Lugares periféricos, ideias modernas

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Por MARCELO RIDENTI*

Considerações sobre o livro recém-lançado de Fabio Mascaro Querido

Dos anos 1990 a meados dos 2010, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido dos Trabalhadores (PT) foram os principais protagonistas e adversários na cena política nacional, como se sabe. Ambos vinham da oposição à ditadura e eram críticos da política anterior ao golpe de 1964, considerada populista. Menos conhecida é a base intelectual dessa disputa, cuja história é o tema de Lugares periféricos, ideias modernas.

A obra propõe que ela teve origem nos debates acadêmicos em São Paulo a partir do final dos anos 1950, particularmente no “seminário d’O capital”, liderado pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso e pelo filósofo José Arthur Giannotti, de que fizeram parte seus colegas da Universidade de São Paulo (USP), o historiador Fernando Novais, o sociólogo Octavio Ianni, a antropóloga Ruth Cardoso, o economista Paul Singer e os jovens estudantes de ciências sociais Roberto Schwarz, Michael Löwy e Francisco Weffort.

Todos figuras-chave da “tradição crítica paulista”, que foi ganhando destaque nacional no contexto de combate à ditadura e posterior redemocratização que os levou a caminhos intelectuais e políticos distintos, mas assentados sobre uma base comum que se tornava predominante na interpretação da sociedade brasileira.

Formava-se o “marxismo acadêmico”, pretendendo-se cientificamente rigoroso e politicamente radical. O intuito era superar as correntes intelectuais nacional-desenvolvimentistas hegemônicas até 1964, ancoradas em instituições como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), e o Partido Comunista Brasileiro, com forte influência nos meios intelectuais e artísticos.

“Do alto de seu provincianismo”, os acadêmicos paulistas consideravam-se “artífices de uma modernidade de coloração mais universal, em oposição à modernidade nacional ou nacionalista almejada pelos intelectuais vinculados ao ideário nacional-desenvolvimentista”, estes atuantes sobretudo no Rio de Janeiro. Os paulistas apontavam os equívocos das análises dualistas que contrapunham a modernidade ao atraso, o desenvolvimento ao subdesenvolvimento, o interno ao externo, a mostrar – cada autor a seu modo e dialogando com os pares – que os polos dessa dualidade seriam inseparáveis na formação social brasileira, periférica e por isso mesmo com o melhor ângulo para observar criticamente o capitalismo como sistema mundial.

Aos poucos, com clareza, o autor Fabio Querido vai introduzindo personagens atuantes em São Paulo ao longo dos anos: Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Francisco de Oliveira, Marilena Chaui, Paulo Arantes e tantos cujas obras principais foram comentadas sinteticamente, em debate umas com as outras. O livro não se propõe a interpretar o conjunto da vida intelectual brasileira, mas, ao fazer o mapeamento inédito e muito bem realizado da tradição acadêmica paulista, ajuda a iluminar o cenário mais abrangente, pois intelectuais de vários estados e de orientações teóricas diversas comparecem como interlocutores.

O livro analisa ainda o segundo seminário d’O capital, já no contexto da ditadura. Alguns haviam participado do primeiro seminário, a que se juntaram acadêmicos como Ruy Fausto, Emília Viotti, Emir Sader, João Quartim e Sergio Ferro. Houve casos de prisão e tortura. Roberto Schwarz foi constrangido ao exílio, e sua trajetória serve de “fio vermelho” condutor da análise proposta no livro, com atenção ao conjunto de sua obra, lida à luz de Theodor Adorno e outros autores caros a Roberto Schwarz, e também de pensadores pouco próximos, notadamente Antonio Gramsci, num dos trechos mais criativos do texto, ao apontar afinidades inesperadas de abordagem da questão nacional.

Em 1969 surgiu o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), após a expulsão da universidade de professores considerados subversivos. Novamente liderado por Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Giannotti, com financiamento da Fundação Ford, o novo centro agregava antigos membros do seminário d’O capital, como Paul Singer e depois Otávio Ianni, além de novos integrantes, como o pernambucano Francisco de Oliveira.

