O valor da vida

Imagem: Paweł L.
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LORENZO VITRAL*

Sustentar politicamente quem faz apologia da morte e da tortura não é compatível com a doutrina cristã

É um truísmo admitir que o fascismo cultua a morte. Desde o grito do general franquista Millán-Astray (“Abajo la inteligencia, viva la muerte!”), passando pelo papel desempenhado pelo nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, intriga-nos a aparente fuga do escopo da razão desse traço fundamental do fascismo.

No nosso país, nunca houve dúvidas da compatibilidade desse fenômeno com o “ideário” do atual governo. Desde o “fuzilar a petralhada” em 2018, o desprezo pela mortandade causada pela epidemia do Covid-19, o armamento da população civil até a consecução de assassinatos políticos, encontramo-nos num registro social-político que podemos classificar como fascista; além do traço comentado, o “espírito” atual do país encaixa-se bastante bem nos 14 (quatorze) critérios propostos por Umberto Eco para classificar esse tipo de regime político.[1]

Por outro lado, somos tomados por sentimento de estranhamento quando constatamos que muitas das pessoas que compartilham a fé cristã, seja ela protestante, neopentecostal ou católica, consentem esse estado de fatos ou, pelo menos, não se vê sua reprovação de maneira inequívoca. A primeira explicação que nos vem à mente é admitir que há interesses escusos ou inconfessáveis no apoio ao atual governo por parte de parte da cristandade, como pode ter sido o caso com a aparente corrupção no MEC na gestão Milton Ribeiro. Afinal, sustentar politicamente quem faz apologia da morte e da tortura não é compatível com a doutrina cristã, o que nos leva a pensar que o apoio cristão ao que se abateu sobre nosso país só encontra motivos na excepcionalidade, com justificativas de outras naturezas.

No entanto, a razão alegada não nos parece suficiente. Pensemos assim em como a morte e o assassinato são de fato concebidos na doutrina cristã, tomando a Bíblia Sagrada como referência.

Existe, é claro, o mandamento “Não matarás” e a condenação do primeiro homicídio que foi a morte de Abel por Caim (Gênesis:4:3-8); Caim recebe uma marca ou sinal (“owth”) do seu crime, mas não é condenado à morte. Em outros trechos veterotestamentários, no entanto, sobretudo nos campos de batalha, o assassinato não sofre repúdio. Há, dentre outras, passagens como as seguintes: “Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Ai, matando 12.000 homens e mulheres, sem que nenhum escapasse (Josué 8: 22-25); “Das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida” (Deuteronômio 20: 16). Como entender o aparente antagonismo desses trechos bíblicos? Ao que tudo indica, o assassinato se constituía como pecado apenas quando se matassem membros de seu próprio povo, seus iguais, mas não se o alvo fossem inimigos de seu povo, incluindo nesse rol mulheres e crianças.[2]

A relativização do valor da vida em todas as suas manifestações e a apologia ao assassinato, que lançou seu manto sobre nós, parece, assim, encontrar guarida na recusa da legitimidade da alteridade a qual, longe de poder participar de um processo de inclusão pela via republicana, pode e deve ser eliminada; afinal, já que diferentes, trata-se de inimigos. Dito de outro modo, não podendo a razão manifestar-se – como no grito do general fascista – o que impede o pensamento dialético, não há inclusão do antagonismo; o diferente é o inimigo já que, nesse confronto, o último deve ser concebido como fraco, castrado, o que torna inteligível o porquê da misoginia, da homofobia e do racismo fascistas.

Os cristãos nacionais que se omitem ou compactuam com esse estado de fatos não lograram alcançar a versão síntese neotestamentária dos mandamentos, ou seja, “Ame o seu próximo com a si mesmo”, da epístola paulina (Romanos 13:9). Para esses agrupamentos religiosos, no entanto, que não ao acaso se aproximam, com mais ênfase, da palavra veterotestamentária, mimetizando elementos do judaísmo, é reforçado, por outro lado, um bem tido como supremo, o qual não admite relativização, e parece, assim, hierarquicamente superior ao valor da vida: trata-se da propriedade privada que vem de par com sua transmissão hereditária.

Lembremo-nos que a primeira conceptualização cultural coletiva que justificava a adesão ao armamentismo civil foi a defesa do patrimônio privado. O temor lunático do “comunismo” num mundo sem comunismo ganha, nesse contexto, sua justificativa: ora, como mostra o clássico de Friedrich Engels sobre a propriedade privada, a formação da família monogâmica tem, dentre suas bases, a conservação e a transmissão da propriedade, o que abole uma configuração de “comunismo primitivo”. Com o advento da história, para garanti-la ou obtê-la, tudo é permitido, a depender, é claro, da origem étnico-social e da compactuação entre iguais.

