Estoicismo e mindfulness

Imagem: Jan Demiralp
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Por PAULO VITOR GROSSI*

Considerações sobre técnicas mentais para a sobrevivência humana no século XXI

1.

O estoicismo explora ideais de autocontrole, coragem e foco naquilo que realmente está sob nosso poder, que são as nossas próprias ações, o caráter de cada um. Percebe-se como as atuais técnicas do mindfulness e da atenção plena pegaram algo disso.

Como agir de acordo com o que prega a doutrina estóica? precisa saber focar no que pode ou não controlar na sua vida e não se deixar, por exemplo, arrastar por reclamações diante das circunstâncias que são assim mesmo, se mostram incontroláveis no que é a existência. Tudo é instável no universo, até se parar algo acima se movimenta! Sobre as coisas que são do jeito que são e as que não podemos mudar, ao menos podemos aprender a conviver, compreender como são e lidar com maturidade entre os assuntos e as questões.

As situações vêm e vão. Para aquilo que foge ao nosso controle, entendemos o seu significado e a impossibilidade de ação; para aquilo que podemos realmente interferir, intervir, também entendemos o significado como o lado positivo da vida, mas de nenhuma das duas faces nós somos afetados, nunca ficamos surpresos porque entendemos a razão do que nos compete.

Ao encarar uma perda, um estóico mantém a mente aberta, suas ações são com firmeza e dignidade, canalizando seu sofrimento e não se deixando levar pelas emoções que embaralham as decisões; não que seja desprezo ou apatia, não pense por esse lado, é compreender que nem sempre ganhamos, às vezes nos vemos em situações ruins e elas também fazem parte da vida.

Cabeça levantada. Desde as ideias herméticas de acima ou abaixo, o ser humano compreende a lei dos polos, do sim ou não, do bom ou mau, é o que as crianças já fazem por assimilação. Com isso, extraímos algo daquilo que invariavelmente ocorre a fim de obter maior conhecimento, autoconhecimento, novos conceitos que se somam e compõem nosso psiquismo.

É aquela coragem nas ações, enfrente cada desafio com determinação, você pode então encarar a oportunidade para agir com mais justiça, de acordo com a balança natural da existência. Ajuda na medida em que freia quaisquer atitudes tempestivas, intempestivas, desesperos ou crises de pânico, mas também nas decisões mais simples do dia a dia, como escolher com mais critérios aquilo que nos convém.

Estamos falando de um exercício de perseverança, de adaptação às circunstâncias, o controle das próprias emoções, a sua fortaleza interior. Se a pessoa tiver essa capacidade de extrair desses dados o melhor para si, a terapia teve já um sucesso, uma valia.

O indivíduo guiado pelo estoicismo procura fazer o que é necessário, mesmo diante da dor e do medo, mantém a mente voltada ao essencial para sobreviver. É a típica atitude de aceitar a realidade e agir de modo racional, dentro do possível. Toda essa linha de pensamento induz ao autocontrole, induz também a ter mais resiliência diante das variações que são normais no cotidiano, é que não devemos nos deixar abater ou mesmo diminuir, se é ruim é porque ela é desse jeito!

Quando não somos surpreendidos e temos subsídios para controlar a situação, fica mais fácil de manejar, temos mais bagagem emocional para lidar com as idas e vindas do mundo. A cultura popular entende e parafraseia a vida ser transitória, cheia de incertezas, não é nada novo. Procure manter a serenidade interior, tente uma conduta pautada na realidade. A filosofia fala da virtude, de agir com honra, faz sucesso até hoje porque tem mesmo os seus benefícios.

2.

Características estóicas:

Firmeza diante da adversidade: somos os protagonistas enfrentando situações-limite, sem desistir ou se deixar abater completamente pelo desespero; foco no que se pode controlar; nós nos concentramos nos próprios comportamentos, nas ações ou reações inerentes, aceitando que certos fatos externos são inevitáveis; autocontrole emocional; o estóico valoriza a lucidez mesmo em cenários, vamos dizer, turbulentos. Nós costumamos mostrar que, apesar do medo e da dor, preservamos a razão.