O Cebrap desempenharia papel fundamental na redemocratização, ao ligar-se ao MDB de Ulisses Guimarães antes das eleições surpreendentemente bem sucedidas para o Congresso em 1974. Foi o primeiro passo para a entrada de Cardoso na vida política institucional que o conduziria a senador suplente nas eleições de 1978, em carreira que culminou com a presidência da república anos depois. Era apoiado por amigos dos velhos tempos do seminário e do Cebrap.

No seio desta instituição também estiveram cientistas sociais que integrariam o PT, como Francisco Weffort, que deixaria o Cebrap em 1976, ajudando a criar o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), afinado com os chamados novos movimentos sociais, pensando a política a partir das bases da sociedade, e não do Estado. Francisco Weffort teria papel importante na direção do PT, partido que deixaria para participar do ministério de FH Cardoso.

Uma contribuição da obra é pensar os anos 1980 como “a década que não estava perdida”, destacando o florescimento do debate intelectual subjacente ao processo que daria luz aos partidos nascidos em São Paulo que dominariam a cena política a partir da década seguinte, PSDB e PT, dividindo os intelectuais que andaram juntos na oposição à ditadura. De um lado os que viam a necessidade da composição pluriclassista para consolidar a democracia, do outro os contrários à “transição pelo alto”, valorizando as lutas sociais por direitos, com uma franja de autonomistas como Marilena Chauí, Eder Sader e Marco Aurélio Garcia.

Eles questionavam as vanguardas leninistas, o sindicalismo estabelecido e o delineamento da vida social pelo Estado, apostando na auto-organização dos trabalhadores fora das instituições, com a entrada em cena de novos personagens das classes populares. Essa corrente perdeu espaço, pois a institucionalidade logo predominaria na política.

Os anos 1990 seriam dominados pelo “espectro neoliberal” após o fim do socialismo na Europa, e o intelectuais paulistas se dividiriam entre “adaptados e resistentes”. Os primeiros conduzidos por Fernando Henrique Cardoso, que formou “uma coalizão liberal-conservadora à qual caberia preparar o país para a inserção vantajosa no mundo globalizado”. Já os resistentes estavam com o PT, alguns deles agrupados no Centro de Estudos de Direitos de Cidadania (Cenedic) da USP, caso de Francisco de Oliveira, que se tornaria um dos críticos mais ácidos de seu antigo partido quando o PT foi moderando as posições até eleger Lula presidente. Por sua vez, revendo o passado dos intelectuais paulistas de seu grupo, Roberto Schwarz constatou que uma parte deles, almejando salvar o país, acabou salvando o capitalismo neoliberal à brasileira.

Parece pertinente a proposta do livro de estabelecer o seminário d’O capital como a origem do marxismo acadêmico, apesar da mitologia a respeito, contestada pelos que não participaram dele, como aliás a obra não ignora. Afinal, foi um grupo pioneiro de universitários destacados propondo usar o materialismo histórico de modo original para interpretar a sociedade brasileira, que teria forte impacto na vida acadêmica e política do país.

Mas não seria fora de propósito recuar um pouco no tempo e ver as conexões, por exemplo, com intelectuais da esquerda democrática surgida no fim do Estado Novo, que viria a constituir o Partido Socialista Brasileiro (PSB). O mesmo viés anti-Vargas e crítico do Partido Comunista e dos nacionalistas estava presente por exemplo em Mario Pedrosa, Antonio Candido e Sergio Buarque, ligados ao antigo PSB, que não por acaso viriam a ser adeptos de primeira hora da criação do PT em 1980.

Sob uma perspectiva da nova geração, Fabio Querido ajuda a recolher e colar os cacos da tradição intelectual de que é um dos herdeiros, passo indispensável para compreender o poço escuro e sem fundo em que a sociedade brasileira veio parar no atual contexto de rápido avanço da barbárie em escala planetária.

*Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de O segredo das senhoras americanas: intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria cultural (Unesp). [https://amzn.to/4hFh7CE]

Referência


Fabio Mascaro Querido. Lugares periféricos, ideias modernas – aos intelectuais paulistas as batatas. São Paulo, Boitempo, 2024, 288 págs. [https://amzn.to/3CtWtX9]

Postado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.


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