Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro

Bridget Riley, Cinzas Coloridos I, 1972
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Por LINCOLN SECCO*

Comentário sobre o livro de documentos da fase final da luta política de Luiz Carlos Prestes

Poucas personalidades no Brasil têm a grandeza política e moral de Luiz Carlos Prestes. Nele confluem diferentes camadas históricas numa síntese única. Como o cubano Julio Mella ele foi um jovem inconformista dos anos 1920. Como o italiano Palmiro Togliatti e o búlgaro Georg Dimitrov foi um dos símbolos da Revolução Mundial e da Internacional Comunista nos anos 1930. Como a espanhola Dolores Ibárruri, que depois de se tornar La Pasionaria sobreviveu longos anos ao seu próprio tempo, Prestes foi muito além do Cavaleiro da Esperança.

A partir da Revolução Paulista de 1924, o “primeiro” Prestes levantou a guarnição gaúcha em Santo Ângelo e liderou a maior marcha militar da história brasileira. O radicalismo moral dos tenentes eclodiu em todo o Brasil com revoluções no Amazonas, em Sergipe, Mato Grosso, São Paulo e Rio Grande do Sul; mas foi somente Prestes quem aceitou todas as consequências dos seus atos e levou a rebeldia até o fim e até o fundo. Percorreu o país e foi essa leitura prática do território e da população miserável do Brasil que lhe infundiu a necessidade de buscar novas explicações teóricas; de vincular a exitosa tática da guerra de movimento a uma estratégia política para a Revolução Brasileira.

“General” invicto, o capitão da Coluna Prestes – Miguel Costa suscitava a admiração e a inveja dos pares de farda e recebia as negaças das oligarquias dissidentes da velha República. Ao recusar conter a Revolução nos limites do compromisso oligárquico – burguês, o líder da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, depois, do levante comunista de 1935 tornou-se imperdoável para as classes dominantes e suas forças armadas.

A partir dos anos 1930 Prestes incorporou novo tempo histórico e nova dimensão espacial. Ele se tornou “homem de partido”, chefe inconteste dos comunistas brasileiros e com enorme influência em todos os Partidos Comunistas latino americanos.

O “primeiro” e o “segundo” Prestes sofrem nova derrota em 1964. A estratégia da revolução nacional e democrática do povo em aliança à burguesia nacional naufragou no apoio inconteste das classes dominantes à ditadura de 1964. Depois disso, ele já era um sobrevivente de outro tempo. Prestes continuou nominalmente à frente do PCB, mas estava em gestação o terceiro e “último Prestes” em luta surda dentro da direção do partido e, de certa forma, em acerto de contas com sua própria consciência.

Ele estudou novamente a história do Brasil, aproximou-se das ideias de Florestan Fernandes e criticou a transformação do PCB em cauda política de partidos burgueses. Por volta dos meus dezessete anos de idade pude ver Prestes na Universidade de São Paulo duas vezes. E era impossível não se tornar “prestista” qualquer que fosse o seu partido.

Prestes revia àquela altura a natureza da revolução brasileira e emergia de novo com a juventude, buscava compreender suas novas demandas, apoiava as frações mais radicais das camadas médias e reafirmava a hegemonia do proletariado no processo de democratização que o país exigia.

Ele rejeitou o mito que o reduzia a uma figura sem partido e sem ideologia e se reinventou juntamente com o radicalismo da nova classe operária. Operou, assim, uma rotação política inusual num homem de sua idade e soldou seu destino uma vez mais a lutas incertas, porém justas. Porque o que importou sempre em sua trajetória é que, entre erros e acertos, ela se subordinou ao dever moral da revolução.

Essa é a herança; essa é a esperança que ele nos deixou. É o que o belo livro organizado por Gustavo Rolim nos revela. O livro colige documentos preciosos da luta interna e pública de Prestes para que seu partido retomasse a senda revolucionária, como o opúsculo Carta aos comunistas (1980), diversos artigos de jornal e os últimos discursos. Uma declaração de seus apoiadores e artigos de Anita Leocádia Prestes e Florestan Fernandes complementam esse conjunto documental indispensável.

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de História do PT (Ateliê).

 

Referência


Gustavo Koszeniewski Rolim. Herança, esperança e comunismo – Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro – documentos (1980-1995). Marília, Lutas Anticapital, 2020.

 

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