Por ANDREW KORYBKO
A campanha contra o Irã não é sobre Teerã, mas sobre Pequim: o petróleo iraniano é a moeda de troca para conter a China
1.
Donald Trump afirmou que a campanha militar dos EUA contra o Irã visa “defender o povo americano”, enquanto muitos críticos alegaram (seja em tom de brincadeira ou não) que o objetivo é desviar a atenção dos Arquivos Epstein, mas poucos observadores percebem que, na verdade, tudo gira em torno da China.
A realidade é que ele e sua equipe – conhecidos coletivamente como Trump 2.0 – estão implementando lenta, mas seguramente, sua grande estratégia contra a China. Cada uma de suas ações no exterior deve ser vista como um meio para esse fim. Eles querem conter a China completamente e, em seguida, coagi-la a um acordo comercial desequilibrado que “reequilibre a economia da China em direção ao consumo das famílias”, conforme a Estratégia de Segurança Nacional.
Seu objetivo é obter o controle indireto das enormes reservas de petróleo e gás do Irã, para que possam ser usadas como arma contra a China, forçando-a a aceitar um acordo comercial desequilibrado que prejudicaria sua ascensão como superpotência e, consequentemente, restauraria a unipolaridade liderada pelos EUA.
O governo Trump 2.0 não quer entrar em guerra com a China, e é por isso que eles têm o cuidado de evitar replicar o precedente do Japão Imperial. Exercer muita pressão econômico-estrutural sobre a China de uma só vez poderia assustá-la e levá-la a reagir em desespero antes que a janela de oportunidade se feche. Portanto, eles decidiram privar gradualmente a China do acesso a mercados e recursos, idealmente por meio de uma série de acordos comerciais, a fim de conferir aos EUA a influência indireta necessária para impedir pacificamente a ascensão da China como superpotência.
Os acordos comerciais dos EUA com a União Europeia e a Índia podem, em última instância, resultar na restrição do acesso da China aos seus mercados, sob pena de tarifas punitivas caso se recusem. Paralelamente, a operação especial dos EUA na Venezuela, a pressão sobre o Irã e as tentativas simultâneas de subordinar a Nigéria e outros importantes produtores de energia podem restringir o acesso da China aos recursos necessários para impulsionar sua ascensão como superpotência. O efeito combinado até o momento já está exercendo imensa pressão sobre a China para que esta feche um acordo com os EUA.
2.
Essa é uma ideia original do Subsecretário de guerra para políticas, Elbridge Colby: a”Doutrina Trump” visa manter a superioridade militar dos EUA em relação à China, além de posicionar os EUA de forma a negar complementarmente à China o acesso à energia e aos mercados necessários para sustentar seu crescimento e, consequentemente, sua trajetória como superpotência.
A influência dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela e, possivelmente em breve, do Irã e da Nigéria, bem como sobre as relações comerciais com a China, poderia ser instrumentalizada por meio de ameaças de restrição ou cortes, em paralelo com a pressão sobre seus aliados do Golfo para que façam o mesmo, em busca desse objetivo, que é coagir a China a um status de parceiro júnior indefinido em relação aos EUA por meio de um acordo comercial desequilibrado.
A maioria dos observadores não percebeu, mas a nova Estratégia de Segurança Nacional prevê, em última instância, o “reequilíbrio da economia chinesa em direção ao consumo das famílias”. Trata-se de um eufemismo para a reestruturação radical da economia global por meio dos métodos já descritos, ou seja, restringindo o acesso da China aos mercados e recursos responsáveis por sua ascensão como superpotência, de modo que ela deixe de ser “a fábrica do mundo” e, assim, encerre sua era como única rival sistêmica dos EUA. A unipolaridade liderada pelos EUA seria então restaurada.
Voltando ao Irã, “[ele] representou cerca de 13,4% do total de 10,27 milhões de barris de petróleo por dia [que a China] importou por via marítima” no ano passado, segundo Kpler1, razão pela qual os EUA querem controlar, restringir ou interromper completamente esse fluxo. O ‘Plano A’ era alcançar isso por meios diplomáticos, replicando o modelo venezuelano que entrou em vigor após a prisão de Nicolás Maduro. O Irã flertou com essa ideia, mas não se comprometeu, pois isso implicaria a rendição estratégica do país; por isso Donald Trump autorizou a ação militar para atingir esse objetivo.
Em busca desse objetivo, Donald Trump prometeu à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), em seu vídeo de anúncio da campanha militar de seu país contra o Irã, que eles teriam imunidades se depusessem as armas. Isso reforça a alegação mencionada anteriormente de que os EUA querem replicar o modelo venezuelano, uma vez que sugere fortemente que ele prevê uma Guarda Revolucionária Islâmica recém-alinhada aos EUA governando o Irã no período de transição política antes de novas eleições, assim como os serviços de segurança venezuelanos, também recém-alinhados aos EUA, governam seu próprio país durante seu atual período de transição política.
3.
