Por JOÃO LANARI BO*
Comentário sobre o filme dirigido por Maggie Gyllenhaal, em cartaz nos cinemas.
A noiva! é um acontecimento. Coisas que acontecem, sabemos, escapam ao nosso controle, gostemos ou não. A opção da realizadora, e da equipe que a acompanhou nesse frenesi, foi arriscar sem limites, apostando em um empilhamento de ideias, gêneros e temas que desorienta e, eventualmente, afasta o espectador aturdido. Como definiu um crítico esperto, este é um filme que ama o cinema. Ama os anos 1920. Ama o espetáculo. Ama ser estranho.
A recepção do filme, aliás, tem sido oscilante, nos primeiros dias após o lançamento – A noiva! entrou em cartaz simultaneamente nos EUA e Brasil, sem falar de outros mercados. Para os que amam filmes íntimos, com mise-en-scène rigorosa e contida, a narrativa multifacetada e intensa proposta pode surpreender pela ousadia e transbordamento.
Sim, transbordamento, puro excesso – um estado que pode ser aproximado, por analogia, com um delírio febril, uma acumulação de situações que se sobrepõem, algumas bem-resolvidas (a maioria), outras nem tanto. Mas, quando tudo parece descarrilhar, tudo se reorganiza e voltamos ao regalo.
Trata-se, enfim, de um pastiche em espiral. De início, uma proposição antimetafísica extraída do famoso clássico de Mary Shelley, Frankenstein, ou o prometeu moderno. Uma criatura, ou o monstro, vivido na tela por Christian Bale, que é resultado de um sopro científico, e não divino. A sacada da escritora britânica foi captar os ventos iluministas do século XVIII e fazer a passagem para o romantismo nascente do seguinte, o XIX.
A sacada do também britânico James Whale foi rodar Frankenstein em 1931, década fatídica para a humanidade, e em 1935, A noiva de Frankenstein – mesmo que a noiva, no caso Elsa Lanchester, apareça apenas 3 a 5 minutos, principalmente no final do filme, sem diálogos.
Apesar de curta, foi uma aparição fantasmagórica. Já Jessie Buckley, a excepcional atriz que interpreta a noiva no filme de Maggie Gyllenhaal, atravessa e carrega a narrativa, sua exuberância é o gatilho do arrebatamento que nos transporta para o reino da abundância e despropósito. É um fantasma que se materializa na tela do imaginário cinematográfico.
2.
E aqui começam as sacadas da diretora: A noiva! é uma sequência de Frankenstein, feito por Guillermo del Toro no ano passado. A relação com a noiva atual é somente um pastiche pontual, a primeira de uma colagem de influências que alavanca a história. Como disse a diretora, “vou tentar qualquer coisa pelo menos uma vez”. E tentou.
Maggie Gyllenhaal escreveu o roteiro pensando a criatura Frankenstein, agora já com a alcunha que o celebrizou – tirada do seu criador, Dr. Victor Frankenstein – reaparecendo 100 anos depois de eclipsado e angustiado pela solidão afetivo-sexual. Foi parar em Chicago, em 1937, em busca de conselhos da Dra. Euphronious (Annette Bening), simpática e com um leve humor sarcástico.
A solução passa pelo desenterramento de um cadáver, posteriormente energizado pelos experimentos elétricos da doutora e, eureca! Nasce um novo ser! Irascível, imprevisível, imponderável, repentina, a noiva encanta o monstro, mas não se encanta, à primeira vista, por ele.
Ida é seu nome, quando usufruía de uma existência, digamos, abençoada por Deus. Ela integrava um grupo de voluntárias voltadas à aniquilação do mafioso Lupino. Ida e Lupino, a referência emerge no significante acústico – Ida Lupino foi uma destemida cineasta nos anos 1940 e 1950, autora de O mundo odeia-me, em 1953, e O bígamo, também de 1953.
E os pastiches do cinema (Hollywood, claro) vêm à tona caudalosamente. Bonnie e Clyde e Sid e Nancy são explícitos, amantes em fuga, que também lembram o estilo de Assassinos por natureza. Em meio à torrente de entreveros que a dupla de criaturas pós-metafísicas arranja e se veem obrigadas a contornar, linguagens consolidadas e elaboradas a partir do cinema “noir” e dos famosos musicais se sucedem, prefigurando contextos de escape –, mas imediatamente se diluindo na acumulação geral das imagens.
São essas transições que impactam o nervo do prazer espectatorial. Terror gótico ou musical? história de amor ou manifesto feminista? Ida, agora nomeada como Penélope, não se contém na sua fúria, desafiando comportamentos e convenções.
Frank – o diminutivo aparece naturalmente, à medida a aventura do casal avança – fica comprimido entre a descoberta sensual, amorosa e inebriante, e a angústia que experimenta com surtos de violência e uma nevrose reincidente. Seu alívio, e pour cause, é a contemplação pura e simples de imagens, na sala escura do cinema – e seu ídolo é um simulacro de Fred Astaire e Gene Kelly, que atende pelo nome de Ronnie Reed (encarnado pelo irmão de Maggie Gyllenhaal, Jake Gyllenhaal).
A harmonia dos filmes hollywoodianos, advinda da conhecida narrativa clássica, funciona como calmante para o cérebro – na falta de uma melhor definição – de Frank. O mundo fantasioso dos musicais faz uma sutura inesperada com o mundo dos monstros. Se os monstros pressupõem uma projeção de tudo que representa desvios e malefícios da alma humana, os musicais pressagiam a vontade de ordem que anima a audiência, ordem visual e sonora.
Nesse ínterim, o corpo retalhado de Frank é a antinomia do corpo harmonioso de Fred Astaire. Já o corpo colerizado de Penélope tem uma antinomia real, também do cinema – Penélope Cruz.
A atriz espanhola está no filme como uma detetive-assistente, Myrna Malloy, em dupla com Jake Wiles (Peter Sarsgaard, marido de Maggie Gyllenhaal, faz o papel). De colagem de influências, A noiva! passa a configurar um cenário de estruturas elementares de parentesco.
Nossos trânsfugas fogem para Nova York, onde numa dessas festas para os happy few, Frank depara-se com Ronnie Reed – um encontro mitológico, por assim dizer, mito iluminista x mito cinematográfico. É o transbordamento do transbordamento.
Desnecessário sublinhar aqui as excelências técnicas que suportam a empreitada ousada de Maggie Gyllenhaal. Dirigir um filme desses com orçamento nas alturas não é fácil – essa é daquelas experiências que atraem o espectador para uma viagem na razão delirante dos realizadores. Terror, romance, humor, escatologia e arrojo são as premissas.
No final, A noiva! reproduz o corpo de Frank – costurado com partes de outros corpos, e suturado como linguagem.
*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo). [https://amzn.to/45rHa9F]
Referência
A noiva! (The Bride!)
EUA, 2026, 126 minutos.
Direção: Maggie Gyllenhaal.
Elenco: Jessie Buckley, Annette Bening, Jake Gyllenhaal, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard.






