Viver da virtude: coragem, resiliência, honra, solidariedade, todos traços essenciais que se alinham aos valores estoicos de agir retamente, independentemente das circunstâncias, as boas ou as más; algo de estoicismo permeia o conceito subjacente do amor fati de Friedrich Nietzsche, em que a ideia mergulha na aceitação radical da vida do jeito que ela é, com suas dores, perdas, alegrias e imperfeições, sem ressentimento, negação ou arrependimento.

Ataraxia é um estado em que reina a serenidade, tranquila ausência de preocupação, paz interior ao se libertar de medos e ansiedades que permeiam a vida, se isso não nos lembra do Mindfulness eu já não sei! Não implica falta de sentimentos nem apatia, vejo como uma capacidade de lidar com as emoções de forma equilibrada, o meio pelo qual o indivíduo não se perturba, não se afeta pelas emoções, mantendo com isso a serenidade, a madura visão de mundo em que as coisas são como são, é isso, não se deve deixar atingir pelo que não temos real controle. Vejo como um norte, o positivo.

Os estóicos também viam a ataraxia como uma conquista, a aceitação do destino e prática da virtude, desenvolvendo então uma resiliência diante das adversidades que perpassam as situações da vida.

A escola estóica, do desprendimento e da ausência de paixões tolas, demonstra não se surpreender com as condições da vida, as variáveis, as condições inesperadas. Claro que o inesperado tem o seu efeito, assusta pela velocidade, porém o que se pretende é não se atingir. É assim mesmo, existem sim indiscriminados infortúnios durante a vida, é o porquê enfrentar as dificuldades, a disposição para a realidade nesse cenário do mundo, os recursos que a vida te reserva fazendo o seu melhor.

Em cada momento coisas acontecem. A filosofia não é mesmo o amor à sabedoria e o que nos acompanha lado a lado todos os dias? Se você também leva isso contigo, tem lá seus pensamentos, por que não se chamar também um estóico? A única diferença é que nenhum de nós usa toga!

3.

Eu vejo o sábio como um meditador, alguém que expande a mente para além do comum; e sobre usar a mente, olha, mais que faz jus às técnicas do mindfulness e da atenção plena. Pensar é o legal dessa história toda. Qualquer um de nós pode vir a ser sábio, ter atitudes sábias, desde que se proponha a isso, mas se proponha mesmo!

Até quando falamos, ah, o sábio isso ou aquilo, também parece distante da gente. Mas por que, que será que houve com o sujeito pensador? Você não pensa ser suspeito a figura do sábio deposta, ou mesmo tipificada? Vamos destrinchar, ser um sábio, possuir saber, tudo isso não é um aperfeiçoamento?

O sábio nada mais é que alguém maduro, mais que outros que transitam pelo óbvio, talvez por aí possamos entender o porquê de pessoas assim serem mal interpretadas em uma sociedade de pensamentos, atitudes, demonstrações rasas.

A vida no capitalismo não deixa muito tempo, muitas brechas à contemplação, por isso toda uma massa de sujeitos conduzidos por esse molde estranha aqueles que nadam contra essa corrente, que não querem saber da correria e sim dos termos que compõem a existência. Um sábio não se atém a futilidades, não vai querer saber de ir a um shopping em mero exercício de ostentação!

Quem sabe a manipulação do saber, da figura do conhecedor não seja ato também de injúria, inveja? Suspeitamos do sorrateiro, ao menos fiquem de olhos abertos para evitar a surpresa, estamos sempre praticando Mindfulness!

Com isso em mente, podemos transitar pelas palavras desses que perdura e é relido até nossos dias, estamos falando mais uma vez de Lúcio Aneu Sêneca, uma das maiores figuras da filosofia estóica.

Nas passagens a seguir que extraí de A constância do sábio, ele diz que “com seu empenho em alcançar coisas excelsas, ordenadas e intrépidas que evoluem em um ritmo igual e harmonioso, tendo por objetivo coisas seguras, plausíveis, direcionadas para o bem comum, enquanto saudáveis tanto para ele como para os demais, então com nada de desprezível o sábio se defronta, nem de coisa alguma sente carência”. Algo como o justo e o equivalente, o que há da balança das coisas, o indivíduo que percebe a sua inteireza.

