Ucrânia: o ponto de partida

Imagem: Kostiantyn Stupak
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Por ANDREY SUSHENTSOV*

A Ucrânia é altamente dependente do Ocidente, mas este não planeja apoiá-la sistematicamente para sempre

Por que as relações russo-ucranianas dizem respeito a todos os russos e ucranianos? Em certa medida, o que está acontecendo é uma guerra civil adiada, que poderia ter acontecido no início dos anos 1990 com o colapso da URSS, quando a primeira geração de líderes russos e ucranianos se gabava de ter evitado um divórcio sangrento como o da Iugoslávia.

Na Rússia, muitas pessoas têm parentes no país vizinho, e o que está acontecendo lá é mais uma questão de política interna. Por exemplo, se o governo ucraniano fecha igrejas ortodoxas russas ou proíbe um partido político opositor pró-russo, a história obtém cobertura imediata na TV estatal e os políticos russos emitem declarações.

Todos os países pós-soviéticos ganharam independência no mesmo dia, e cada um destes Estados é, de alguma forma, um experimento nessa edificação estatal; no estabelecimento de estratégias políticas externas e internas.

A peculiaridade do experimento estatal ucraniano é realçada pelo seguinte dilema: como é possível conciliar os dois pilares da organização do Estado ucraniano – a Galícia ucraniana e a comunidade russa oriental? A certa altura, as pessoas que representavam as regiões ocidentais tinham um porrete nas mãos, e começaram a usá-lo em seu diálogo com os representantes do leste – foi por isso que o último Maidan venceu. O caminho ao longo do qual o experimento ucraniano se desenvolveu reflete uma limitação gradual da presença e dos interesses da identidade russa.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, ao tentar obter apoio no leste do país durante as eleições, prometeu que nunca proibiria o ensino do russo nas escolas, que asseguraria o estatuto do russo como um idioma na comunicação com agências governamentais, e que protegeria a memória da Grande Guerra Patriótica. Assim que chegou ao poder, ficou claro que suas intenções eram fazer exatamente o contrário.

Agora, observando o que está acontecendo nos meios de comunicação ocidentais, podemos ver tudo retratado como se a grande e forte Rússia tivesse atacado a pequena Ucrânia. Do ponto de vista do equilíbrio estratégico do poder, contudo, a situação não é tão óbvia. A Ucrânia é a segunda maior nação da Europa em termos de dimensão territorial, depois da Rússia. A população da Ucrânia é de cerca de 40 milhões de pessoas – grande de acordo com os padrões europeus.

O exército da Ucrânia é o terceiro maior da Europa depois dos da Rússia e da Turquia – entre 220.000 e 240.000 soldados. As despesas militares da Ucrânia em porcentagem do PIB foram de quase 6% (no nível de Israel), as forças armadas foram modernizadas, e Kiev adquiriu sistemas armados modernos do Ocidente. O secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg destacou diretamente que os instrutores ocidentais tinham treinado dezenas de milhares de soldados ucranianos. Bombeando armas para a Ucrânia, o Ocidente procurou criar um contrapeso para a Rússia, enfrentando-a de uma forma que absorvesse completamente sua atenção e recursos – semelhante ao confronto do Paquistão com a Índia.

Há algumas semanas, os extrovertidos russos chamaram o secretário de defesa do Reino Unido e, em nome do primeiro-ministro da Ucrânia, perguntaram como a Grã-Bretanha reagiria caso eles planejassem criar armas nucleares na Ucrânia. O secretário respondeu que o Reino Unido sempre apoiaria seus amigos ucranianos.

Para muitos, parece que o Ocidente nunca permitiria à Ucrânia obter suas armas nucleares, mas é bem provável que o Ocidente reagiria da mesma forma que no caso de Israel: formalmente, o país não tem armas de destruição em massa, mas, como disse um líder israelense, “caso necessário, as utilizaremos”. Metaforicamente falando, podemos dizer que os americanos colocam um colete à prova de balas nos ucranianos, dando-lhes um capacete e empurrando-os em direção à Rússia: “Sucesso, meu amigo”. Em última análise, tudo isto levou a uma relação de dependência unilateral. A Ucrânia é altamente dependente do Ocidente, mas este não planeja apoiá-la sistematicamente para sempre.

Como se comportariam os americanos se a Rússia respondesse com uma ameaça comparável? Numa das audições no Senado dos EUA, o almirante Kurt W. Tidd declarou que “a Rússia está expandindo sua presença na região, competindo diretamente com os EUA por influência em nosso hemisfério”. Imagine se a Rússia começasse a interagir com o México da mesma forma que o Ocidente está agora comportando-se com a Ucrânia: inesperadamente para os americanos, o México começa a militarizar-se rapidamente, pensa em seu próprio programa de mísseis, sobre armas nucleares. Os mexicanos recordam-se das controvérsias do século XIX, quando o Texas ainda não fazia parte dos Estados Unidos. O que fariam os Estados Unidos, dados os recentes vazamentos de informação sobre o desejo do ex-presidente Donald Trump de invadir a Venezuela “devido a uma ameaça à segurança regional”?

Estamos provavelmente no ponto de partida de uma crise em desenvolvimento, e não perto de seu fim. A primeira proposta diplomática que a Rússia fez no início da crise foi que a Ucrânia permanecesse neutra, que a Crimeia fosse reconhecida como território russo, e que as repúblicas do Donbass fossem reconhecidas como independentes. Em resposta a estas exigências, a Ucrânia apresentou sua própria proposta: a repatriação completa de seu território pré-2014 e nenhum passo em direção à Rússia. A maximização das exigências ucranianas significa que ainda não foi encontrado um ponto de equilíbrio na campanha militar em curso. No entanto, tem suas próprias opções de desdobramento.

No primeiro cenário, o atual governo ucraniano e a Rússia celebram um pacto que leva em conta as exigências russas, e estes compromissos são reconhecidos pelo Ocidente como parte de um acordo do pacote de segurança europeu. A crise russo-ucraniana daria lugar a uma confrontação político-militar russo-ocidental, semelhante à Guerra Fria.

O segundo cenário assume o desenvolvimento de acontecimentos sob a influência da situação militar no terreno. Como resultado, ou é inevitavelmente encontrado um equilíbrio, ou prevalece uma das partes. Neste caso, há riscos de o Ocidente não reconhecer os resultados do acordo, e surgirá um novo governo ucraniano, ao qual o governo no exílio se oporá. Do Ocidente, haverá um sistema de apoio aos subterrâneos ucranianos, semelhante ao que existia no Ocidente da Ucrânia nos anos 1950.

O terceiro cenário envolve uma forte escalada da tensão entre a Rússia e o Ocidente. É possível que a crise se espalhe para os países da OTAN ou que a escalada das sanções à Rússia devido à guerra prossiga na esperança de abalar as fundações do Estado russo. Neste caso, os riscos de uma colisão nuclear aumentarão. Contudo, até agora, vemos que os líderes ocidentais se distanciam de tais planos e dizem que não enviarão forças da OTAN para este conflito. No entanto, temos visto repetidamente como o Ocidente cruza suas próprias “linhas vermelhas” – isto pode realmente acontecer de novo.

*Andrey Sushentsov é professor do Instituto de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal RT.

 

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