Era uma vez o futebol

Imagem: Jiban Game
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Por LINIANE HAAG BRUM*

Comentário sobre o livro recém-lançado do cineasta Ugo Giorgetti.

1.

Era uma vez o futebol reúne quatorze contos inéditos e uma amostra da cronística de Ugo Giorgetti publicada no jornal O Estado de S. Paulo aos domingos, de 2004 a 2020, e no site Ultrajano, de 2021 a 2023. Embora o futebol anunciado no título esteja presente em cento e trinta, de um total de cento e trinta e duas crônicas, e em rigorosamente todos os contos, ele é mais um mote da poética de Ugo Giorgetti do que um assunto sobre o qual ele discorre como um especialista. Quem escreve é o autor que transita entre o trágico e o cômico.

A seção dos contos começa com uma narrativa desencadeada pela morte de João Pedro, adolescente vítima de uma revanche entre torcidas, no Rio de Janeiro. Em “Fla x Flu” o conflito ganha forma na tensão entre os amigos da vítima e sua mãe, em razão da insistência dos garotos em enterrar João Pedro coberto com a bandeira de seu time, o Fluminense. O percurso da trama, embora não se distancie do futebol, coloca o leitor dentro da temática da morte precoce, sua banalização e a estreita ligação que ela guarda com a violência urbana.

No dia do enterro, caixão coberto pela bandeira do Fluminense, o cortejo de João Pedro se depara, no Cemitério do Inhaúma, com uma procissão análoga, porém de um jovem da torcida do Flamengo. O narrador conclui: “Os dois enterros pareciam ter se transformado em imagens em preto e branco”.

Já em “O melhor do jogo”, conto que encerra o livro, o futebol é quase que apenas um dispositivo. Inclusive quando o narrador recorre à verossimilhança externa, citando técnicos e jogadores que de fato fizeram fama e história no futebol – rendendo-lhes homenagem – o motor da narração não se afasta do que seria uma reflexão sobre o envelhecimento, a proximidade da morte e a própria morte.

Após uma queda em uma movimentada rua de São Paulo, um velho (um ex-craque) dá por si em um quarto de hospital, em que lhe exigem a presença de um acompanhante: “Fiquei com vontade de dizer que estava só fazia muitos anos”, ele reflete. Mas o drama não começa aí; a verdade é que não há drama no fato de a exemplo de quase todos os velhos, o protagonista ser um solitário.

A ausência do acompanhante familiar dá lugar a uma acompanhante contratada pelo hospital. É ela quem liga a tevê de onde surgem as cenas que disparam digressões do narrador-protagonista “vi logo que se tratava da seleção brasileira (…) não lembro se havia videotape naquele tempo”. O texto se estrutura a partir do fluxo de pensamento e da memória do narrador, em um jogo que reconduz à cena inicial do conto.

O que é verdade, o que é sonho, em que consiste a memória são questões mais relevantes do que a própria vida do narrador, dedicada à vitória futebolística. Impossível não fazer um paralelo com a atmosfera esfumaçada da prosa de Juan Carlos Onetti.

2.

Ugo Giorgetti cria múltiplos narradores também na crônica. Além da persona do “velho ranzinza” apontada por Alcir Pécora no posfácio, há outros tipos que dão vazão à inquietude que parece ser uma recorrência de Ugo Giorgetti: a indignação entre bem e mal-humorada (a exemplo, justamente, dos ranzinzas) ante a degradação da cidade de São Paulo, a corrosão do que seriam bons costumes citadinos, além de um elenco memorialista de personagens e lugares que acionam a sua imaginação, ou melhor, a de seus narradores.

Em “Campeão!” ele assume o que se pode chamar de um narrador sem máscara, que conduz a escrita exatamente no papel de autor do texto: o escritor, o cineasta, o sujeito que opina e firma posição. O que faz é colocar em pauta a dificuldade dos campões em encerrarem suas carreiras, a partir da história do (então) melhor peso-galo do boxe mundial, Eder Jofre.

Ugo Giorgetti assina o longa-metragem documental Quebrando a cara (1986), sobre o ídolo esportivo, o que lhe confere uma posição deliberadamente privilegiada como narrador-cineasta: “filmei sua última luta”, assume. Na crônica ele conta que Eder Jofre, já veterano e longe dos ringues, aceitou lutar contra “um mexicano (…) duro, valente, malandro, de pegada perigosa” (Octavio Gomez), ganhou por pouco, a nocautes, mas sofreu muito e teve “seu rosto bastante castigado”.

O final do texto dá um salto, ao duvidar da necessidade de Eder Jofre de enfrentar aquela luta derradeira, e relaciona boxe, longevidade produtiva e filosofia existencial: “quem sabe a hora de parar, a hora fatal de você dizer basta para aquilo que foi sua vida, seu ar e seu alimento, seu dia e sua noite, a razão de se manter vivo? Você saberia? Eu saberia?”.

Se a robustez do livro impede que se trace um elenco de temas e a relação que cada um estabelece com o futebol no espaço de uma resenha crítica, compartimentar narradores e enquadrá-los em tipologias também é tarefa impossível, talvez até desnecessária. Em Era uma vez o futebol é a inventividade que predomina, seja nos textos de viés factual, seja naqueles em que, claramente, o que o autor faz é criar.

Em “Voltando a vida” o narrador sem máscaras de Ugo Giorgetti propõe um exercício tal como teria lido na biografia de Luis Buñuel – que se imaginou morto, mas saído da tumba temporariamente, apenas para poder dar uma olhada ao redor. Ugo Giorgetti escreve: “Vamos imaginar alguém que subitamente, num belo dia do futuro próximo, aí por 2025, fosse convidado a deixar sua morada no Cemitério do Araçá e estivesse livre para um breve passeio”.

O convite ao “delírio” traça o percurso que esse homem supostamente faria.  Em determinado momento, esse morto-vivo se daria conta de que foi parar às portas do Estádio do Pacaembu: “Onde torcera, chorara de alegria e tristeza, e que conhecia como sua própria casa”. A realidade é atroz. O personagem narrado por Ugo Giorgetti encontra um estádio “deserto, fechado, abandonado”.

Ainda que o cenário seja de desterro, o homem pede a um vigia que o deixe entrar, só para dar uma olhadinha, não mais de cinco minutos. O segurança nega, mas avisa que há um buraco em um tapume de madeira, através do qual o homem poderia espiar: “viu um pedaço de campo deserto, uma trave caída, o vento balançando uma rede furada”, diz o narrador que em 2025 estaria compilado em um volume que escreve o desolo – e o consolo – que enseja o futebol.

*Liniane Haag Brum é doutora em Teoria e crítica literária pela Unicamp.

Referência

Ugo Giorgetti. Era uma vez o futebol. São Paulo, Imprimatur/Quimera Selo Literário, 2025, 436 págs. [https://amzn.to/475pe8t]

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