“Todas essas coisas, ainda que assediem o sábio, não o afogam porque tais ocorrências não o entristecem, mesmo quando agridem com assaltos sucessivos. Posto que o sábio tolera, com controle, as injúrias oriundas da Fortuna, quanto mais então irá suportar as originadas de homens prepotentes que são meros instrumentos dela”. O estóico então é esse que não se abate.

 “Apensar dos golpes injuriosos, o sábio se mantém na tranquilidade da firmeza”. Isso quer dizer, psicanaliticamente falando, é o ego forte, não se abala e por isso se mantém no seu centro de apoio, manejo emocional fluindo. A fortuna é que assedia de todos os lados e “pressiona para o aviltamento”, podemos assim enxergar a fortuna como um dos instrumentos do ambiente. Então se você sabe onde pisa, pisa consciente.

“Em todo caso, Sêneca se adianta, o sábio não vive nem de expectativa ansiosa nem de temores. Ao deixar de lado nossos vícios, e eles são muitos desde que temos pessoas neste mundo, o sábio conquista a própria liberdade. Liberdade pode ser a consciência limpa, ‘em se desapegar das coisas exteriores de sorte a não viver preocupado’. Pode então ficar certo que “o sábio pertence àquela categoria que, com exercitação perseverante e rija, conseguiu fortaleza para resistir”.

4.

A constância do sábio então é se manter no posto o máximo que der! Aqui temos a praticidade estoica já bem empregada em nosso tempo, claro, se você quiser e tentar algo dela, mas não viver preocupado já é um avanço, já é sair da massa agitada, das dores a mais de cabeça.

“Porque o sábio é senhor de si! O sábio, na verdade, por ninguém se deixa menosprezar porque conhece sua dignidade e está convicto de que nada exerce domínio sobre ele. Também não existe virtude que não sinta o impacto da adversidade. E daí? Recebe, sim, golpes, mas tem como superar, curando e amenizando”.

O verdadeiro sábio também não fica ofendido por ser desacato por um adulto, quer dizer, um adulto assim infantilizado. Eu explico, nosso bom filósofo Sêneca escreve que “a mesma atitude que tomamos em relação às crianças, o sábio assume em face de todos que, após a juventude e já de cabelos brancos, persistem no infantilismo”. E não é infantil o sujeito que despreza a si, ao mundo, o seu lugar de atuação na existência?

“Por acaso estão amadurecidos esses indivíduos que ostentam todos os defeitos da idade pueril, acrescidos ainda de outros peculiares a seus erros pessoais? São indivíduos que se diferenciam das crianças apenas pela estatura e pelo formato do corpo, sendo que no resto são também divagantes e inseguros, meros apreciadores do prazer, sem critério para escolha. Em suma, indivíduos inquietos que se acomodam não pelo juízo e sim pela ameaça.

Não diria, ele continua a crítica, haver entre eles e as crianças diferença alguma, salvo o fato que essas são ávidas de brinquedos e brincadeiras enquanto aqueles cobiçam dinheiro, posses e terras. As crianças, nas praias, levantam montes de areia para simular casas; os adultos, à guisa de ocupados em tarefa importante, se dedicam a erguer pedras, paredes e tetos que, destinados para a proteção do corpo, na verdade se convertem em perigo, quando a finalidade era a salvaguarda”.

Portanto, no entender do Sêneca, “iguais são meninos e adultos, mas o erro destes incide em coisa de maior monta”. Duro relato.

Aqui temos um livrinho controverso, mas que podemos extrair algo de útil, em detrimento dos conceitos que hoje soam estranhos aos cidadãos do século XXI, sobretudo quando trata da escravidão e da figura da mulher.

Ainda damos um crédito ao autor porque era uma outra época, felizmente hoje podemos pescar o que de melhor nossa espécie produziu e seguir adiante com mais e mais conclusões, aperfeiçoando o molde humano no planeta Terra. Sim, sempre ao bem comum, toda essa junção do saber!

*Paulo Vitor Grossi é terapeuta neuropsicanalista.


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