A fada e o mito

Juan Gris (1887–1927), Violino de cartas de jogar sobre a mesa, 1913.
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Por THIAGO BLOSS DE ARAÚJO*

A identificação coletiva com a vitória da cultuada Rayssa não aponta para a esperança, mas para a resignação de uma população que se acostumou com a imediatez da morte de milhares, da fome e do autoritarismo social

“Obrigado por reacender a nossa esperança em um Brasil melhor”. Esta foi uma frase, dentre tantas outras semelhantes, escrita por um internauta após a conquista da medalha de prata pela jovem skatista Rayssa Leal (a chamada “fadinha”) nas Olimpíadas do Japão. Sua vitória, para além de ser o resultado de uma redenção individual, tornou-se uma espécie de redenção coletiva (de outra natureza) para os telespectadores.

Não há qualquer dúvida sobre a importância de tamanha conquista, sobretudo por ser o resultado do esforço de uma jovem brasileira preta, pobre e periférica que, certamente, enfrentou muito mais obstáculos que as demais atletas representantes dos países do centro do capitalismo.

Por outro lado, a comoção idólatra por sua vitória, impulsionada pelos veículos de comunicação de massa, carrega muito mais um potencial de resignação do que de crítica. Já em meados do século passado, Adorno e Horkheimer sinalizaram como o esporte, quando associado à indústria cultural, tornou-se pura ideologia ao ser utilizado como instrumento de identificação das massas com o socialmente dado, com a realidade administrada tal como é apresentada diante de nossos olhos. A função da ideologia não seria mais simplesmente a ocultação da verdade, que resultaria em uma falsa consciência. Pelo contrário, hoje a indústria cultural explicita a sua mentira, não escondendo nada do consumidor, exceto o fato de que ele vive em um mundo imutável e sempre igual. Por isso, de forma muito precisa os frankfurtianos sintetizaram essa nova faceta da ideologia em uma frase: “converte-te naquilo que és”.

Com efeito, o espetáculo em torno da vitória da fadinha nas Olimpíadas, ao mesmo tempo em que projeta sobre sua figura o imaginário do “mito” responsável pela reconciliação das contradições que operam na sociedade brasileira, também reforça o cinismo de que não há nada a ser mudado, de que “as coisas são o que são” e que tudo depende do esforço individual. Basta refletirmos que essa dura medalha é conquistada no contexto de um país cujo governo, do nomeado “mito”, foi diretamente responsável pela morte de mais de meio milhão de pessoas e que, sem qualquer culpa, extinguiu o Ministério do Esporte.

Em tal conjuntura, Rayssa teve a “sorte” de ter um vídeo seu viralizado na internet, que lhe ofereceu oportunidades para superar algumas das desvantagens estruturais que enfrentaria até a conquista da medalha. O mesmo ocorreu com o surfista Ítalo Ferreira, medalhista de ouro, que aprendeu a surfar em uma tampa de isopor no início de sua carreira. É evidente que tais desvantagens poderiam ter sido evitadas (ou minimamente amenizadas) em um país mais justo e menos autoritário. É por isso que suas vitórias, apesar de merecidas, apresentam-se aos telespectadores como mentira manifesta.

Nesse sentido, a identificação coletiva com a vitória da cultuada Rayssa não aponta para a esperança, mas para a resignação de uma população que se acostumou com a imediatez da morte de milhares, da fome e do autoritarismo social. A resiliência, neste contexto, é apenas expressão da mutilação e não da redenção ou da superação individual. Se há algo a ser escancarado na conquista da skatista, não é a esperança, mas o desespero. Afinal, a vitória espetacular da fada se dá infelizmente sob a desgraça real do mito.

*Thiago Bloss de Araújo é doutorando na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da UNIFESP.

 

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