José Celso Martinez Corrêa (1937-2023)

Imagem: Reprodução Instagram
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Por RODRIGO DE FARIA*

O Brasil de Zé Celso teve um papel central no concerto internacional das utopias e experiências que projetavam uma transformação profunda do próprio país e do mundo

Em A era dos extremos, o historiador Eric Hobsbawm defendeu a ideia de que o século XX teria sido muito breve, além de um século repleto de atrocidades produzidas e colocadas em prática pela mente humana. É difícil não ser cooptado por esses dois grandes eixos estruturantes do seu argumento geral, especialmente quando pensamos nas duas Guerras Mundiais, no Holocausto, no Muro de Berlin, nas Ditaduras Civil-Militares que devastaram a América Latina, no neoliberalismo, entre tantas outras tragédias que caracterizam o Século XX.

No entanto, o mesmo Século XX é o contexto histórico de muitos projetos transformadores, revolucionários muitos deles, mesmo com todas as contradições que os caracterizam. E isso em todas as áreas de atuação dos homens e mulheres que viveram e ainda vivem tal século: nas artes, na política, na economia, na arquitetura e urbanismo, na geografia, na cultura de um modo geral. E sem necessariamente concordar com a ideia da brevidade do século XX, o que a morte de Zé Celso, na manhã do dia 6 de julho de 2023, nos diz, é que o complexo e contraditório século XX vai, aos poucos, fechando suas cortinas. O teatro político-cultural desse século intensão aos poucos apaga as luzes de todos os seus cenários.

Um olhar atento ao século XX e rapidamente nos defrontamos com inúmeras experiências que sonharam um mundo diferente do que hoje vivemos em meio à (re)ascensão de uma extrema direita nazifascista em todos os cantos do mundo. Revolução mexicana, revolução russa, a experiência intelectual-revolucionária de Rosa Luxemburgo na Alemanha, a revolução cubana, essas no campo da história política. No campo das artes, da arquitetura e do urbanismo, podemos pensar nas vanguardas artísticas do início do século XX – com todas as suas contradições, como as que envolvem o Futurismo Italiano –, a criação da Bauhaus na Alemanha, a revolução musical desde Arnoldo Schömberg, passando por John Cage e György Ligeti. Em diversos outros campos, como o cinema, a dança, o teatro, a literatura etc., muito se produziu no tal curto século XX.

O Brasil de Zé Celso teve um papel central no concerto internacional das utopias e experiências que projetavam uma transformação profunda do próprio país e do mundo no Século XX. A Semana de Arte Moderna na década de 1920, a Antropofagia, a música de Gilberto Mendes, o Cinema Novo, a Arquitetura Moderna brasileira, a literatura concretista dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Guimarães Rosa, o Tropicalismo e o radical purismo das cordas do violão de João Gilberto, a poesia arquitetural de Lina Bo, as cenas brasileiras de Tarsila do Amaral, as vozes exuberantes e doces de Elis Regina e Cássia Eller, as poesia-músicas de Cazuza e Renato Russo. Todas essas pessoas viveram (muitos e muitas ainda vivem) e ajudaram a construir o Brasil, incluindo Zé Celso.

Zé Celso viveu não só o século XX, sua existência continuava ainda mais potente no atual século XXI. Sua vida foi e será sempre um radical ritual sacro-profano, exuberante e explícito, um bacanal poético-humano. Araraquara, São Paulo, o mundo, local e universal, nacional e cosmopolita, todas essas dimensões estão sobrepostas em seu teatro-cidade. O Brasil está impregnado de seu teatro-ofício-oficina, um país que foi deglutido e revirado em seus inúmeros rituais teatrais. Zé Celso nos colocou despidos diante de nós mesmos, de todos os profundos preconceitos naturalizados pela sociedade brasileira.

Seu teatro é dramático, é cômico, é irônico, é profano, é sagrado, é radical, é intransigente, é erótico, é carnal, é tátil, é político, é “tudo ao mesmo tempo agora”. A experiência de vivenciar um de seus rituais teatrais é algo que fica na memória de qualquer pessoa, como foi a experiência que muitos puderam disfrutar na estreia do espetáculo As Bacantes em 1995 no belíssimo e pouco conhecido Teatro de Arena de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Foi lá no Teatro de Arenas – antes mesmo de sua estreia no Teatro Oficina em 2 outubro desse ano de 1995 –, nesse que é um dos mais belos espaços cênico-arquitetural ao ar livre de todo o país que, por horas e horas, pudemos experimentar tudo o que é o teatro de Zé Celso. O bacanal de As Bacantes no espaço cênico-arquitetural que nos remete ao mundo clássico greco-romano só poderia ter sido conduzido pela poética sacro-profana de Zé Celso.

Infelizmente, o mesmo fogo que um dia destruiu sua casa-teatro, o Teatro Oficina, destruiu sua casa-morada e nos fez órfãos daquele que ousou nos despir de nós mesmos, daquele que nos colocava em “transe” em nossa própria “terra”. Vinte anos atrás, em 2003, morreu outro revolucionário, Haroldo de Campos, o profano-poético “inventalínguas” das infinitas “Galáxias” que não (se) cansava de (se) (re)inventar o Brasil com sua poesia-prosa. Entre a morte de Haroldo e morte de Zé Celso, o vazio que nos deixa sem “palavra”, esse objeto-matéria estrutural da poesia e do teatro.

Felizmente, Haroldo de Campos e Zé Celso, como muitos e muitas outras pessoas cujas vidas são meteoros que devastaram nossas hipocrisias e preconceitos, nunca foram unicamente pessoas, pois eles são uma ideia, e as ideias nunca morrem. As ideias são existências que nos fazem (re)pensar o mundo, o Brasil, cada um de nós.

Se um dia, como poeticamente formulou Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso ficou “pelado por bacantes” numa cena do mesmo espetáculo As Bacantes durante o Rio Cena Contemporânea em julho de 1996, por certo que podemos afirmar em alto e bom som, sem qualquer receio, que Zé Celso ficou “pelado pelo Brasil”. Ao que nos resta, nos apropriando da ideia de Adriana Calcanhoto, que sugeriu que devemos “comer Caetano”, vamos comer Zé Celso, vamos degluti-lo, mastigá-lo, banquete-ê-mo-nos do bacanal que ele sempre nos ofereceu com sua vida.

*Rodrigo de Faria é professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).


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