A atenção em disputa – nas redes e na sociedade

Imagem: Laura Ockel
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Por ARTHUR MENEZES DE CARVALHO CRESPO

O que está em jogo vai além da atenção: é a própria formação de subjetividades numa era onde identidades são moldadas por engajamentos digitais antes mesmo da constituição de um pensamento crítico

Durante meu estágio, estava na sala de aula acompanhando uma professora e auxiliando nas atividades. Conversei com a professora e ela me contou sobre a existência de transformações do tipo de aluno que a escola acolhe e que o professor ensina, algo natural porque nenhuma geração é igual a outra e possui necessidades particulares ao seu tempo. No entanto, ela levantou uma questão sobre o que ou com quem a escola está disputando a importância. Comecei a pensar nisso após meses dessa conversa, e é algo que frequentemente volta à minha cabeça, dei uma chance para refletir.

Algo que podemos observar nos dias atuais de maneira óbvia, é a inclusão da tecnologia cada vez mais na nossa vida. Na etapa onde nos encontramos é praticamente impossível não depender dela. Hoje em dia, fazem parte da dinâmica social, compondo ou ditando a sociedade. Movimentos sociais surgem da internet e suas ações ultrapassam os limites digitais, transformando o coletivo e o privado.

Esses movimentos se utilizam do alto poder de disseminação da internet que entrega para diversos grupos diferentes ou semelhantes ideologicamente. Esses grupos podem expressar de forma positiva ou negativa dependendo do conteúdo postado nas redes sociais, havendo a possibilidade de “ sair da bolha” e gerar mais engajamento no debate proposto pela postagem. Não é raro de se ver os alunos repetirem gírias das redes sociais no ambiente escolar, os influencers, possuem um papel muito importante porque, são deles que se criam tendências e espalham ideias, sejam elas sobre moda, finanças, músicas, pessoas, política…

No entanto, os jovens já faziam isso muito antes do advento da internet porque já havia outras mídias como a televisão por exemplo, mesmo havendo um poder menor de participação e escuta das ideias. O poder de convencimento muda de acordo com o tipo de mídia. A mais poderosa que temos atualmente é a internet e, consequentemente, mais impacta a vida pública e particular.

Quando falei de grupos que se expressam, podemos entender que há uma transmissão de ideias e valores que se espalham muito rapidamente, o que é perigoso de uma determinada forma é a maneira de “cativar” as pessoas com vídeos bem editados ou até mesmo posts com linguagem acessível, são capazes de até mesmo fazer o governo recuar numa ação que seria positiva para a população.

O espaço da disputa: real ou digital?

Não é somente a internet que possui papel importante na concepção de mundo das pessoas, o ambiente em que elas vivem, determinam principalmente, a capacidade da dita cuja “mobilidade social”, não me entenda mal mas, a meritocracia não passa apenas de mecanismo de transferência de responsabilidade da garantia de mínimos básicos como moradia, alimentação e trabalho que é a função do Estado para o indivíduo.

Não estou dizendo que o indivíduo não seja capaz de conseguir trabalho ou moradia por conta própria, no entanto, observo que a máquina estatal está voltada sim, para interesses privados de uma certa elite dominante, ou seja, para a especulação imobiliária, trabalhos precarizados, pjotização e a uberização do trabalho são meios existentes para a persistência e a expansão do poder dessa mesma elite.

Repare, mesmo que essas mudanças sociais estejam retirando direitos e prejudicando na qualidade de vida dos trabalhadores, não existe movimentação expressiva sobre esses ataques nas mídias tradicionais. O poder da persuasão dos atores políticos que trabalham em prol da elite dominante e se utilizam da internet, desse espaço sem regulamentação e normas preventivas contra o discurso de ódio, não gerando um ambiente seguro para a ampla diversidade de crenças e identidades para atacar as minorias e direitos conquistados pelo suor e luta de diversos coletivos e organizações populares.

A disputa da atenção aparece como forma narrativa e convincente quando atende determinados elementos da confiabilidade de cada um. Como a narrativa é exposta, conseguindo englobar diversos grupos e apresentar concepções que dentro de uma determinada lógica, produz sentido real para o indivíduo é sim possível convencer e mobilizar de alguma forma; seja pelas redes digitais ou pelas redes sociais reais. O que podem ser os elementos que fazem uma pessoa confiar na outra? A estética é uma delas.

Com valores carregados de significado, a estética é importante para o debate público pois, auxilia na argumentação e na sensação sobre o assunto falado. Em tempos de campanha eleitoral, a estética com as propagandas televisivas é um dos fatores que afasta ou não as pessoas de uma determinada ideia. A representatividade é crucial para entender o sentimento de aproximação dos eleitores e de suas características mais únicas.

Vejo a estética como categoria de apoio para expressão de ideias, ou seja, ela é complemento da forma expressiva de uma determinada ideologia. É um termo muito amplo e cheio de significados, no entanto, quero me atentar a um detalhe, a influência dela nos jovens. A juventude possui anseios e busca validação, mesmo que inconsciente de outros jovens da mesma bolha, ou seja, uma busca ativa de incorporação de símbolos, valores e ideias; algo para pertencer e chamar de seu.

A formação de uma identidade é importante para a constituição mais sólida de um indivíduo. Suas ideias, gostos, percepções e visões de mundo são construídas na adolescência mais fortemente, mas também na primeira infância. As mídias possuem um papel muito forte nessa construção, os jovens irão buscar referência na internet, principalmente nas redes sociais.

Os grupos de extrema direita se utilizam da estética da internet e se adaptam para o jovem, isso é feito atrair exatamente esse mesmo público. A incorporação de símbolos e ideias da extrema direita acaba por se manifestar nesse jovem e nos espaços em que o mesmo ocupa, principalmente na escola e nas redes.

Na escola vai ser manifestado de algumas formas, seja pelas conversas entre os colegas de classe, desafiando o entendimento do professor sobre os assuntos, questionamento dos currículos que “doutrinam ” os alunos, entre outros. Gostaria de trazer uma reflexão: Como podemos lidar com uma geração de alunos que se guiam, ou seja, buscam referência na internet de como ser, se portar e pensar?

Lógico que estou não pensando que a internet educa os jovens de maneira solo, os familiares possuem importância sim nesse processo. Como lidar com essas novas questões e suas especificidades é algo para trabalhos futuros.

*Arthur Menezes de Carvalho Crespo é graduando em ciências sociais na UERJ.


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