Questões gramscianas

Nikita Kadan, A crônica, 2016
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Por PETER D. THOMAS*

Prefácio ao livro recém-editado de Gianni Fresu

1.

Antonio Gramsci se insere, sem dúvida, entre os maiores teóricos sociais e políticos europeus do século XX. Seu pensamento foi traduzido não apenas no sentido estritamente linguístico, mas também no sentido mais amplo de transposição cultural, comunicação e transformação, em numerosos contextos sociais e nacionais muito distantes do cenário cultural italiano do século passado em que se formou – desde a cultura do norte da Europa à anglosfera, da América Latina ao Japão, à China e ao mundo árabe.

Se comparados à recepção disciplinar relativamente limitada do pensamento de alguns de seus contemporâneos, por exemplo, à influência duradoura de Max Weber nas ciências sociais ou à importância de Carl Schmitt na teoria política e jurídica, os conceitos e perspectivas de Antonio Gramsci mantêm sua influência em uma ampla gama de âmbitos de pesquisa e estudo acadêmico, das ciências políticas à história e à geografia, da crítica literária à filosofia e às ciências da comunicação.

Além disso, diferentemente das ideias de muitos outros teóricos europeus de sua época, o pensamento de Antonio Gramsci foi inclusive criativamente estendido e transposto com o objetivo de compreender a história e o presente do pós-colonialismo, como no caso quase paradigmático daquilo que Frantz Fanon definiu como a necessidade de “ampliar” o marxismo para torná-lo pertinente às experiências do mundo colonial.

De qualquer ponto de vista, o autor dos “não autorizados” Cadernos do cárcere revela-se como alguém que elaborou uma teoria de relevância universal, comparável, em alcance, às de teóricos da modernidade política como Kant, Hegel e Marx.

O leitor deste livro se deparará com uma nova visão sobre as razões do persistente fascínio internacional exercido por Antonio Gramsci ou, para usar um de seus conceitos principais, de sua aparentemente inesgotável “tradutibilidade”.

2.

Entre os muitos méritos do estudo rigorosamente documentado de Gianni Fresu, destaca-se a forma enfática com que dirige nossa atenção para as condições histórico-sociais particulares da Sardenha, nas quais o pensamento de Antonio Gramsci se desenvolve entre o fim do século XIX e o início do século XX. Na descrição de Gianni Fresu, não encontramos simples anedotas biográficas imersas em uma moldura pitoresca, mas sim uma espécie de pré-história, em que Gramsci ainda não era verdadeiramente Gramsci.

As raízes profundamente sardas de sua formação moral e intelectual são aqui apresentadas com um nível extraordinário de detalhamento, a partir da perspectiva dos esquemas de recepção e reação dos grupos e das classes sociais subalternas sardas, desenvolvidos ao longo de séculos de resistência a formas brutais de exploração e dominação em termos materiais, políticos, espirituais e psicológicos.

Como repetidamente destacado por Gianni Fresu, a “questão sarda” possui uma especificidade e uma legitimidade históricas próprias, e não pode ser inteiramente reduzida aos termos da mais conhecida, e, pode-se sustentar, posterior, “questão meridional”, surgida com a unificação da Itália em meados do século XIX.

Muito antes de sua inclusão nos processos das unificações pie- montesa e italiana, séculos de colonizações de diferentes tipos marcaram o percurso anômalo da Sardenha rumo à modernidade política; certamente, sob muitos aspectos, o status peculiar da Sardenha (geograficamente no centro do Mediterrâneo, mas perpetuamente “periférica” em relação a suas mutáveis estruturas de poder e a seu status variável) a caracteriza como uma espécie de “laboratório” no qual foram ensaiadas numerosas experiências, técnicas e conflitos que marcariam os séculos seguintes de expansão europeia em todo o mundo.

Na convincente narrativa de Gianni Fresu, não há necessidade de forçar conexões para tornar o pensamento de Antonio Gramsci relevante diante da experiência mais ampla do colonialismo global, visto que a experiência concreta do colonialismo (e, em particular, a brutalidade de sua desumanização de comunidades e tradições inteiras) era parte essencial dos interesses do teórico desde o início de sua evolução moral e intelectual.

Este livro, portanto, nos leva a observar até que ponto a questão sarda pode ser considerada como um “segredo” ou um “escândalo” na origem da questão meridional, tanto no sentido estrito da unidade italiana quanto, mais amplamente, nos processos que constituíram o “Sul do mundo” na ordem internacional contemporânea.

3.

Por essa ótica, a perspectiva interpretativa de Gianni Fresu poderia ser considerada como uma tentativa de “provincializar” a figura de Gramsci, tão bem conhecida no plano italiano e europeu, para usar o termo proposto pela contribuição pioneira de Dipesh Chakrabarty aos estudos pós-coloniais.