Não é à toa também que, dentre as diversas mortes e assassinatos recentes, o falecimento de Dom Luiz de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira, ligado à TFP (Tradição, Família, Propriedade), tenha merecido luto oficial.

*Lorenzo Vitral é professor titular da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

Notas


[1] https://homoliteratus.com/14-caracteristicas-do-fascismo-segundo-eco/

[2] (http://www.justificando.com/2015/07/27/o-homicidio-e-suas-razoes-numa-perspectiva-historica-social/

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Roberto Alves Alysson Leandro Mascaro Gerson Almeida Rafael R. Ioris Manuel Domingos Neto Carla Teixeira Salem Nasser Leda Maria Paulani Sandra Bitencourt Leonardo Avritzer Alexandre de Freitas Barbosa Francisco Fernandes Ladeira Ronaldo Tadeu de Souza Denilson Cordeiro André Márcio Neves Soares João Paulo Ayub Fonseca Heraldo Campos Chico Whitaker Daniel Costa Paulo Fernandes Silveira Otaviano Helene Priscila Figueiredo Michael Roberts Jorge Luiz Souto Maior Jorge Branco Plínio de Arruda Sampaio Jr. Marcus Ianoni Dennis Oliveira Luis Felipe Miguel Andrés del Río João Carlos Loebens Afrânio Catani Walnice Nogueira Galvão Flávio R. Kothe Antonio Martins Luís Fernando Vitagliano Marcelo Módolo José Geraldo Couto Fernão Pessoa Ramos Paulo Martins Daniel Afonso da Silva Rubens Pinto Lyra Ronald Rocha Everaldo de Oliveira Andrade Igor Felippe Santos Liszt Vieira João Sette Whitaker Ferreira Fábio Konder Comparato Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Flávio Aguiar Henri Acselrad Renato Dagnino André Singer Sergio Amadeu da Silveira Osvaldo Coggiola Fernando Nogueira da Costa Jean Pierre Chauvin Marcos Aurélio da Silva Airton Paschoa Slavoj Žižek Elias Jabbour Ronald León Núñez Atilio A. Boron Leonardo Boff Berenice Bento José Luís Fiori Lorenzo Vitral Marilena Chauí Remy José Fontana João Adolfo Hansen Daniel Brazil Francisco Pereira de Farias Bruno Machado Jean Marc Von Der Weid Luiz Bernardo Pericás Marcos Silva Julian Rodrigues Anselm Jappe Andrew Korybko Marjorie C. Marona Gilberto Maringoni Gilberto Lopes Yuri Martins-Fontes Gabriel Cohn Rodrigo de Faria Ricardo Abramovay Celso Frederico Claudio Katz Celso Favaretto Lincoln Secco José Raimundo Trindade Juarez Guimarães Leonardo Sacramento Kátia Gerab Baggio Vladimir Safatle Vinício Carrilho Martinez Eduardo Borges João Carlos Salles Eugênio Trivinho Bernardo Ricupero Ladislau Dowbor Chico Alencar Henry Burnett Tales Ab'Sáber Manchetômetro Vanderlei Tenório Bruno Fabricio Alcebino da Silva José Dirceu Matheus Silveira de Souza Luciano Nascimento Valerio Arcary Annateresa Fabris João Feres Júnior Dênis de Moraes Mariarosaria Fabris Michael Löwy José Machado Moita Neto Antônio Sales Rios Neto Luiz Renato Martins Caio Bugiato Armando Boito Paulo Capel Narvai Samuel Kilsztajn Eleutério F. S. Prado Eleonora Albano Tarso Genro Valerio Arcary Érico Andrade Ricardo Musse José Micaelson Lacerda Morais Milton Pinheiro Benicio Viero Schmidt Luiz Werneck Vianna Ricardo Fabbrini Paulo Sérgio Pinheiro José Costa Júnior Antonino Infranca Thomas Piketty Marcelo Guimarães Lima Eugênio Bucci Maria Rita Kehl Carlos Tautz Ari Marcelo Solon Michel Goulart da Silva Luiz Marques Paulo Nogueira Batista Jr Mário Maestri Eliziário Andrade Luiz Carlos Bresser-Pereira Marilia Pacheco Fiorillo Tadeu Valadares Francisco de Oliveira Barros Júnior Boaventura de Sousa Santos Alexandre de Lima Castro Tranjan Luiz Eduardo Soares João Lanari Bo Lucas Fiaschetti Estevez Ricardo Antunes Alexandre Aragão de Albuquerque Bento Prado Jr.

NOVAS PUBLICAÇÕES