Pensamentos ocidental e oriental

Imagem: Darya Sannikova
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Por SAMUEL KILSZTAJN*

No ocidente, os cursos de filosofia normalmente restringem-se ao estudo da filosofia ocidental. Na China, por sua vez, o estudo da filosofia abrange o confucionismo, o taoísmo e o budismo, além do marxismo-leninismo-maoísmo

Do ponto de vista oriental, os monoteístas judeus, cristãos e muçulmanos são tudo a mesma coisa; e, do ponto de vista ocidental, hinduístas, budistas, taoístas, xintoístas e confucionistas também. Metade da população mundial é monoteísta, concentrada na Europa, Américas, África e Oriente Médio. A Índia é hinduísta e o Extremo Oriente e Sudeste Asiático são budistas e taoístas (o xintoísmo japonês e o confucionismo chinês são pouco expressivos). As estimativas para a China, particularmente, são muito contraditórias. De acordo com os dados oficiais, a grande maioria dos chineses se declara ateu, mas diversas outras estimativas consideram que a grande maioria dos chineses professa o budismo, o taoismo ou outras crenças populares.

No ocidente, os cursos de filosofia normalmente restringem-se ao estudo da filosofia ocidental. Na China, por sua vez, o estudo da filosofia abrange o confucionismo, o taoísmo e o budismo, além do marxismo-leninismo-maoísmo.

O budismo é particularmente presente no ocidente como religião ou filosofia de vida, mas não integra o curriculum da universidade, que o entende como místico, esotérico. Se considerarmos que a hegemonia da civilização e do pensamento ocidental está em crise, seria interessante incluir no curriculum de filosofia o estudo do pensamento oriental. E uma possível ponte entre os pensamentos ocidental e oriental seria Baruch de Spinoza.

Conta-se que o rei Suddhodana criou o seu filho Sidarta Gautama em uma redoma de vidro, para protegê-lo de ser afetado pelos sofrimentos humanos – só alegrias! E Sidarta se transformou no Buda quando, por acaso, ao sair do palácio, se deparou com a doença, a velhice e a morte. (Morar em condomínios fechados e frequentar shopping centers seria uma forma dos pais abastados protegerem seus filhos de serem afetados pelos sofrimentos humanos? Reprimir manifestações antissionistas seria uma forma do mundo ocidental evitar ser afetado pelo sofrimento dos palestinos?)

Os budistas buscam alcançar a equanimidade e o desapego, se libertar do desejo de sensações agradáveis e ojeriza a sensações desagradáveis, que nos proporcionam prazer, alegria, sofrimento e tristeza. Estar à mercê das sensações agradáveis e desagradáveis é permanecer na ignorância e no sofrimento. A impermanência, ademais, é um conceito chave. “Isto também vai passar…” é utilizado tanto para situações agradáveis como desagradáveis. No catolicismo, há sete pecados capitais (fundamentais), avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba/vaidade. São capitais porque é a partir deles que a pessoa pode incorrer em pecados mortais. Para o budismo, contudo, o principal desafio é livrar-se da soberba/vaidade, isto é, do ego. O ego seria a base de todos os demais seis pecados capitais. Diluído o ego, não há mais espaço para avareza, gula, inveja, ira, luxúria e preguiça.

O processo de libertação do ego e das sensações mundanas, normalmente, privilegia a prática da meditação. Procura-se não reagir às sensações agradáveis e desagradáveis, permanecer equânime durante a meditação, para poder viver em equilíbrio tanto os períodos de glória como as adversidades da vida. Saber ganhar para saber perder, aprender a ser modesto em tempos áureos, de sucesso, para não sofrer em tempos difíceis. Os taoístas também procuram desenvolver a não reação.

O Tao Te Ching de Lao-Tsé refere-se ao Tao como incognoscível, insondável, inconcebível e inominável. “Não sabemos…” é a sua melhor expressão. Só sabemos que “todos os vivos nascem e morrem, mas a vida é imortal”. Neste sentido, o budismo e o taoísmo poderiam ser considerados agnósticos.

Spinoza

No século XVII, Baruch de Spinoza cometeu o sacrilégio de ousar questionar dogmas religiosos, afetando estruturas e instituições. Por esta ousadia, Spinoza foi muito afetado em vida e, categoricamente, segue nos afetando… eternamente.

Aos 24 anos de idade, em 1656, Baruch de Spinoza foi amaldiçoado e heremizado (excomungado) pela religião judaica: “… ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito, nem lhe dar nenhum favor, nem debaixo de teto estar com ele, nem junto de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele.”

Em seu Tratado teológico-político, publicado de forma anônima em 1670, Benedictus de Spinoza se aventurou a denunciar a redação profana do Antigo Testamento (em 1679, o Tratado foi incluído no índice dos livros proibidos pela Igreja Católica). A Ética, sua obra máxima, só foi publicada em 1677, um ano após a sua morte.

Por ousar investigar a natureza divina, Baruch de Spinoza foi considerado ateu (e os ateus celebram a sua companhia). Entretanto, Deus está afirmativamente presente e perpassa toda a sua obra, associado a termos como natureza, eterno, imortal, infinito, essência etc. “… Deus, à medida que se ama a si mesmo, ama os homens…” (Ética V:36). Em vez de ateu, Spinoza, assim como o budismo e o taoísmo, poderia ser melhor caracterizado como agnóstico (Einstein costumava dizer que acreditava no Deus de Spinoza).

O termo afeto é normalmente associado a uma manifestação positiva. Para a manifestação negativa de afeto usa-se o termo desafeto. Afetar, por sua vez, é geralmente empregado em sentido negativo. Contudo, afetar e ser afetado podem incorporar cargas positivas ou negativas. Afeto, mais propriamente, seria a manifestação de qualquer sentimento através de sons, palavras, gestos e outras formas de expressão. Uma pessoa pode afetar outras em relações pessoais, assim como por manifestações que transcendem a sua presença e sua própria vida. Manifestações artísticas, literatura, música e artes visuais são formas que podem afetar gerações. Quem não se encanta com Sófocles, Bach e Van Gogh?

E o afeto não se restringe a relações humanas, você pode ser afetado e afetar o meio ambiente. Pode se enlevar com o canto de um pássaro, o raiar do dia, o mar batendo na costa, o suave impacto da brisa embalando a copa de uma árvore e o desabrochar de uma flor. Pode também provocar a destruição de espécies animais, florestas, rios, montanhas e causar crises climáticas.

A capacidade de afetar e ser afetado é um conceito chave empregado por Baruch de Spinoza, que se refere a três gêneros de conhecimento, dos sentidos, da razão e o intuitivo. Afetos positivos geram alegria, aumentam a nossa potência de agir e são úteis à conservação do nosso ser; afetos negativos geram tristeza, reduzem a nossa potência de agir e são nocivos à conservação do nosso ser. Porém, o conhecimento propiciado pelos sentidos (o primeiro gênero de conhecimento) é truncado, confuso, desordenado e falso. O ser humano, governado por afetos positivos e negativos, não é autônomo, está à mercê de suas paixões (Ética IV: Prefácio). Embora consciente, ignora a causa dos seus desejos, não tem controle sobre seus desejos e ações. Mesmo sabendo o que seria o melhor, muitas vezes acaba sendo arrastado a fazer o pior.

Aqui é manifesto o paralelo entre o pensamento budista (estar à mercê das sensações agradáveis e desagradáveis) e Spinoza (ser governado por afetos positivos e negativos). Estamos diante de uma mesa farta, sabemos que não devemos nos empanturrar, isto vai prejudicar a nossa digestão, vai gerar outros problemas de saúde, vai nos tornar obesos e dificultar a nossa mobilidade – mas continuamos desejando, impelidos a nos fartar e nos atulhamos assim mesmo, sem saber porquê e sem poder refrear o nosso comportamento. O mesmo vale para o excesso de álcool e outras drogas. Sexo então?! Como resistir a esta paixão que, dependendo do enredo, pode arruinar a sua vida e a de outras pessoas? Embarcar em uma guerra suicida (ligue a sua TV)?

“A maioria dos homens, com efeito, parece crer que é livre à medida que lhes é permitido obedecer às suas paixões.” (Ética V:41). De acordo com Spinoza, o homem só se sujeita a reprimir suas paixões por temer as leis de sua religião e do estado – precisa do estado não apenas para salvá-lo dos outros, mas também de seus próprios impulsos e para capacitá-lo a viver uma vida de razão.

Raras são as pessoas que usam a razão (o segundo gênero de conhecimento), isto é, não se sujeitam às paixões de alegria e de tristeza. Aqui, o uso da razão em Spinoza para se livrar das paixões guarda relação com a prática da meditação budista para desenvolver a equanimidade e se livrar do apego às sensações mundanas, da ignorância e do sofrimento.

Viver sem apego não significa alienação. Budistas e taoístas procuram assegurar o equilíbrio frente às vicissitudes da vida, agir sim, mas não por reação, não se deixar levar, ser dono de seus atos. Da mesma forma, viver com desapego não é privar-se das emoções, viver sem prazer. Ao contrário, viver com desapego é viver plenamente os prazeres e as alegrias que a vida nos oferece.

Aproveito a oportunidade para fazer um tributo a Antonio Candido de Mello e Souza, que sempre foi muito cordial e afetuoso. Ele explicou para a sua neta Maria Clara Vergueiro que não era afetivo, era afetuoso, o que pode soar algo antipático – “eu não tenho ódio das pessoas, não quero mal às pessoas, também não quero muito bem, não tenho necessidade das pessoas [que é o conceito de desapego]”. Entretanto, Antonio Candido sempre foi tão generoso e solícito que tudo de bom que acontecia na Faculdade de Filosofia da USP era invariavelmente atribuído a ele. Era mesmo comum ele ser parabenizado por realizações de que sequer tinha tomado conhecimento.

Assim como as religiões orientais não-monoteístas (todos os vivos nascem e morrem, mas a vida é imortal), Baruch de Spinoza contrapõe os seres vivos (mortais) à vida que segue (imortal). Spinoza entende a eternidade como a própria existência, essência sem duração e sem tempo. Aquele que se guia pelos sentimentos, pelas paixões, agita-se em vão e vive reagindo a estímulos externos, numa inconsciência quase completa de si mesmo, sem jamais experimentar o verdadeiro contentamento interior. A partir da intuição (o terceiro gênero de conhecimento), o ser humano (finito) é capaz de atingir a consciência de si mesmo, o verdadeiro contentamento e a eternidade (infinita). “Quanto maior é o número de  coisas que a alma compreende pelo segundo e pelo terceiro gênero de conhecimento, menos ela é afetada pelas afecções más e menos teme a morte.” (Ética V:38). E neste particular, mais uma vez, não temer a morte, para o budismo, é viver a vida em sua plenitude.

Em várias situações, não nos é possível evitar sermos afetados negativamente, seja por estarmos sendo vítimas de algozes sanguinários, seja encarcerados por regimes ditatoriais, ou pelo isolamento durante epidemias. Mas, mesmo nesses casos, impõe-se a alegria de viver.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os guetos continuaram promovendo intensa vida cultural e artística. Munidos por uma força descomunal, todos aqueles que sobreviveram ao aviltamento sofrido nos campos de concentração se transformaram em verdadeiros militantes da vida.

Apesar da ditadura militar, o Brasil entre 1964 e 1985 viveu uma efervescência cultural. Os presos políticos, dentro dos estreitos limites do cárcere que os asfixiava, exerciam a sua liberdade fazendo exercícios físicos, yoga, desenhando, lendo e estudando sozinhos ou com o auxílio dos muitos especialistas presos.

Durante a pandemia do coronavírus, um primo meu, incorrigível otimista, caiu em depressão. Para agradá-lo, montei um álbum com algumas fotos do cotidiano com minhas filhas em prisão domiciliar, nossas atividades e artefatos produzidos. Ele respondeu que parecia que estávamos gostando da quarentena.

Spinoza conclui a Ética com a proposição “A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não gozamos dela por refrearmos as nossas paixões, mas, ao contrário, é porque gozamos dela que nos é possível refrear as paixões”. (Ética V:42).

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Do socialismo científico ao socialismo utópico. [https://amzn.to/42Yd5AZ]


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