Ela nos convida, antes, a considerar os múltiplos modos pelos quais o pensamento e a prática de Antonio Gramsci estavam enraizados em experiências plasmadas não pelas prioridades das culturas nacionais e internacionais que mais tarde se revelariam tão férteis para seu pensamento, mas pelas circunstâncias específicas dos grupos e das classes sociais subalternas sardas de onde ele provinha, influências que permaneceram ativas também, e especialmente, nos anos de sua maturidade, quando refletia ironicamente sobre uma vida marcada pela tentativa de superar sua condição inicial de “provinciano triplo e quádruplo”.

Paradoxalmente, portanto, é apenas essa abordagem que pode realmente nos permitir “desprovincializar” o Gramsci que pensamos já conhecer, ou seja, compreender Antonio Gramsci a partir de uma perspectiva verdadeiramente global, que pode ajudar a explicar seu fascínio quase universal.

Uma vez que a experiência do colonialismo (interno), e a resposta a ele e a seus sistemas de exploração, dominação, formalização jurídica e coerção disciplinar, em resumo, seus processos de subalternização, já era intrínseca ao pensamento de Antonio Gramsci, não é necessário forçá-lo para que se torne pertinente aos mais amplos processos dominantes da política moderna europeia e a sua progressiva colonização global.

Antonio Gramsci foi praticamente o único, entre os grandes teóricos do século XX, a vivenciar diretamente aquilo que Partha Chatterjee definiu recentemente como a realidade das “políticas na maior parte do mundo” durante a modernidade política (o século XX) e, hoje de forma cada vez mais premente, como esforço para criar novas formas políticas e práticas de “dessubalternização”.

4.

A indagação de Gianni Fresu, portanto, coloca a questão da colonialidade do poder, para usar a formulação incisiva de Aníbal Quijano, não apenas nas regiões do mundo anteriormente colonizadas pelas potências europeias, mas na própria colonialidade do poder de Estado na modernidade política enquanto tal.

Ela nos convida, assim, a refletir sobre até que ponto a constituição formal e material do Estado moderno, em suas formas empiricamente variáveis, é também uma relação colonial, não apenas em suas formações sociais extraeuropeias, mas também, e talvez sobretudo, nas zonas centrais metropolitanas (ou tidas como tais) do sistema mundial moderno.

Fundamentalmente, é com base nesses elementos que o livro apresenta sob uma nova luz a contribuição de Antonio Gramsci para a elaboração de uma alternativa ao método convencional de desenvolvimento da modernidade política, ou, em outras palavras, às tradições da prática e do pensamento políticos revolucionários e emancipatórios que foram apenas telegráfica e genericamente sintetizados sob a noção de marxismo.

A famosa proposta de Antonio Gramsci, em seus Cadernos do cárcere, de um desenvolvimento ulterior da tradição marxista como “filosofia da práxis”, formulada no início dos anos 1930, mostra aqui emergir do intenso envolvimento do autor com as heranças da filosofia moderna italiana, bem como da originalidade e criatividade de sua resposta às experiências da Revolução Russa e a suas repercussões globais.

A singularidade de sua proposta, todavia, só pode ser plenamente compreendida levando-se em conta a profundidade de suas raízes nos esforços e aspirações de classes, grupos sociais e povos subjugados pelo Estado integral moderno em escala global e epocal.

As fases anteriores de difusão do pensamento de Antonio Gramsci e debate internacional sobre ele foram profundamente marcadas por perspectivas e prioridades ligadas tanto aos períodos e lugares em que se deram, quanto às afinidades eletivas com as próprias experiências históricas de Antonio Gramsci, desde os debates sobre um caminho inconfundivelmente italiano para o socialismo, passando pela teorização do pós-fordismo nos anos 1970 e 1980, pelos debates contemporâneos sobre a transição democrática na América Latina, pela elaboração das derrotas sofridas pelas políticas emancipatórias dos anos 1990 em diante, até a importância da questão meridional italiana para a compreensão do pós e do neocolonialismo no mundo contemporâneo.

Com este estudo, poderíamos dizer, de certo modo, que Antonio Gramsci “volta para casa”, retornando de suas viagens nacionais e mundiais à matriz sarda na qual seu pensamento se formou. A “questão sarda” emerge, assim, a partir de uma perspectiva internacional como uma experiência particularmente “tradutível”, capaz de lançar luz sobre alguns dos fatores determinantes da modernidade política e sobre os esforços contínuos para criar alternativas emancipatórias a ela.

*Peter D. Thomas é professor de história do pensamento político na Brunel University, London. Autor, entre outros livros, de Radical politics: on the causes of contemporary emancipation (Oxford University Press).

Referência


Gianni Fresu. Questões gramscianas: da interpretação à transformação do mundo. Tradução: Frederico Diehl. São Paulo, Instituto Norberto Bobbio/Editora Boitempo, 2025, 296 págs. [https://amzn.to/3NFK6fL]

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