Bruna Belaz

Imagem: Animesh Srivastava
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIS FELIPE MIGUEL*

Comentário sobre a atuação política da presidente da UNE

Pode ser só desinformação minha, mas parece que a União Nacional dos Estudantes (UNE) anda bem apagadinha. Já a presidente da entidade anda ganhando um banho de visibilidade do jornal Folha de S. Paulo.

Faz uns dias, ela estrelou uma entrevista de página inteira, para denunciar uma suposta “rede de ódio da esquerda” – por conta dos ataques que estaria sofrendo em redes sociais, de pessoas que discordam de suas posições políticas.

Em seguida, apareceu como co-autora de um artigo de opinião, em defesa do “protagonismo feminino” na formação da “frente ampla”. As outras autoras eram Simone Tebet, Isa Penna e Tabata Amaral. Belaz, a presidente da UNE, é a única das quatro que não detém mandato parlamentar.

Só passei os olhos pela entrevista, o suficiente para achar que o destaque era despropositado. A “rede de ódio” é o debate acalorado, com excessos eventuais, é verdade. Generalizar o excesso como se fosse a regra parece uma forma de promover o silenciamento.

Mas li o artigo a oito mãos, que era exatamente o que dava para esperar: um verniz de representatividade identitária recobrindo a defesa, pouco articulada e pouco argumentada, de uma política de capitulação. A confluência entre emedebismo, Fundação Lemann e mesmo o pecedobismo (na figura da presidente da UNE) não chega a causar espécie. A presença do PSOL, sim.

Pois hoje eis que Belaz está novamente na Folha. Matéria de mais de meia página falando de novo sobre os “ataques” sofridos nas redes – após a entrevista na própria Folha. A reportagem fala que ela foi alvo de ameaças, de incitações à agressão física, de racismo e de machismo. Sim, este tipo de coisa ocorre com perturbadora frequência. Por vezes, parte de pessoas à esquerda. Deve ser combatido com veemência.

Mas o que a reportagem apresenta concretamente é uma postagem de José de Abreu (faz-se questão de acrescentar que ele “pretende ser candidato pelo PT”), que compartilhou a entrevista e comentou: “Vergonha”. Também cita o tuíte de um (ao menos para mim) anônimo e um artigo no site do PCO, que diziam que a presidente da UNE está “a serviço da casa grande”. E só.

José de Abreu e PCO têm histórico de excessos. Mas, no caso, a partir do que está escrito na reportagem e até onde posso ver, são manifestações críticas legítimas, concorde-se ou não com elas. Construir a partir delas uma denúncia da “intolerância” da esquerda é negar a possibilidade do debate – assim como refugiar-se no pertencimento identitário para ganhar imunidade a qualquer tipo de crítica.

Parece-me que a presidente da UNE está costeando o alambrado. O nome da coisa é oportunismo.

Aliás, Isa Penna também. A gente já sabia que tem uma ala do PSOL querendo apoiar o Lula, outra a favor de candidatura própria. Mas pelo jeito tem quem namore também com a ideia de “terceira via”…

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Razões para o fim da greve nas Universidade Federaisbancos 16/05/2024 Por TADEU ALENCAR ARRAIS: A nova proposta do Governo Federal anunciada dia 15 de maio merece debate sobre continuar ou não a greve
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • A greve nas universidades e institutos federais não…caminho tempo 17/05/2024 Por GRAÇA DRUCK & LUIZ FILGUEIRAS: As forças de esquerda e democráticas precisam sair da passividade, como que esperando que Lula e o seu governo, bem como o STF resolvam os impasses políticos
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total
  • O cavalo Caramelocavalo caramelo 15/05/2024 Por LEONARDO BOFF: Há que se admitir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas
  • SUS, 36 anos – consolidação e incertezasPaulo Capel Narvai 15/05/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: O SUS não foi o “natimorto” que muitos anteviram. Quase quatro décadas depois, o SUS está institucionalmente consolidado e desenvolveu um notável processo de governança republicana

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES