Por ELIAS JABBOUR
A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o “pacífico” desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
1.
O presidente chinês Xi Jinping em sua mensagem de final de ano lançou uma frase muito objetiva e que, mesmo para o senso comum diplomático, pode ter passado despercebido: “A tendência histórica de reunificação da pátria é irreversível”. O presidente claramente estava se referindo a Taiwan. Qual a grande novidade semiótica deste pronunciamento? Simples sem ser simplista: a noção de unificação pacífica desapareceu do léxico colocando em seu lugar a nada sutil expressão de “tendência histórica”.
A tradução de “tendência história” deve ser a mais clara possível. Trata-se de um processo cuja nenhuma ação humana seja capaz de conter. Da mesma forma que as leis da natureza impõe regularidades que dão o ritmo das mudanças no meio natural. Na prática, nem as ações de outras potências – notadamente os Estados Unidos – poderão conter esse processo. Processe este que já não poderá ser pacífico como outrora e sim de acordo com as necessidades colocadas pela própria história. Inclui-se a guerra propriamente dita.
De um ponto de vista particular, para o lado chinês, o melhor cenário é o da manutenção do atual status quo com a ilha mantendo seus símbolos, moeda e sistema, porém sem declarar independência. Porém, o cenário muda ao longo das duas últimas décadas na mesma proporção em que as forças de oposição ao Kuomintang acumulam forças e alcançam o poder central da ilha em linha com a direita mais inconsequente dos EUA que podem ser localizadas tanto dentro dos Partido Democrata quando no Partido Republicano.
Vejamos, ao mesmo tempo em que Donald Trump desautoriza a primeira-ministra japonesa a provocar abertamente a China usando-se da questão de Taiwan como meio, os Estados Unidos venderam um pacote de US$ 12 bilhões em armas à província. Tratou-se de uma provocação aberta aos chineses que, por sua vez, responderam com sanções contra cerca de 20 empresas de defesa dos EUA edez altos executivos ligados às vendas de armas. Ao lado destas medidas, exercícios militares na região foram retomados em clara demonstração de força e das capacidades do continente em cercar e bloquear a ilha.
2.
Porém, ficam duas questões mais estratégicas. Como a China se preparou, e se prepara, para o caos global tendo em vista seus interesses em Taiwan e no mar do Sul da China? E como o país trabalha diante de um “acordão” com os Estados Unidos?
A segunda questão é menos complexa, pois demanda um exercício de lógica formal simples para uma conclusão. Os EUA não são um país confiável, mesmo acenando para um recuo às outrora “áreas de influência”, o que deixaria a China com liberdade de ação em seu entorno. Perguntemos. Tendo em vista que o grande interesse estratégico estadunidense é deter a China, o que demanda desgastá-la, qual o sentido de “abandonar” Taiwan e o mar do Sul da China? Respondo: nenhum.
Já a primeira questão tem mais alto grau de complexidade. O caos. Ainda precisamos encontrar uma dialética que nos entregue a relação entre a atual doutrina de política externa do país, o “Corolário Trump” e a estratégia global de uma potência decadente que necessita do caos enquanto forma de governança em um mundo em intensa transformação e com bases materiais muito diferentes da “retomada da hegemonia” nos anos de 1980 com Ronald Reagan.
Traduzindo, a China de hoje é completamente diferente da então União Soviética e o próprio Japão. No limite, os EUA nunca aceitarão sua superação. E nisso Taiwan é ainda um grande ativo em suas mãos como forma de conter e desgastar a China.
A China diante desse cenário opera em várias frentes e em nenhuma delas o trabalho deu-se início agora ou recentemente. O próprio projeto de modernização iniciado em 1978 foi uma resposta à demanda histórica de reunificação do país via criação de uma zona de convergência econômica entre o continente e Hong-Kong, Macau e Taiwan enquanto base do conceito de “um país, dois sistemas”.
O resultado é uma dependência econômica de Taiwan em relação ao continente nada pequena: quase um terço das exportações de Taiwan vai para a China, e cerca de um quinto das suas importações vêm do continente – o que faz de China/Hong Kong o parceiro econômico mais importante do ponto de vista do comércio. Do ponto de vista econômico e comercial, Taiwan já foi absorvida pela China. E isso é fundamental.
Militarmente, a expansão dos gastos chineses no setor é uma necessidade tanto histórica quanto de um entorno regional cada vez mais instável, incluindo a própria dinâmica taiwanesa. Entre 2019 e 2025 o orçamento militar oficial da China tem crescido todos os anos a taxas médias de 6,9%. Suas capacidades de dissuasão e coerção tem-se elevado em grande proporção, ainda que uma ocupação militar da província ainda não seja uma opção imediata.
O mais importante nesse ponto é a já citada e demonstrada capacidade chinesa em isolar Taiwan por mar, ar e terra. O país já conta com três porta-aviões, muito distante dos EUA ainda, mas o recém-lançado Fujian é capaz de rivalizar com o USS Gerald R.
A elevação da pressão psicológica aliada a crescentes gastos e presença militar ao redor da ilha tem sido altamente funcional para, ao menos por enquanto, manter o atual status quo. Ao que tudo indica, a mudança semiótica conforme notada no discurso de ano novo e Xi Jinping esteja em conformidade com a oficialização do caos enquanto instrumento de governança mundial.
As coisas não tendem a parar por aí. O consenso entre especialistas ocidentais é que em 2027 o continente esteja pronto para uma tomada militar total da “província rebelde”.
*Elias Jabbour é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Autor, entre outros livros, junto com Alberto Gabriele, de China: o socialismo do século XXI (Boitempo) [https://amzn.to/46yHsMp]





