Tal cenário evitaria a possível “balcanização” do Irã: Azerbaijão, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, todos considerados “amigos-inimigos” do Irã desde 1979 e cujos interesses militares e estratégicos estão convergindo cada vez mais, devem explorar qualquer instabilidade em larga escala que possa surgir após esta nova rodada de ataques dos EUA.
O Wall Street Journal publicou recentemente um artigo provocativo de Melik Kaylan sobre como “um Irã fragmentado pode não ser tão ruim”, com o subtítulo afirmando que “Suas fronteiras são artificiais e uma fragmentação frustraria os interesses da Rússia, da China e de outros”. Ele argumenta que “existe uma possibilidade concreta de guerra civil após a mudança de regime, bem como interferência de interesses externos”, o que presumivelmente poderia ser provocado por um a “revolução colorida” e/ou ataques dos EUA, embora ele não mencione isso explicitamente.
O aparente propósito do seu texto é informar seu público, presumivelmente desavisado, de que uma grande parcela dos iranianos é composta por azeris e curdos, que, segundo ele, se tornaram parte do Irã devido a fronteiras supostamente traçadas arbitrariamente, o que não é verdade, visto que fazem parte da civilização persa há milênios.
As fronteiras atuais do Irã são resultado das guerras que o país perdeu para seus vizinhos mais poderosos nos últimos séculos, e não foram traçadas arbitrariamente como as da África na era colonial, como alguns poderiam imaginar a partir do que Melik Kaylan escreveu.
Esclarecido esse ponto, o restante do artigo prevê que a “fragmentação” do Irã reduziria a influência russa na Ásia Central e levaria à perda de investimentos chineses, possivelmente culminando em um apelo para armar separatistas a fim de alcançar esse objetivo. Embora esse cenário seja improvável, não pode ser descartado, visto que Donald Trump poderia prosseguir com o bombardeio ao Irã assim que as forças navais regionais dos EUA estiverem reforçadas e mais mísseis interceptores forem enviados a Israel, o que poderia resultar em mudança de regime e, consequentemente, na “balcanização”.
Isso não significa que vá acontecer, apenas que é possível, e o contexto regional contraria os interesses de unidade nacional do Irã. O Paquistão e a Arábia Saudita, que são “amigos-inimigos” do Irã desde 1979, firmaram um pacto de defesa mútua em setembro passado, ao qual a Turquia, também “amiga-inimiga”, agora supostamente deseja aderir.
4.
O Irã ficaria então cercado, já que a Turquia já possui obrigações de defesa mútua com o Azerbaijão, o que poderia levar a um conflito entre Azerbaijão e Irã, envolvendo a Turquia e, posteriormente, os demais países.
Se os ataques dos EUA desestabilizarem significativamente o Irã, o Azerbaijão poderá apoiar militarmente seus correligionários, o que poderia levar a uma intervenção da Turquia, possivelmente sob o pretexto de sufocar novas ameaças separatistas curdas. A Arábia Saudita apoiou a tentativa do Iraque de anexar a província iraniana de Khuzistão, de maioria árabe, durante a guerra entre os dois países na década de 1980, portanto, existe um precedente para que retome tal interferência.
Já o Paquistão poderia se envolver no Baluchistão iraniano sob pretextos antiterroristas, semelhantes aos que utilizou para bombardear o Irã em janeiro de 2024.
A derrota do Irã durante a Guerra dos Doze Dias contra Israel, que foi o clímax da Guerra do Oriente Médio após 7 de outubro pode ter levado esses quatro países a enxergá-lo como “o doente” da região, assim como o Império Otomano foi visto desde o século XIX até o seu colapso. Da mesma forma, pode haver preocupações entre alguns deles sobre as consequências do colapso do Irã, o que contextualizaria por que a Turquia e a Arábia Saudita teriam alertado Donald Trump contra o golpe mortal planejado contra o país.
No entanto, espera-se que esses dois países, Azerbaijão e Paquistão, explorem oportunisticamente qualquer instabilidade em larga escala no Irã que possa ser causada pelo ataque dos EUA e Israel ou por uma Revolução Colorida.
O Irã assim estaria preservando o Estado para que pudesse retomar seu papel anterior como um dos principais aliados regionais dos EUA, o que poderia auxiliar os esforços do Eixo Azeri-Turco em projetar influência ocidental ao longo de toda a periferia sul da Rússia. Nesse caso, os EUA obteriam simultaneamente uma influência sem precedentes sobre a China por meio do controle indireto das indústrias de petróleo e gás iranianas, ao mesmo tempo que intensificariam seu cerco à Rússia, o que representaria um duro golpe para a multipolaridade.
- Kpler refere-se a uma empresa de análise de dados e inteligência de mercado especializada em rastreamento de fluxos de commodities, como petróleo e gás, por meio de dados de transporte marítimo e logística. ↩︎
*Andrew Korybko é mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]
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Tradução: Artur Scavone.






















