiça por outros crimes. Pintou e bordou. Nos Estados Unidos, ser condenado na Justiça, às vezes impede a pessoa de votar, mas não de ser votado! Após a administração de Joe Biden, Donald Trump voltou à Casa Branca.
2.
Esse era o temor, mas qual era a esperança de Richard Rorty? O filósofo torcia para que a esquerda americana voltasse a “fazer política”, deixando de lado “a luta pelo controle do departamento de Letras”. Menos luta na universidade e mais luta política nas ruas. O que isso queria dizer?
Richard Rorty insistia que a esquerda americana havia se tornado exclusivamente acadêmica. De certo modo, ainda estava sob ecos dos movimentos dos anos 1960. Em especial, tinha no seu ideário certas abordagens vindas da luta contra a Guerra do Vietnã.
Para ele, havia um certo pecado vindo dos anos 1960. Naquela época a esquerda havia errado feio ao queimar bandeiras americanas nas ruas. Os trabalhadores americanos teriam se afastado desse tipo de esquerda não só por isso, mas esse fato, segundo ele, teve seu peso. A classe trabalhadora americana havia servido na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coreia e, de certo modo, via sob o prisma do patriotismo a incursão no Vietnã. O cisma entre a esquerda e os trabalhadores acabou ocorrendo.
Essa esquerda, ainda que alojada no interior do Partido Democrata, pouco contava nas convenções do partido. Desistiu da política partidária. Refugiou-se nas disputas internas das universidades. Essa autodenominada Nova Esquerda estava envolvida com feminismo, direitos de minorias etc., mas de uma maneira que favorecia antes suas publicações acadêmicas que suas ações políticas no âmbito da política partidária.
Todavia, quando voltou a valorizar as eleições, as campanhas políticas etc., o fez segundo o que havia cultivado no âmbito universitário: a luta por minorias, mas de uma maneira pouco ampla. Esse tipo de atitude recebeu, depois, o nome de identitarismo.
Richard Rorty denunciou o identitarismo que começou a crescer por meio da Nova Esquerda, indo parar dentro do Partido Democrata. Fez isso antes mesmo desse movimento se tornar quase fator de corrosão do Partido Democrata.
Ele dizia que as minorias precisam buscar fazer vingar a democracia enquanto o único regime que podia acolhe-las. Negros, gays, mulheres etc., deviam se ver como americanos, e não se ver antes com identidades diversas, desprezando a condição de americanos. Richard Rorty insistia que cabia nos valores americanos os melhores valores da democracia, e que isso não podia ser desprezado por nenhuma esquerda que quisesse chegar ao governo.
Richard Rorty acreditava que os Estados Unidos não estava predestinado a ficar nesse cisma entre a classe trabalhadora e a esquerda. Ele queria uma “Nova Velha Esquerda”. Foi o que ele pregou em livros que traduzi, o Para realizar a América (DPA), o Contra chefes e contra oligarguias (DPA) e o Pragmatismo e política (Martins). O que havia sido a Velha Esquerda? Aquela que se opôs ao sovietismo e que havia ficado com a aliança entre trotskistas e pragmatistas. Uma esquerda que acolheu seus pais como militantes. A “Nova Velha Esquerda” deveria honrar as lutas de Eugene Debbs e Luther King conjuntamente. Seria uma esquerda socialista, democrática, que falasse em liberdade e igualdade pela via das tradições americanas, e não pelas doutrinas que poderiam ser tomadas como antiamericanas pelos trabalhadores. Uma esquerda que integrasse a luta de minorias como luta de trabalhadores.
3.
Esse desejo de Richard Rorty apontou a cabeça na convenção do Partido Democrata em meio à Covid, quando o senador Bernie Sanders caminhou para ser o adversário de Donald Trump, e não Joe Biden. Mas o dinheiro da campanha de Bernie Sanders acabou cedo. Então, ele e Ocasio Cortez apoiaram Joe Biden. Agora, na vitória de Zohan Mamdani, o ideal de Richard Rorty renasceu. Em seu discurso de vitória, Zohan Mamdani citou Luther King e Eugene Debbs: “enquanto houver uma classe inferior, estou nela, enquanto houver uma alma na prisão, não sou um homem livre”.
Eugene Debbs foi um sindicalista socialista tenaz. Foi cinco vezes candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Socialista da América. Em uma dessas vezes, ele fez campanha mesmo estando preso. Na eleição de 1912 chegou a receber 6% do voto popular. Era um agitador de primeira grandeza, capaz de deixar os patrões sem cabelos.
Zohan Mamdani escolheu essa tradição para seguir, e desempenha bem esse papel. Foi duas vezes deputado estadual. Sua plataforma para a prefeitura de Nova York inclui questões básicas como creche, moradia, transporte urbano gratuito, imposto sobre os mais ricos.
São solicitações que se igualam às brasileiras, mas que são pedidas na cidade que é o centro financeiro do mundo, que tem um orçamento gigantesco, e que deixou os trabalhadores de fora dele. Zohan Mamdani fez o casamento entre o que se pede para os trabalhadores e o que se pede pelas minorias. Era o casamento que Donald Trump não queria que acontecesse.
Donald Trump lá e os jornalistas reacionários aqui vão falar cotidianamente contra Zohan Mamdani, vão pintá-lo como demônio comunista não-americano, como filho de intelectuais e não autenticamente operário. Vão falar contra o islamismo.
Não faltará os que o nomearão como “populista”, e que sua pauta de reivindicações não cabe no orçamento de Nova York. Vocês escutarão aqui e ali esses gemidos.
*Paulo Ghiraldelli é filósofo, youtuber e escritor. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH]
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