Zona de conforto, meritocracia e Donald Trump

Imagem: Cottonbro Studio
image_pdf

Por EUGÊNIO BUCCI*

Um filósofo disse uma vez que o inferno são os outros. Nada a opor. Mas, para Donald Trump, o inferno dos outros é o paraíso

Dia desses, assistindo a uma entrevista num canal de TV da internet, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem de negócios sem ócios precisa sempre contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história: o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.

Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima, comentava com seus diretos que não gostava de “gato gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele ex-jovem-promissor que rapidamente se refestelava numa posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de adiposidade, não mais de cifrões.

A partir daí o “gato gordo”, indolente, comprava uma casa de campo num condomínio fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro, o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.

A expressão “gato gordo” não se popularizou, ficou só para iniciados. A outra, “zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de iniciativa (pública ou privada).

A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome! Fujam da sua zona de conforto!

Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom. Deveria ser festejada, nunca repudiada.

Eu, de minha parte, prefiro aplaudir. Viva o conforto, e viva a zona que o envolve. Viva o emprego que oferece aconchego. O sujeito já passa por agruras indescritíveis todos os dias com a enchente do bairro, a polícia desembestada, a disparada do preço da banana, o governador grava um vídeo mandando a gente comer banana com casca, o amigo assassinado num assalto e, na hora do expediente, ainda precisa aturar os chefes que o ameaçam com terrorismos de colarinho branco só porque, na religião deles, o conforto é contraproducente. Não dá.

O conforto faz bem. Mais ainda, o conforto é um direito humano, e o melhor da nossa existência – a beleza, a contemplação, o repouso e a fruição – brota quando nos sentimos seguros e medianamente felizes, não quando estamos premidos pelo pavor ou pela necessidade. Só mesmo na cabeça de um usurário é que o desconforto traz benefícios para o balanço da empresa e para o progresso da sociedade. Haja ideologia.

Isto posto, mudo de verbete. Donald Trump, já empossado na Casa Branca, disse que agora nos Estados Unidos o que vai valer é a “meritocracia”. Soem todos os alarmes. O que pode significar meritocracia na língua do líder Republicano? Será algo de bom? Que ninguém tenha dúvida: há muito mais mérito num morador de rua que passa a noite sob um viaduto e na manhã seguinte não comete suicídio do que no filho de papai, ou mesmo Donald, que nunca precisou suar a gravata para poder almoçar.

Quando ouço Donald Trump falar em mérito eu tenho vontade de puxar a alavanca do assento ejetor. O dele. O presidente dos Estados Unidos também deve acreditar que a “zona de conforto” precisa ser eliminada, basta ver o que ele promove na Faixa de Gaza, em Guantánamo, nos lares dos imigrantes em Newark, nas universidades que estudam democracia, nas agências de notícias e na Ucrânia.

Um filósofo disse uma vez que o inferno são os outros. Nada a opor. Mas, para Donald Trump, o inferno dos outros é o paraíso. O dele. Isso preocupa muito mais. Meritocracia? Faça-me o pavor, digo, faça-me o favor.

Wilhelm Reich costumava abrir seus livros com a mesma epígrafe: “Amor, trabalho e sabedoria são as fontes da nossa vida. Deviam também governá-la”. Tristemente, quem governa a nossa vida é a ideologia da “zona de conforto”, do “gato gordo” e da “meritocracia”. Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Pois, no trumpismo e nas suas adjacências, o dinheiro é a medida de todas as coisas, inclusive do homem.

No prólogo do seu livro A tirania do mérito (Editora Alfaguara), Michael J. Sandel escreveu que havia “uma mistura tóxica de arrogância e ressentimento” na força que levou Donald Trump ao poder em 2016. Em 2024, a mistura foi pior.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES