Por RÜDIGER DANNEMANN*
A luta pela preservação do legado de György Lukács na Hungria de Viktor Orbán, desde o fechamento forçado de seu arquivo pela academia estatal até a recente e esperançosa retomada do apartamento do filósofo pela prefeitura de Budapeste
György Lukács faleceu em 1971. No mesmo ano, o arquivo do filósofo húngaro e fundador do marxismo ocidental foi instalado em seu apartamento em Budapeste. Por décadas, ele serviu como e recurso e porta de entrada para sua obra e às questões fundamentais da teoria marxista. Essa instituição encontra-se atualmente fechada há dois mil e setecentos dias.
Seu declínio tem início com a mudança de governo na Hungria, em 2010. Um ano depois, acadêmicos japoneses escrevem na “Declaração sobre a situação da crise na Hungria” após nova vitória de Viktor Orbán: “Nós também estamos preocupados com o futuro do Arquivo Lukács”. Eles chamavam atenção para a preservação “e a proteção da atividade acadêmica independente”.
Quando, no mesmo ano, a Sociedade Internacional Georg Lukács (International Georg Lukács Society) publica um apelo urgente contra as medidas que estavam sendo tomada naquela época – os afetados falavam em “violento ataque” – contra o arquivo e sues empregados, houve uma forte demonstração de solidariedade.
Acadêmicos e autores ao redor do mundo, incluindo Iring Fetscher, Timothy Hall, Wolfgang Fritz Haug, Axel Honnet, Michael Löwy, Oskar Negt, Nicolas Tertulian, e Michael J. Thompson, requisitaram ao então diretor do arquivo e para o presidente da Academia Húngara de Ciências com um “pedido de esclarecimento e retirada de todas as medidas restritivas”.
Uma resolução amigável fracassou
Protestos da comunidade científica internacional tiveram o efeito de adiar o fim, mas acabaram por não ter sucesso. Encorajados pela onda internacional de protestos, a Fundação Internacional Arquivo Lukács (International Lukács Archive Foundation) foi fundada em Budapeste em 2016 por professores universitários, editores da revista Eszmélet, e pelos antigos empregados do Arquivo Lukács. A fundação foi uma resposta à decisão pela Academia Húngara de Ciências em eliminar o arquivo.
Não obstante, em maio de 2018, o arquivo foi fechado de fato e o importante patrimônio de György Lukács foi removido, provocando uma ainda maior onda internacional de protestos. Até mesmo o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung noticiou o caso. Mais ou menos na mesma época, o monumento no Parque Szent István foi removido.
Haviam sinais crescentes que a biblioteca do filósofo, a qual permanecia no apartamento de György Lukács no Danúbio, também seria afetada, selando assim o destino do arquivo – especialmente porque o arquivo virtualmente não utilizado estava claramente em condições de deterioração.
Em dezembro de 2024, Frank Fishbach (Sorbonne) e outros colegas franceses intervieram contra a venda do histórico apartamento onde György Lukács tivera animadas discussões com Agnes Heller e os outros membros da Escola de Budapeste. Rudi Dutschke tinha buscado ali conselhos do velho revolucionário durante a revolta estudantil. Um final feliz parecia fora de questão.
Mas ainda há esperança
Atualmente há desdobramentos positivos a relatar sobre o caso do Arquivo Lukács em Budapeste. Após os dolorosos anos de declínio e fechamento, se espera que o arquivo continue seu trabalho num novo reordenamento institucional, nomeadamente sob a administração dos Arquivos da Cidade de Budapeste.
O governo municipal da esquerda ambientalista planeja assumir o controle do apartamento, onde se encontra o arquivo, da Academia Húngara de Ciências e sua biblioteca. Até o presente momento, o direito de aluguel do apartamento já foi adquirido. O objetivo da cidade é renovar o apartamento na Belgrád Rakpark 2 e torna-lo acessível novamente à comunidade acadêmica, para que o legado de György Lukács e seus alunos possa ser preservado.
O fato de que os Arquivos da cidade de Budapeste tenham se apropriado do apartamento de György Lukács é uma boa notícia para a comunidade científica internacional, a qual protestou por um longo período contra o fechamento dos arquivos na Hungria de Viktor Orbán. No entanto, há um lado ruim. Mesmo que os arquivos municipais tenham obtido sucesso na aquisição da biblioteca de Lukács da academia, os documentos de György Lukács – seus manuscritos, cartas e fotos – infelizmente permanecem na biblioteca da academia.
Ainda há muito a ser feito em outras áreas também. A reinauguração do apartamento de György Lukács, agendada para 2026, será um grande desafio para a cidade de Budapeste, que enfrente dificuldades financeiras e é desagravo de Viktor Orbán.
Como salienta László Gergely Szücs do arquivo da cidade, primeiramente o escritório de Lukács será retomado e aberto à visitação, enquanto as outras partes do apartamento irão hospedar programas, seminários universitários, debates, lançamento de livros, e mostras sobre György Lukács e a Escola de Budapeste.
Abri-lo como um centro de pesquisa com sua equipe própria ainda não está na agenda, mas ambos International Lukács Archive Foundation e os arquivos da cidade estão comprometidos em dar passos à frente na direção de operar como um centro de pesquisa.
Muito embora Miklós Mesterházi, assistente de pesquisa nos arquivos de 1978 a 2015 e membro do conselho de administração da International Lukács Archive Foundation, não queira falar em um final feliz sem reservas, tendo em vista as dificuldades, mas encara a situação com uma perspectiva otimista.
A estrutura internacional que agora está debruçada sobre promessas de “preservação digna do acesso à pesquisa e à herança intelectual do filósofo mundialmente famoso após longo período”. Isso porque o apartamento de György Lukács às margens do Danúbio se tornará um centro para workshops acadêmicos sobre György Lukács e sua escola, completando o atual “Projeto da Escola de Budapeste”.
László Szücs, que também é diretor do arquivo da Escola de Budapeste atualmente em construção, também vê oportunidades para uma conferência internacional sobre a Escola de Budapeste, em 2027. László Szücs espera que a ressureição do arquivo de György Lukács possa assim fazer parte e ser palco desta conferência de valor simbólico, quer Viktor Orbán goste ou não.
Preservação da memória
Sinais positivos a respeito da recepção de György Lukács também vieram de Heidelberg nos dias recentes. Em 20 de outubro a cidade onde o jovem György Lukács causou sensação junto de Ersnt Bloch no Círculo de Marx Weber e escreveu o clássico Teoria do romance celebra o Dia György Lukács. Esse evento foi apoiado pela Faculdade de Humanidades e Ciências Sociais, o Conselho de Estudantes de Filosofia, o Fórum de Doutorado, e o escritório municipal de cultura. A iniciativa para esse evento foi tomada por Hassan Maarfi Poor, um estudante de doutorado curdo-iraniano.
Axel Honneth, filósofo social da terceira geração da teoria crítica, enfatiza o significado do evento em um discurso comemorativo da estadia e do trabalho de György Lukács em Heidelberg, à luz dos ataques ao seu legado na Hungria: “Foi aqui que o jovem estudante, em constante troca com Max Weber, reuniu suas impressões teóricas mais poderosas; foi aqui que ele estabeleceu os fundamentos filosóficos para seu trabalho posterior. Alegremo-nos por ainda ser possível, na Alemanha, preservar a memória do desafiante legado de um espírito rebelde”. Nada há nada mais a acrescentar.
*Rüdiger Dannemann dirige a Sociedade Internacional Georg Lukács. Autor, entre outros livros, de Das Prinzip Verdinglichung: Studie zur Philosophie Georg Lukácsʼ (Sendler).
Publicado em The Left Chapter.
Tradução: Marco Aurélio Palu.
A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A





















